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Anabela Mota Ribeiro

Carolina Villaverde Rosado e Joana Villaverde

28.06.22

Joana Villaverde é artista plástica. Tem 43 anos, duas filhas. Carolina Villaverde Rosado, a filha mais velha, estuda Ciências Políticas em Roma. Tem 20 anos. Constança acabou de fazer 18 anos, estuda na António Arroio, vive em Lisboa.

Joana casou com Patrícia há dois anos, estão juntas há 14. No casamento, em Aviz, estava o pai de Carolina e Constança, a família deste, as famílias das noivas, as pessoas da terra...

Carolina não tem memórias do pai e da mãe juntos. Desde que se lembra de si, tem uma madrasta e não um padrasto. Ela não gosta de dizer madrasta. É a Pat.

Como foi crescer com uma família homossexual? Fez diferença?

Mãe e filha contaram, em separado, como é esta família igual às outras, e feliz à sua maneira.

 

Carolina

Um auto-retrato? Posso dizer que sou uma menina alegre. Não, não sou alegre: sou feliz. Curiosa. Gosto de pessoas. Resumindo muito: eu é pessoas. Sou eu em relação com os outros. Não me preocupo com o que os outros dizem. Talvez um bocadinho... Ninguém é completamente livre. Antes fôssemos. Mas a relação com os outros é central. Uma vez disseram-me: “Com o teu sorriso é possível alegrar tudo”. A base da minha felicidade está na educação que os meus pais me deram. Ou seja, faz o que te faz feliz.

Separaram-se quando eu tinha dois anos. São muito novos e tiveram-me muito novos. Isso é importante porque consigo estar com eles e os amigos deles sem pensar: “Lá vêm os adultos”.

O meu pai veio viver para Portugal aos seis anos. A minha avó é inglesa, o meu avô é português. Começou a trabalhar aos 17, é designer gráfico. Nenhum dos meus pais acabou a escola. São os dois uns meninos.

A minha irmã é dois anos e quatro meses mais nova do que eu. Os meus pais separaram-se quando ela tinha três meses. Ficámos a viver com a minha mãe e ao fim de semana estávamos com o meu pai. Mas aquilo mudava. Era consoante as folgas que ele tinha. Nunca houve nada fixo. Nunca houve aqueles problemas de tribunais. São super-amigos. Não me lembro dos meus pais juntos. Tenho memórias da separação, de discussões ao telefone.

A minha mãe teve uns namorados entre o meu pai e a Pat. O meu pai foi tendo mais namoradas. Quase não me lembro da minha vida sem a Pat. Desde os quatro anos que tenho esta madrasta. Nunca digo isto! Não gosto nada de dizer madrasta. É a minha mãe e a Pat.

As minhas amigas, as principais, sabiam. A Pat era uma amiga da minha mãe que vivia lá em casa. Eu fazia questão, quando as minhas amigas dormiam lá em casa, de dizer que era uma amiga da minha mãe que dormia na mesma cama da minha mãe. Era evidente que não havia outro quarto, e preferia dizer.

Nós vivíamos na Estrela com a minha mãe. De vez em quando aparecia a Patrícia. Ficou Pat mais tarde. Perguntei porque é que ela não vinha mais. “Porque vive em Madrid.” Estava a fazer o doutoramento, é bióloga. Era bom quando estava. Era uma pessoa simpática, que gostava da minha mãe.

Depois fomos viver para casa dela, na Alameda. Eu tinha seis anos. Estava na primeira classe e lembro-me do momento em que disse que ia mudar de casa. A princípio, era a casa da Pat, da família dela. A Pat tinha vivido nessa casa quando era pequenina. A minha irmã e eu dormíamos no quarto que tinha sido dela.

Uma vez perguntei directamente à minha mãe se ela e a Pat eram namoradas. Tinha nove anos. Era para ter as coisas mais claras. A minha mãe disse que sim. Normal. Contei a uma amiga. “Olha, afinal não é só uma amiga que dorme na mesma cama. São namoradas.” Eu sabia que eram namoradas, mas passou a ser verbalizado. Antes disso, nunca tinha sido dita a palavra “namorada”.

Quando era pequena, dizia. Era uma coisa nova para mim e para os outros. Não queria que os meus amigos sentissem que era uma coisa esquisita. Foi uma forma de me proteger, para não ter os bullyings. Nunca tive, não sei o que isso é. Dizia para que percebessem que era uma coisa normal. Depois deixei de dizer. Era tão normal que nem se dizia. Tenho uma amiga antiga que só percebeu quando lhe disse que iam casar. Ficou espantada. “Mas eu nunca te tinha dito que a minha mãe é homossexual?”

Nunca percebi bem como é que o meu pai lidou com a relação da minha mãe e da Pat. Acho que lidou bem. O meu pai estava no casamento delas, foi um dos primeiros a chorar... O meu pai tem conflitos amorosos, conta à minha mãe. A minha mãe tem problemas amorosos ou outros quaisquer, conta ao meu pai.

Chorou toda a gente no casamento. Era uma coisa tão bonita... Era o triunfo do amor.

Tivemos uma educação estrangeirada. A normalidade tem a ver com o meio em que circulamos. Foi possível que fosse uma coisa normal. A minha mãe protegia-nos muito. Mas sempre se falou de tudo lá em casa. Sexo, amigos, problemas amorosos, escolares, dinheiro. O que nos perturba tem de ser dito. Se não se partilha fica ali uma bola. Acho que isto tem a ver com a minha família, que nunca fez daquilo um bicho de sete cabeças. Nunca se escondeu.

Também nunca se expôs. Não andavam aos beijos. Acho que nunca vi um grande beijo entre a minha mãe e a Pat... Também não se vêem muitos casais hetero aos beijos, como se um entrasse dentro do outro. 

Na escola fiz um trabalho de grupo. Um tema à nossa escolha. Escolhemos homossexualidade. No Liceu Francês há pessoas abertas e outras que não são tão abertas. Colegas. Os professores são abertos. São franceses fixes. O meu grupo estava a fazer um trabalho sobre a homoparentalidade. Sobretudo os rapazes eram contra. Um colega disse: “Isso é uma coisa horrível. Depois as crianças também vão ficar homossexuais”. Simplesmente respondi: “A minha mãe é homossexual. Sou homossexual, eu?” Ficaram a olhar para mim. Brancos. Nunca mais me esqueço da cara deles. “Não.” Foi assim que lhes disse que a minha mãe é homossexual. Estava a enervar-me aquilo. Estavam a ser tão estúpidos, tão estúpidos...

O trabalho ficou chato. Passaram a ter mais cuidado com aquilo que diziam. Não era preciso.

Tinha 16 anos quando isto aconteceu.

Nunca senti nenhuma vergonha, nenhum embaraço. Nunca. As minhas amigas foram ao casamento da minha mãe. Fiz questão de ir bonitinha. Fui despejar o lixo e uma senhora de Aviz, onde foi o casamento, disse-me: “Então muitos parabéns às noivas”. Como é que aquela senhora, que nunca tinha visto, sabia que era o casamento de duas noivas? E estava contente!

Quando eu tinha 15, 16 anos, elas separaram-se. Fiquei super triste. Achei que não iam voltar. Uma amiga disse-me: “Claro que vão voltar. Vê-se mesmo que gostam uma da outra”. Passou um ano, um ano e meio. A minha mãe foi viver para Nova Iorque cinco meses, ganhou uma bolsa. Voltaram. Fiquei muito feliz. Porque, lá está, é a minha mãe e a Pat. Sei que gostam muito uma da outra.

Fez-me confusão. “E agora, será que a minha mãe se vai juntar com outra mulher?” A possibilidade de vir outra mulher... Não sei se era por ser outra mulher ou por ser outra pessoa. Acho que era um misto das duas coisas.

Já com o meu pai, sempre que acaba com uma namorada, quando vem outra há sempre um nervosismo. “Ai, ai, ai, e se eu não gostar desta?”

Também me lembro de pensar: “E se agora é um homem?” E se a minha mãe não gostava de mulheres (em geral), gostava era da Pat? Também era estranho pensar na minha mãe com um homem.

Quando se começou a falar de co-adopção, disse: “Não me importava de ser co-adoptada”. Não era não ter pai ou não ter mãe. Era ter mais. Não posso ser co-adoptada porque tenho um pai, mas não me importaria. Não é uma substituição, é uma mais valia.

A minha mãe vive um pouco nas nuvens. A Pat não. Eu sou muito responsável. O meu pai também é, mas não tanto como eu. A minha mãe goza: “Ela sai a ti, Pat”. Saio à Pat nisso. E na noção de que há coisas que têm de ser feitas para não se viver só no sonho. 

Estando a minha mãe e a Pat casadas é mais fácil lidar com a coisa. “Namorada” soava um bocadinho esquisito... É mulher! É mais oficial ainda. Quanto mais oficial, mas fácil é falar das coisas. O casamento põe a coisa mais ao nível de outros relacionamentos. 

A experiência da minha irmã é diferente. Ela não é tão aberta. Quase não falámos sobre este assunto. Só um pouco, quando elas se separaram. Também não falávamos muito do meu pai e das namoradas dele. Talvez falássemos um bocadinho mais porque houve várias. Acho que nunca falámos sobre a minha mãe e a Pat porque não era preciso falar. Fazia parte.

Se calhar não faz sentido o que vou dizer, mas digo: não se questiona o pai e a mãe. São aqueles. E eu também não questionava a minha mãe e a Pat. Desde que me lembro de mim, elas existem.

A verdade é que a minha irmã e eu só começámos a falar desde que fui para Bruxelas, onde estive dois anos. Agora estou em Roma. Ela começou a crescer, começámos a ter mais proximidade. Começa a ser também uma amiga, para além de ser minha irmã.

Referências? Como tenho a referência masculina do meu pai... Mas não é por aí. Acabamos por ter referências masculinas e femininas de várias pessoas. O avô, um tio, um amigo mais próximo. Acho esse argumento um bocado estúpido. Acho que depende mais da relação com os pais. Tenho amigos que não falam com os pais. Eu falo. Com os meus pais, com a Pat. Agora também falo com a Pat sobre tudo.

Referências femininas: a minha mãe nunca se pintou, eu era a miúda mais pirosa que se possa imaginar. Ainda bem que a minha fase pirosa foi aos seis anos... Pintava-me, inventava fatiotas, ia de saltos altos para a escola. A minha mãe dizia: “Há-de passar”. E passou. O maquilhar vem da minha avó materna. Ela punha um risco nos olhos e usava uns brincos brilhantes.

A minha família é uma família alargada. O núcleo é a minha mãe, a Pat, o meu pai e a minha irmã. Não sei se as namoradas do meu pai entram na família alargada... 

Nunca tive ordens da Pat. Ordens do tipo: “Vai lavar a loiça”, sim. Decisões do tipo: “Posso ir a uma festa?”, não. Talvez entre elas houvesse um consenso, mas a informação passada era a da minha mãe. Nunca tive com a Pat uma disputa pelo poder. Posso ter dito, em criança, “Tu não és a minha mãe”. Como disse às namoradas do meu pai. O normal que os miúdos dizem. “Tu não mandas em mim.” Birras. Talvez o “vai lavar a loiça” da Pat não fosse igual ao da minha mãe. Mas tínhamos de lavar de qualquer maneira.

Não percebo essa coisa de os filhos dos homossexuais saírem homossexuais... Eu não sou. Quer dizer, ainda não me apaixonei por nenhuma mulher, nunca me senti atraída por nenhuma mulher. Mas quem sabe?

 

Joana

É igual. Mãe, pai. Mãe, mãe. Pai, pai. O principal para as crianças é sempre o amor.

Tive as minhas filhas muito cedo. A única certeza que eu tinha era que tinha amor para lhes dar. Do resto, não sabia nada. Se ia ter casa, se ia ter dinheiro para pagar as contas. Eu sabia que tinha a capacidade de as amar. Sabia mesmo. As minhas filhas cresceram a saber que são amadas. Por isso, tanto fazia, de facto, a sexualidade que a mãe tinha.

Elas são amadas pela mãe, pela mulher da mãe, pelo pai, por mais gente. Ganharam mais família.

Para elas, durante alguns anos, era uma coisa ambígua. Tive alguns cuidados, porque eram muito pequeninas quando comecei a namorar com a Patrícia. Tive medo que fosse tão natural para elas que se pusessem a dizer na escola que a mãe tinha uma namorada e que pudessem sofrer com isso.

Uma das primeiras coisas que quis fazer – por elas – foi dizer ao pai delas que tinha uma namorada. Dizer à mãe do pai delas que tinha uma namorada. À minha mãe, à minha família. Quer dizer, que o núcleo familiar delas soubesse. Soubesse tudo. Que fosse tudo claríssimo.

Vamos do princípio. Tive a Carolina com 22, quase 23, a Constança com 25. Era uma maluquice. Tem a ver com as artes. Era um amor e uma cabana. Concretizámos esse sonho, o Zé Pedro e eu. Ele é designer. Ultra-presente enquanto pai. Foi muito importante nesta revolução na minha vida. Eu própria também não sabia que havia esta possibilidade de me apaixonar por uma mulher.

Ah.

Sabe o que era? Era a capacidade de amar. O que for. Homem, mulher..., aconteceu-me assim. Não é ser uma coisa e depois ser outra. É ser-se sempre a mesma pessoa com inúmeras capacidades. A capacidade de amar – os filhos, um homem, uma mulher – existe em mim. Não houve nenhuma alteração.

Na sociedade que temos não é simples assumir a homossexualidade. Nunca quis dar entrevistas. Não tenho de expor a minha vida pessoal e a minha sexualidade ao mundo. Mas hoje, como as coisas estão, acho que é importante começar a dizer-se. Dizer que é natural. Dizer que ninguém tem nada a ver com a sexualidade do outro. Podia ser um homem. É uma mulher, que amo há muitos anos. Casámos. Somos muito felizes.

O Zé Pedro e eu começámos a namorar cedíssimo. Eu tinha 15, ele tinha 14. Começámos a viver juntos aos 18. Separámo-nos no ano em que nasceu a Constança. Foi muito mais inconsciente ter crianças na situação em que as tivemos do que juntar-me com a Patrícia e com as minhas filhas. Não havia estrutura. O Zé Pedro era o único que trabalhava, eu, como artista plástica, só tenho dinheiro sabe-se lá quando. Nunca é por mês e as contas são por mês. Não havia nada, senão o amor.

O estar tudo bem com as crianças sempre foi o principal. Os fins de semana: a Carolina agarrava-se a mim como uma lapa, não queria ir. Eu tirava-lhe dedo a dedo: “Tens de ir para o pai. Porque é assim”. Depois comecei a ficar muito cansada e pedi-lhe que ficasse uma semana por mês com elas. Guarda-conjunta. Nunca tratámos de nada legalmente. Foi tudo a falarmos um com o outro. Acordo.

Quando me apaixonei, demorei algum tempo a perceber o que é que estava a acontecer. Até ao momento em que me perguntei: “Porque é que não estou mais com aquela pessoa se estou tão feliz com ela? Porque é que estou a retrair-me?” Eram os meus próprios preconceitos, os preconceitos sociais. Percebi que estaria muito melhor se estivesse sempre com aquela pessoa. A Patrícia. A Pat.

Nunca mais me vou esquecer da frase que me disse a minha sogra, a mãe do Zé Pedro, quando lhe disse que ia viver com a Patrícia. Ela é inglesa. “But you know the big step you’re doing?” Sempre do meu lado, sempre do meu lado. “Sei.”

Tinha ido falar com uma pedopsiquiatra. Estava com medos. Como é que eu ia fazer? Como é que geria isto? Ela respondeu-me: “O que é que as pessoas têm a ver com isso?” Mas eu queria que as miúdas tivessem a base segura. Que não houvesse mentiras.

Não sei mentir. Incuti-lhes a ideia de que não se mente. Se se mente perde-se a confiança e perde-se o essencial numa relação, não é? Não podia mentir às minhas filhas. Mas cheguei a dizer que a Patrícia era uma amiga muito especial... Uma amiga muito especial quando a criança tem quatro anos pode ser o que a criança quiser. Era uma espécie de mentira... Tive de esperar que elas tivessem os seus alicerces.

Retomando a história: depois de me apaixonar, demorei tempo a aceitar. Um andar assim, depois uns beijos, tudo muito estranho. [riso] Quero, não quero. Sobretudo pela responsabilidade em relação às miúdas. Eu queria ter a certeza do que estava a fazer.

Não queria criar confusões. O mesmo com namorados homens, que tive, depois de me separar do Zé Pedro. Agora a mãe anda com um e depois com outro? Se não tinha a certeza do que era aquela relação, não queria que fossem dormir lá a casa. O normal. É o que se faz aos meninos.

Contei que me tinha apaixonado no momento em que fui viver para casa da Patrícia. Foi uns dois anos depois de estarmos juntas. Antes disso a Patrícia vivia em Madrid, estava a fazer o doutoramento. É cientista.

Acho que não houve nenhuma conversa difícil. A conversa com a Melinda, a mãe do Zé Pedro, foi libertadora. Eu sabia responder ao que ela me perguntava, eu sabia que aquele era um grande passo. Estava segura.

À minha mãe perguntei: “Não sei se já percebeste o que é esta relação que eu tenho...” Ela fez-me meio desentendida. Insisti: “Nunca verbalizaste com o Grilo (era o namorado dela)?” “Por acaso já verbalizei”. Ficou assim.

O meu pai já tinha morrido. Morreu no ano em que me separei, em que nasceu a Constança, 1996. Foi um ano duro.

A minha relação com a Patrícia fez muito bem à cabeça da minha mãe. Tem 71 anos e mudou. Há uns tempos, se calhar, não acharia nada bem a co-adopção. Diria: “Coitadas das crianças. Vão ser cobaias”. Percebeu que o amor é o mais importante. E sabe o que são as crianças em instituições. Percebeu, na prática, que não há problema nenhum.

Temos duas amigas que vivem juntas e que têm duas filhas; a minha mãe acha o máximo.

Não, não temia a reacção do Zé Pedro. Porque nós temos uma relação de amizade muito grande. Somos um bocadinho irmãos. Crescemos juntos. Vem contar-me dos seus desgostos amorosos, pedir-me opiniões. Tem imensa graça. Acha que a Patrícia é a sã da família. “Ah, se a Patrícia disse isso, é melhor fazer como ela diz.” Ela é cientista, deve perceber melhor do que nós, que não percebemos nada. Nunca houve atrito entre o Zé Pedro e a Patrícia. Jamais.

O todos os dias é normalíssimo. É assim: recebo um telefonema a perguntar: “Já trataste da viagem de não sei quem que tem de ir não sei para onde, e não há dinheiro?”

A Patrícia fala muito pouco. Teve uma história parecida com a minha. Não tem é filhos. Fui a primeira mulher na vida dela. Ganhou mais uma família, a do Zé Pedro. Vamos todos ao Natal dos ingleses, da família do Zé Pedro. É o meu Natal preferido.

A Carolina tinha seis anos, a Constânça tinha quatro quando fui viveu com a Patrícia. A Carolina é muito dada, começou logo a pentear a Patrícia. A Constança é mais reservada e, muito pequenina, tudo o que viesse ter com a mãe, não era bem vindo.

A Carolina tinha necessidade de dizer às amigas. Iam lá a casa, percebiam que o quarto da mãe era da mãe e da Pat. Também para as amigas era uma coisa normal. Não faziam perguntas. Quando disse à Carolina, deu uma choradeira. “A Patrícia é minha namorada”. Mas não teve a ver com o facto de a Patrícia ser minha namorada. Foi por ter sido das últimas a saber. “Porque toda a gente já sabe e eu não...” Tive de lhe explicar que toda a gente sabia por causa dela. Para que fosse normal. Chegava a avó, chegava qualquer pessoa e não havia quartos fingidos. Ela tinha sete, oito anos.

As minhas filhas fizeram o Liceu Francês. Há lá uns meninos, sobretudo os portugueses, muito conservadores. Um dia, um estava a dizer: “Os homossexuais, que horror. E os filhos dos homossexuais são homossexuais”. A Carolina meteu-se no meio. “Desculpa, mas não são. Porque a minha mãe é homossexual e eu não sou”. Os miúdos ficaram caladíssimos e com um respeito gigante por ela. A coragem que ela teve.

À Constança perguntei: “Os teus amigos sabem a relação que a tua mãe tem?” Muitos poucos sabiam. A Constança, quanto menos se falasse do assunto, melhor. Hoje é uma activista! Em pequena, dizia: “Que é que eu tenho a ver com isso?”.

Hoje têm uma relação óptima. As duas sentiram que a Patrícia trazia alguma paz. Paz à casa, a mim.

A verdade é que a Patrícia nunca quis interferir na educação delas. Na escola, ajudava nas coisas de que não percebo nada, Matemática, Física. Está presente, às vezes zanga-se... O quotidiano. Há tempos zangou-se com a Constança porque ela ia vestida com os calções e uns collants, e estava frio e a chover. [riso] Coisas normalíssimas.

Nunca disseram muito “Não és a minha mãe, não mandas em mim”. A Patrícia nunca quis mandar nelas.   

O casamento, ao contrário do que sempre imaginei – que era uma prisão –, foi uma liberdade. Há coisas que fazemos mais vezes de mão dada. Mas a Patrícia e eu não somos o tipo de casal que está sempre aos abraços e aos beijos. Tudo o que é relacionado com o amor verdadeiro não é mostrado. Sendo que os outros, as miúdas sabem tudo. Mas não é de porta aberta. Acho que devia ser assim em casais homossexuais, heterossexuais. Há coisas que são privadas.

Com o Zé Pedro, era igual. Não dávamos a mão na rua. Tem a ver com a personalidade.

Não sei se alguma vez as minhas filhas se uniram para falar deste assunto. Gostava de achar que sim. São duas raparigas, estão sempre a zangar-se, mas são muito unidas. Adoram-se. E protegem-se imenso. Nunca ao pé de mim. Ao pé de mim estão sempre aos gritos, a competir pela atenção da mãe. Elas não vão gostar de ler isto...

Tivemos um interregno de mais de um ano, a Patrícia e eu. O medo delas era que aparecesse alguém extravagante... Foi em 2009.

Aos 40 estive sozinha, com uma bolsa, em Nova Iorque. Nunca tinha estado sozinha. Aprendi a concentrar-me. Em relação ao trabalho e à vida. Focagem. Eu não tinha isso. Nunca tinha podido concentrar-me em mim. Estava sempre a concentrar-me noutras pessoas.

Porque é que casámos? Para já porque se podia. Queríamos imenso fazer uma festa. Enlouquecemos e comprámos uma ruína em Aviz quando queríamos comprar uma casa em Lisboa. Estava escrito no jornal. Uma casa baratíssima. Era um dia de início da Primavera. Recuperámos a casa.

Escolhemos o dia da Revolução Francesa para casar. Achámos que ficava muito bem. O bolo dizia: liberté, egalité, fraternité. E tinha duas Mariannes, em azul. O interior do bolo era vermelho, branco por cima. Tudo certinho.

Foram amigos e pessoas de Aviz. Queria tudo ir à festa, participar. O senhor Zé, que tinha ali uma horta, perguntou: “Se já são tão amigas, porque é que se vão casar?” “Porque se pode.” “Então está bem.” Ficou esclarecido. O não se compreender as coisas, aprisiona. Assim ficou tudo claro.

Também aprendi assim, que ser amado é o mais importante. Sobretudo com a minha avó materna. Tinha a quarta classe e uma inteligência emocional enorme. Tenho pena que não tenha conhecido a Patrícia. Ter-lhe-ia feito confusão, mas acho que diria: “Pois, filha, se é bom para ti...”.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2014

 

 

 

 

 

 

E agora, Paula (Rego)? Madrid e Londres, 2007

25.06.22

«Depois disto, não peço mais nada. A exposição no Reina Sofia é o ponto alto da minha carreira, sabe?». Estamos as duas, Paula Rego e eu, no Queen Elizabeth Hall para ouvir divas do fado; ela encanta-se com Beatriz da Conceição, queen of the night, que conhece nessa noite. Jantamos uma salada, bebemos champanhe. Ela comenta, emocionada, a exposição em Madrid.

O Outono vai adiantado em Londres. Em Madrid, semanas antes, não muitas, o Verão ainda não terminara. Tinha as cores que Otto Preminger usou no filme “Bonjour Tristesse”. Mas o cinema, que é central na vida e na obra de Paula Rego, não seria o tema dessa noite. Nem a tristeza nostálgica do filme. Nessa noite, ela fixou-se num gesto de Beatriz da Conceição, em palco: a mão pousada sobre o ombro do guitarrista. Paula fixou-se no ímpeto, na sensualidade, no fatalismo de Beatriz. Na voz que denunciava uma vida sôfrega. Adivinhou o desregramento, a perdição. Havia nesse gesto uma teatralidade que fazia sentido no universo de Paula Rego.

Em Madrid, o céu era ainda azul quando correram as portas do museu às oito da noite. As pessoas precipitaram-se para a entrada, numa ânsia bem comportada. Lá dentro, estavam dispostos os quadros que contam a vida e a obra da maior pintora portuguesa viva. São dezenas de trabalhos que organizam a obra em períodos-chave: 1953/66, 1981/93, 1993/2000, e de 2000 até 2006. Algumas peças são mostradas pela primeira vez – como quadros que datam do tempo em que estudava na Slade School.
Cenário entre salas: Lila, a modelo preferida, explica à RTP a relação de mais de 20 anos com a pintora portuguesa. Tem um rosto esculpido, uma portugalidade que é notória nas formas do corpo, no penteado, no sorriso. Ela é "O Anjo Vingador", a mulher que se contorce na agonia da série sobre o aborto, a avestruz desajeitada que quer voar e não pode - só para mencionar os mais famosos.
Outros modelos: Tony, poeta e tradutor, encena a pose de um Kafka encalacrado, tal qual aparece no quadro "Metamorfose"; um fotógrafo regista a imagem, alguém por perto ri do pó que fica no casaco. De um outro quadro, o de Pinóquio, reconhecemos o homem de pés gigantes e olhos de um azul transparente; é Ron Mueck, escultor prestigiado e genro da pintora. Há ainda Vicky, a filha, que aparece em "A Traça", o mais valioso quadro da carreira de Paula Rego, recentemente submetido a leilão. Era ela que, salas antes, se comovia frente a "A Dança". Era nesse quadro que a mãe trabalhava quando o pai faleceu, vítima de esclerose múltipla, há 21 anos.
Cá fora, a banhar o princípio de noite de Madrid, estava uma lua cheia e sensual. "Eles montam isto muito bem, não acha?", pergunta Paula Rego, em frente a uma série de quadros dos anos 80. Cumprimenta efusivamente amigos que vieram para a ver. Cumprimenta outros num tom menos afectuoso, e mesmo assim de uma enorme delicadeza. A menina Paula (como era tratada na infância) aprendeu a ser polida.
Outras pessoas, sempre muitas pessoas, interrompem-lhe o caminho, falam-lhe disto e daquilo, puxam-na para um beijo, um abraço caloroso. Ela segue a comitiva. Às vezes fica para trás, demora-se na conversa. Outras, mais à frente, alguém pergunta por ela e ninguém sabe em que momento da sua obra se encontra. Estará nas primeiras salas, onde se mostram coisas dos anos 50, pela primeira vez? Estará nos anos 80, em frente às "Vivien Girls"? Ou na sequência em que está agora, cheia de bonecos que contracenam com pessoas de verdade? Bonecos que faz com as suas mãos, que cose ponto por ponto.
Cá fora, no passeio, vendedores ambulantes, decadentes, necessitados, vendiam champôs, camisolas em segunda mão, livros amarelecidos. Uma gente pobre ocupada com quinquilharia. Vendiam, indiferentes ao que ali se passava. Paula Rego teria reparado neles.

O Reina Sofia foi o momento alto da sua carreira. E agora, Paula? O que esperar de Paula? Marco Livingstone, o curador desta exposição, considera que o melhor da sua produção artística diz respeito aos anos de maturidade. Foi depois dos 50 que pintou “O Jardim de Crivelli” para o restaurante da National Gallery, ou fez a adaptação da obra de Eça «O Crime do Padre Amaro». E agora? Talvez se possa esperar o melhor. Talvez se deva espera o melhor.

Se é verdade que a produção de décadas não é uniforme, o traço, o desenho, são o elemento comum. O fio que entretece os diferentes momentos. “Todo o risco é muito importante. A pressão, o riscar, que tem também a ver com o ferir. Todo o trabalho, desde o princípio, envolve desenho, mais do que pintura. O traço tem de dizer qualquer coisa, senão seriam riscos e gatafunhos, e eu não faço riscos e gatafunhos. Já fiz, mas agora não faço”. O que se passa nos quadros, no essencial, também é o mesmo. “Mandar nas pessoas. Obediência. Subversão. Fazer bem às pessoas más, fazer mal às pessoas boas. Poder. Desigualdade entre os sexos. Os homens mandam nas mulheres em geral. As mulheres às vezes mandam, mas é de outra maneira. A relação entre os sexos. É isso. Não é preciso mais. São tudo coisas caseiras. Tudo se passa no espaço doméstico”.

Paula Figueiroa Rego nasceu há 72 anos no seio de uma família da alta burguesia. O pai era um engenheiro electrotécnico, anglófilo, que ouvia fervorosamente a onda média da BBC para saber notícias da Guerra. Tinha uma espécie de cinema em casa e uma “Divina Comédia” ilustrada por Gustave Doré. “Era uma edição muito bonita, um livro enorme, muito pesado. Às vezes o meu pai chamava-me para a sala. Mas muito poucas vezes. Por isso é que era tão especial e tão bom. Mostrava-me. Eu gostava muito. Gostava daquele frisson de ter medo. É uma sensação agradável”.

A mãe era uma senhora elegante, que deixou em Paula o gosto pelos vestidos. “Íamos a Lisboa às compras, de comboio, e eu adorava. A minha mãe punha o chapéu, arranjávamo-nos muito bem, com luvas e sapatos, e lá íamos para o Chiado. Tomávamos chá na Marques. A Bénard era mais chique, mas a Marques era muito confortável e tinha muito bons bolos. Eu tomava sempre um café glacé com bolas de Berlim”. Compravam o bordado inglês a metro no Ramiro e Leão ou no Último Figurino. Folheavam as revistas de moda. Tiravam os modelos. A menina Francisca vinha a casa costurar. Há uma blusa desse tempo que Paula conserva. Integrou-a num quadro da série da vida de Nossa Senhora. A blusa foi toda chuleada pela Menina Francisca.

O pai e a mãe encarnavam o mundo do Estoril. Aveludado. De hierarquias vincadas, regras estabelecidas. A menina devia aparecer na sala de luvas brancas, se havia visitas. Comportar-se, obedecer. “O maior problema toda a minha vida tem sido a incapacidade de me exprimir frontalmente _ dizer a verdade. Os adultos tinham sempre razão: a menina ouve e não responde. Responder, contradizer, era a morte, era cair de repente num vazio terrível. Esse medo nunca me há-de deixar; vêm daí os disfarces infantis, os disfarces femininos. Menina pequenina, menina bonita, mulher atraente. Daí a evasão de contar histórias. Pintar para combater a injustiça». (conversa com o biógrafo John McEwen integrada no livro «Paula Rego»)

Na infância da pintora havia também o mundo da Ericeira. Com a avó Gertrudes e os seus pintainhos nos bolsos, as empregadas que engomavam o colarinho da camisa e torciam o pescoço às galinhas. Os bichos. Os bichos que hoje são constantes na sua pintura. “Ah, mas a maior parte dos bichos são pessoas conhecidas. É mais fácil dizer certas coisas através dos bichos. Também gosto dos bichos só como bichos. A maior parte dos bichos que desenhava antigamente eram copiados de livros de ilustração. Quando era pequenina, tinha nove anos, desenhava patos, patos de verdade, que havia na quinta na Ericeira. Mas depois disso, nunca mais olhei para os patos, só desenhei da minha cabeça. Não fazia bichos de jardim zoológico, eram mais bichos caseiros”.

O apartamento da outra avó na Rua Damasceno Monteiro, o quintal, a capoeira, a cozinha: viveu nessa casa durante um ano e meio, quando o pai foi para Inglaterra completar um estágio na Marconi. Outras figuras faziam parte dessa galeria: uma tia-madrinha, de quem gostava muito, e um bisavô. “Extraordinariamente religioso, tinha no quarto um oratório enorme, cheio de santos; escrevia livros de orações à mão. A minha mãe lia esse livro todas as noites. Era careca, tinha a cabeça rapada”.

A genealogia de Paula Rego reaparece em toda a sua obra. Como a violência das cenas domésticas. A visceralidade do amor. A subversão social. As coisas que não se dizem. As palavras essenciais – Medo, Vergonha, Sexo, Poder.

Aos oito anos, conta Paula em Madrid, numa conversa com Marco Livingstone, perante uma plateia apinhada, ela já sabia que queria ser pintora. Uma parte da infância foi passada a pintar. A mãe contou ao biógrafo que Paula se enrodilhava sobre si, no chão do quarto, e que fazia um som gutural. Alguém pergunta na sala, em Madrid, como eram esses desenhos longínquos. Mas a resposta é evasiva. Há anos, numa conversa no seu atelier no norte de Londres, respondeu-me assim: “Não fazia para mostrar. Fazia porque me entretinha. A lengalenga do «hum, hum, hum», dava-me um certo conforto emocional e físico. A lengalenga é sensual, tem um lado sexual. A criança quando se move e faz o boneco, risca o papel, experimenta um envolvimento total. Mais tarde, na escola, quando faz para mostrar, é outra coisa. O que é muito raro é combinar as duas coisas. Quando fazemos coisas para mostrar, (as princesas, as amendoeiras em flor, Roma a arder, essas coisas…), é que interessa muito que gostem ou não gostem. Queremos que nos tomem a sério. E nessa altura, tive sorte em não ter a Dona Violeta e em ter a Miss Turnbull”.

Dona Violeta era a encarnação da Bruxa Má. Miss Turnbull era a Fada boa. A primeira sublinhava a irregularidade, o que estava mal feito. A segunda encorajava a expressão criativa. Violeta usava camisolas de angorá roxas, umas detestáveis camisolas de angorá. Miss Turnbull vestia-se como as inglesas dos anos 50: sapatos rasos, uma saia. Usava óculos e tinha os olhos azuis. O encontro entre ambas deu-se no St. Julians, onde fez a totalidade dos seus estudos. Dona Violeta foi a professora particular que os pais contrataram para preparar o seu ingresso na escola inglesa – depois de uma passagem fugaz por uma escola primária portuguesa.

“A Dona Violeta é muito importante. Se tivesse de escolher uma professora favorita seria a Dona Violeta. A Dona Violeta, à sua maneira, fez-me tão bem como a Miss Turnbull. A razão porque fiquei a fazer bonecos tem tanto a ver com uma como com outra. Bem, a Dona Violeta ia merecer castigo para sempre... Isso também é uma razão boa para fazer coisas... Ela metia tanto medo, com aquele cabelo à 1940, aquela poupa, aquele rolo... Metia muito medo! A Miss Turnbull tinha o curso e o treino da escola de arte inglesa, como ilustradora. Eu sentia-me bem com ela, porque tinha confiança nela. Confiança. Ela não ia deixar-me ficar mal, no sentido de me trair...”.

Quando Paula conheceu Vic, fazia bonecos. Talvez lhes chamasse outra coisa, mas eram os seus bonecos. Vic, Victor Willing, nas palavras da mulher: “Era um homem muito bonito e dançava muito bem. Muito bom pintor. Era mais velho que eu sete anos. Aprendi tudo com ele: de pintura, a não me ralar com muita coisa, a dar atenção a outras coisas. Ele tinha barba e eu não gostava. Quando cortou a barba, vi-lhe a cara. A mãe dele dizia que a barba era como um ninho de aranhas a correr-lhe pela cara! Ficava-lhe muito mal”.

Vic foi a figura central na vida e na obra da Paula Rego. Teve com ele três filhos (Caroline, Nick e Victoria), viveram uma desmedida história de amor até à morte dele, em 86. “Uma tara. Tive a grande sorte de o meu anjo da guarda olhar por mim; se não, estava tramada. É uma coisa extraordinária. E é ter tudo quanto há: raivas, ciúmes, uns sentimentos brutais. Se não tivesse tido, se calhar gostaria de ter tido. Mas na altura a gente não sabe essas coisas. É-se levado, assim como numa passadeira rolante, daquelas dos aeroportos, sem poder pôr o pé no chão”.

A famosa série “A Menina e o Cão” retrata a última fase desta relação: o cuidado, a dependência, a ternura. Nesses últimos anos, Vic vivia confinado ao seu quarto. Paula regressava ao fim do dia, desenrolava o que tinha pintado, pedia-lhe opinião. Estava a pintar “A Dança”, uma tela imensa e triste, quando ele morreu. Demorou seis meses a completá-la. “A fumar brutalmente e a pintar”. Ficou entregue a si própria. Sem ninguém a quem perguntar. Perguntar se está bem, perguntar o que fazer. Seguiu o conselho de Vic, a dádiva, segredado pouco antes de morrer: aprendeu a confiar nela.

Vic Willing era um dos poucos estudantes da Slade School curiosos em relação a um mundo que existia fora das fronteiras do Reino Unido. Lucien Freud fazia parte do grupo. Era o pós-Guerra, e a cidade era um meio instigante. Paula mudara-se para Londres por “ordem” do pai, que não achava o Portugal bolorento um sítio para mulheres. Tinha 17 anos.

“Fala-se muito da minha infância e da minha juventude em Portugal, mas eu vivo em Londres há muitos, muitos anos. Gosto de viver em Londres. Todos os meus estudos, o meu treino como artista, foi feito cá. Seria muito diferente se fosse em Portugal. Estou muito ligada à arte de ilustração inglesa. Alguns pintores ingleses, como o Hogarth, têm imensa influência em mim. E viver em Londres tem importância. Porque apanho o autocarro todas as manhãs e tenho dez nacionalidades diferentes naquele autocarro. Gosto dessa variedade, dos fatos diferentes, das línguas diferentes, da individualidade de cada pessoa. Embora seja perigosa, por vezes, porque há muitas facas...”.

Londres, anos 50. Assistia às conversas dos outros, passava tardes no cinema, desenhava o seu mundo paralelo. O meio era masculino, as raparigas não eram levadas a sério – comenta mais tarde. “Eles falavam e eu ouvia. Falavam do que se passava em quadros e em filmes. Eu era muito envergonhada e não dizia nada. Não dizia nada mas ouvia. E assim, vai-se aprendendo muito”.

Depois vieram os filhos (teve a primeira filha com 20 anos). A Ama Luzia foi de Portugal para ajudar. Contaram com o apoio e a generosidade do pai. Continuou a pintar, prosseguiu os estudos. A cena é recuperada 20 anos mais tarde em “Coelha confessa aos pais que está grávida”. É revelador da delicadeza do momento que Paula tenha precisado de todo esse tempo para pintar o quadro…

As bonecadas desse tempo eram as mesmas, ainda que assumissem formas diferentes. O desenho que ilustra isto mesmo abre a retrospectiva de Madrid: uma mulher-cão datada de 1953. Décadas antes da famosa mulher-cão de 1994, a pintora fez um desenho em que o essencial já estava lá: a posição, a ferocidade, a narrativa. Paula simplesmente esqueceu que a tinha feito! Como esqueceu que tinha feito um homem-carocha até que a amiga Marina Warner a desafiou a pintar a “Metamorfose” de Kafka. Neste caso, lembrou-se do desenho antigo em conversa. No caso da mulher-cão, deu de caras com ele quando folheava cadernos antigos.

A primeira fase da obra de Paula Rego é marcada pelas colagens. Primeiro desenhava, depois recortava, por fim colava. Quadros como “Cães de Barcelona”, “O Regicídio” (ambos de 1965) ou “Salazar a vomitar a Pátria” (de 1960) são os mais ilustrativos deste período. O pai gostava destes quadros mais políticos, consentâneos com as suas ideias de liberdade. A mãe pronunciava-se perante quadros mais explícitos e provocadores…: “Esta minha filha faz estas coisas… E depois fica cheia de vergonha…”. A primeira exposição foi em 1965, na Gulbenkian. Não foi propriamente um sucesso. Olhava-se com estranheza para o mundo privado de Paula Rego.

Manuel Brito, o Brito da 111, apostou naquele talento desde o princípio. Persistiu na sua aposta, mesmo que a artista só se tornasse um fenómeno no final dos anos 80. É verdade que em Portugal sempre vendeu bem, mas a dimensão de Paula Rego não seria aquela que tem hoje se não fosse a associação à Malborough, a galeria inglesa que a contratou justamente nesses anos. O reconhecimento, o aplauso consensual, a maturidade artística, como dizia Marco Livingstone, só aconteceria depois dos 50 anos.

Que fez ela entretanto? A exposição de Madrid, que segue uma organização cronológica, explica passo a passo: há um grande buraco entre 65 e os anos 80. A artista diz brutalmente sobre a produção desses anos: não presta. Di-lo com humildade, perante uma plateia estarrecida, em Madrid. Por várias razões, explica, depois da morte do pai, o mundo desmoronou e a qualidade caiu.

O que a fez reerguer-se foram as histórias. A ideia de voltar a qualquer coisa que era do seu passado. Do seu passado feliz. Pediu uma bolsa à Gulbenkian e passou meses a estudar contos tradicionais do mundo todo. Concentrou-se no desenho, na fúria e na sensualidade do risco. Pôs de parte as colagens. As tesouras. Deixou de se ferir. “Estes bonecos que eu agora faço são uma espécie de colagem. Mas não é destruir, é fazer. É usar a imaginação de outra maneira. Posso brincar com eles como quiser. É uma coisa óptima, esse prazer físico. Modelar é satisfatório. Mexer no barro. Tenho um barro que seca automaticamente, como aquele que as crianças usam”.

Muito do que se passa nos quadros de Paula Rego parece saído de um terrível conto para a infância. Lá está a magia de Disney. Ou a perversidade de Buñuel – dois dos realizadores que prefere. Lá está a crueldade, e a inocência. O mundo de Paula Rego só pode ser lido como uma alegoria. Nada ali tem um sentido literal. Como quando era pequena e cortou os dedos de um boneco… “Só cortei uma vez. Esse boneco devia ser dos primeiros de plástico; parecia carne. Lembro-me de terem dito «Olha que engraçado...». Os bonecos até aí eram rijos, este era mole. Cortei-o porque era mole. Os dedos eram a única coisa saliente. As orelhas estavam coladas à cabeça. Os dedos dos pés também estavam juntos. Não havia outra coisa para cortar senão os dedos. E cortei um a seguir ao outro, não foram todos ao mesmo tempo. Eu queria ter a sensação da tesoura a cortar, a cortar. As crianças gostam muito de cortar. Também cortei um grande pedaço das cortinas da minha tia. Depois deitei a tesoura pela janela fora”.

Porque é que nada disto surpreende? Todas as crianças adorariam cortar os dedos a um boneco mole, que parece de carne. Um competidor – um irmão? Tudo isso está n’ “Os Desastres de Sofia”. O capítulo favorito de Paula era especialmente requintado… “Lembro-me de a mãe de Sofia a obrigar a usar as abelhas todas cortadas num colar de abelhas. Ela pegou numa faquinha e também cortou os peixinhos. Todas as meninas bem comportadas adoravam ler sobre meninas marotas. E más. Esse era o meu mundo”.

Foi filha única. Está na fase de fazer bonecos. Tudo começou com o “Pillow Man”, a partir da história homónima de Martin McDonagh. História aterradora. Os quadros dos últimos anos fazem contracenar esses personagens gigantescos com pessoas de carne e osso. Com a Lila, sobretudo. São uma nova forma de espantar o medo. Representam uma forma construtiva de cuidar de si. Restabelecer-se. Das depressões. Da solidão. Do medo, do eterno medo. “Sair, sair, sair. Desenrolar as ligaduras e sair. Fiz muitas figuras ligadas. Depois desliga-se e já se pode a pessoa mexer melhor… À solidão estou habituada, que sempre tive solidão. É qualquer coisa física que não sei bem o que é. É o escuro. A gente quando é pequena tem medo do escuro, à noite, tem de dormir com a luz acesa, não é? É a mesma coisa, só que ninguém nos acende a luz. Estamos sempre no escuro. E os medos chegam muito perto de nós – o que não é nada agradável. Medo do medo. Não tem explicação, nem se pode dizer que é medo dos papões. É medo de uma coisa indefinida. Se eu pudesse, como dizia o Alberto Lacerda, dar uma cara ao medo, estava bem, não havia perigo. Mas quando não se pode, é uma chatice”.

Madrid. A exposição retoma com a produção fulgurante dos anos 80. “As Óperas” (83), as “Vivien Girls” (84), “A Menina e o Cão” (86). Os “Nursery Rhymes” (92),  “As Avestruzes Dançarinas” (95), todos os personagens dos anos 90. As adaptações de “Jane Eyre”, a partir de Brontë. Os bichos, sempre os bichos – o pelicano, com uma fortíssima conotação sexual, é um dos mais usados.

Tudo feito com modelo, concentrado numa cena que podia ser a de uma peça de teatro. Com a roupa e os adereços postos no sítio certo, os gestos que traduzem a intensidade que se quer. “Ver uma coisa ao vivo e vê-la na nossa imaginação, são duas coisas muito diferentes. Põem-se os panos com a cor que se pretende, vestem-se as figuras. Faz-se como se fosse um teatro. Um teatrinho como o das crianças a representar a história do Cristo no Natal”.

O seu teatro não será nunca de uma beleza irreal, etérea. A sua pintura será sempre de uma beleza terrena, corpórea. Como acontecia nos quadros de todos os grandes pintores que admira: Goya, Velasquez, Murillo, Hogarth. Quando lhe falam da sua Nossa Senhora, em posição parturiente, da originalidade da representação, ela responde com a sensualidade da Madonna de Caravaggio. E claro que ela tinha de estar numa posição de quem vai dar à luz… Em que outra posição se dá à luz? “Natividade” (2003) é um dos oito quadros sobre a vida de Nossa Senhora que fez para a capela do Palácio de Belém.

Paula Rego, pintora da comédia humana, pinta os corredores da sua infância, os bonecos, as mobílias, os fantasmas, os personagens dos romances, os personagens da vida real. Tudo o que a despegue um pouco de si mesma. “Eu pôr-me a fazer a mim própria, em frente de um espelho, é uma grandessíssima chatice e uma grande solidão. Se isso é assim, então prefiro fazer um boneco, que é outra entidade, outra criatura, e posso projectar em cima dessa criatura outras histórias que não são as minhas. Tudo o que seja fazer bonecos é o contrário de fugir: é ir ao encontro do que a gente é. A pintura é muito complicada. O nós não interessa, não interessa absolutamente nada. O que interessa é o quadro. É só assim, fazendo, que a gente descobre o que está a fazer”.

Quem é ela, quem é Paula Rego? Há um quadro especialmente revelador… “Target” (1994), o alvo. “É a menina de costas, a abrir o vestido, cúmplice na maldade que lhe estão a fazer. Vão dar-lhe um tiro nas costas, ou uma seta, como ao São Sebastião. (Gosto muito do São Sebastião por causa das setas). E ela está a ser cúmplice naquilo que lhe estão a fazer: está a abrir o vestidinho para lhe fazerem mal. É um quadro que me saiu muito simples e que tem muita coisa de que gosto”. Paula Rego é esta mulher, sacrificial, entregue ao prazer e à culpa.

Outono em Londres. Noite escura sobre o rio Tamisa. Não nos víamos desde a inauguração no Reina Sofia. Brindámos ao sucesso da exposição. Depois daquilo, ela não pede mais nada. O ponto alto. Perguntei-me em quem pensaria ela? “As coisas que faço são para o meu pai. That’s true. Se hoje tenho algum sucesso, ou se as exposições correm bem, penso: «O meu pai gostaria de saber disto». Gosto de fazer coisas para o lembrar”.

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2007. Neste texto foram usados excertos de entrevistas que Paula Rego me concedeu e que foram publicados no DNa (2003), revista das Selecções do Reader’s Digest (2005) e Máxima (2007).