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Anabela Mota Ribeiro

Ensaio sobre a Cegueira

22.05.22
Sábado, 21 Maio, em Paris: Noite da Literatura Europeia.
A convite do Camões, da sua directora Isabel Corte Real, falei do Ensaio sobre a Cegueira de Saramago.
Partilho convosco algumas notas da minha intervenção, feita em francês, nos 20 minutos de que dispunha.
 
“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”
Livro dos Conselhos (epígrafe)
Publicado em 1995, quase a terminar o milénio: visão pessimista do fim do século. Distopia literária.
A viver em Lanzarote desde 1993. Livro foi já escrito entre os vulcões da ilha. Cor negra. Isolamento.
Deus, a relação com a religião, é um tema central na obra de Saramago. Neste livro, questiona as origens da nossa civilização ocidental. Na base, Saramago, encontrou a mentira, o dogma, a crueldade. Esse questionamento, iniciado no Evangelho segundo Jesus Cristo, é o que prossegue no Ensaio sobre a Cegueira.
 
Celebramos o centenário de Saramago.
Nasceu em 1922, morreu em 2010.
Prémio Nobel em 1998
“... que, com parábolas portadoras de imaginação, compaixão e ironia torna constantemente compreensível uma realidade fugidia”.
Depois do “Ensaio sobre a Cegueira”, disse que se pudesse ser recordado por alguma coisa no futuro, queria ser recordado como o criador do Cão das Lágrimas.
 
Este é o livro mais lido de Saramago e, depois de dois anos de pandemia, a sua escolha é inevitável. Como no romance, vivemos uma pandemia altamente contagiosa, que nos pôs em contacto com o medo, a doença, a mortalidade, com uma situação limite. E o que se revela nessas situações limite? E agora que saímos, perguntamos: como seguimos em frente?
No romance: pergunta-se porque cegámos?
Na nossa vida: a pandemia não foi uma alegoria, mas obrigou-nos a repensar o modo como vivemos. Os sentidos de ver e reparar.
 
Romance de ideias, com perguntas:
Apocalipse: uma inexplicável epidemia de cegueira branca, os olhos vêem um mar de leite.
- Epidemia é física e espiritual?
- Quem vê?, olhos ou cérebro?
“O médico sorriu sem querer. Os olhos não são mais do que umas lentes. É o cérebro quem realmente vê”.
- O que vemos realmente? Somos cegos que vêem, como se escreve no romance?
 
“Como quem vai por um caminho e encontra uma pedra, levanta-a para ver o que está debaixo: isso é o que faço”: ou seja, é preciso voltar as coisas para as ver de verdade — diz Saramago.
Questiona as fronteiras entre aparência e realidade, porque olhar para o invisível aumenta a compreensão do real, ajuda a ver a indignidade, a decomposição.
Precisamos olhar a realidade cara a cara.
No livro, há a intenção de estimular o espírito crítico, manter a inquietude.
“A palavra que mais gosto de dizer é não.” Não é a palavra transformadora, agente de mudança do status quo.
 
Compreendemos que, nas relações de domínio, e em situações limite: aparece o monstro que temos em nós, a crueldade, o egoísmo, a irracionalidade humana, a violência, a brutalidade, a desumanidade, aparece o “homem lobo do homem”, Homo Homini Lupus, expressão latina tornada célebre pelo filósofo inglês Thomas Hobbes.
Ou seja, neste livro de Saramago, como em todos, há uma dimensão ética e política. O humano é aquele que faz escolhas. Então, que escolhas fazemos?
 
Espaço e tempo não são concretos.
Personagens sem nome, e por isso universais. Humano e global.
A rapariga de óculos escuros. O velho da venda preta. O primeiro cego. O rapazinho estrábico. O cão das lágrimas.
A excepção: a mulher do médico.
 
Género: romance, ensaio.
Fábula, alegoria, analogia, parábola sobre os males contemporâneos, sobre o mundo capitalista.
 
Reparar: deter-se, olhar de outro modo, abandonar a ligeireza, recapacitar-se.
Epígrafe do Livro dos Conselhos. Ressonância bíblica.
 
A parábola dos cegos de Bruegel, o Velho. Século XVI, conduzidos também por um cego. “A prova definitiva de que Deus não existe é a queda dos cegos de Bruegel”.
 
 

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