Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Anabela Mota Ribeiro

Bienal do Livro de São Paulo: os números - 6

11.07.22

A Bienal do Livro de São Paulo, organizada pela Câmara Brasileira do Livro, decorreu entre 2 a 10 julho, numa nova casa, a Expo Norte Center. Alguns números da 26ª edição que marca o regresso ao modelo presencial:

- 660 mil visitantes

- Três milhões de livros vendidos

- Em média, cada visitante gastou quase 230 reais

- 300 autores nacionais e 30 internacionais

- 1500 horas de programação

- 65 mil metros quadrados

Esforços para a democratização do livro: vale-livro (voucher de 60 reais distribuído a alunos e educadores do ensino público); e bilhete dedutível em livros.

Vítor Tavares, presidente da CBL, fala de uma edição histórica, com todos os indicadores a registarem subidas significativas. Dito de outra maneira, pegando no slogan: todo o mundo sai melhor do que entrou.

Portugal foi o país de honra da Bienal, com curadoria de Isabel Lucas e dezenas de autores de língua portuguesa envolvidos. A iniciativa insere-se nas comemorações do Bicentenário da Independência do Brasil.

 

Acompanhei a Bienal do Livro de São Paulo a convite da Câmara Brasileira do Livro.

 

 

Bienal do Livro de São Paulo: as exposições - 5

10.07.22

1.

Aquilo que continuo a ouvir na minha cabeça, desde o nosso encontro em Lisboa, não há muitos dias: o que eu crio vem do estômago.

Humberto Campana é um dos irmãos Campana, designers brasileiros expostos no MoMA, no Pompidou, no Vitra Museum, nos maiores espaços expositivos.

Eu sabia deles há anos, desde a cadeira vermelha. São 450 metros de corda, trançada apenas por uma pessoa, produzida em Itália, vendida no mundo todo. A estrutura é em aço e um artesão, sem emendas, faz a trama, laboriosamente.

Vem do estômago, vem das mãos, vem dos sentimentos. Tudo isso é expresso, não em palavras, mas em pele de pirarucu, em corda, em pele enrugada, em golfinhos de peluche. As mãos sabem muita coisa, e o estômago é parente do inconsciente. Há artistas que pensam a partir da razão, obedecem a um princípio racional. Humberto e o irmão Fernando gostam de provocar sensações inesperadas, subvertem o material e a função, da aglutinação de objectos comuns fazem uma coisa extraordinária.

O mais importante é o embate do material, a verdade do material. O material define a função. Ou seja, uma inversão da premissa da Bauhaus, em que o material servia a função. Fractura, arrojo, insubmissão. Os materiais são personagens à procura de uma peça, um autor, um enredo. Um dia, encontram-se. Um dia, o material inventa outra vida, outra narrativa, é capaz de se metamorfosear.

O estúdio dos Campana fica em Pompéia, a parede que dá para a rua é de um verde calmo. O espaço já foi uma garagem de carros.

Há paredes revestidas a papel dourado, de bombom. Há a poltrona Favela, feita com o que sobra, em madeira. Ou o espelho grande, que desafia a superstição e sobrepõe espelhos partidos. O refugo, com os Campana, é sempre o começo de uma outra coisa. Há a cadeira de estrutura barroca que se inspira na Bo, da Lina Bo Bardi. Aquele sofá suspenso, um ovo, feito para a Louis Vuitton. Aquela flor amarela, espécie de ninho envolvente, também para a Louis Vuitton. A sereia em pirarucu e cauda em cobre. A cadeira de peixinhos do Fernando que precisa ser restaurada. A cadeira de golfinhos pronta a seguir para Londres, ums dos best-sellers. A cadela Dora feita para a Bordalo Pinheiro.

Há um bolinho de fubá e marmelada.

Há a exposição na Galeria Luciano Brito, em Novembro.  

2.

Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões. Construído sobre a estação de caminho de ferro, o Museu da Língua Portuguesa coincide com o lugar e celebra a língua como viagem, lugar de encontro, colisão, sedimentação, transformação contínua, mais partida que chegada, desde a Carta de Pero Vaz de Caminha (ou antes disso, porque se vai aos primórdios, à etimologia, à construção das línguas europeias) até à actualidade, em que se abrevia: Msg pra vc.

Mensagem para você: no museu, encontram-se os falares das línguas portuguesas.

Inaugurado em São Paulo, em 2006, ardeu poucos anos depois, reabriu há um ano.

Ouve-se Maria Bethânia a dizer um verso de Pessoa, um rapper interpreta um poema de Gregório de Matos (século XVI), Ailton Krenak, activista indígena, fala de ocupação e abuso, e não de descoberta cordial. Fala-se da fala. Da fala quotidiana, com as suas estruturas e assimilações, dos antepassados e parentes da língua. Define-se “saudade”: denota abandono, solidão causada pela ausência de algum ente querido. Desenha-se uma linha do tempo, ao longo de um corredor de 106 metros, na qual se vê a alma da língua portuguesa.

Lemos na parede:

“Não se pode dizer de língua alguma que ela é uma invenção do povo que a fala. O contrário seria mais exato; é ela que nos inventa.”

Eduardo Lourenço

“Não há uma língua portuguesa, há línguas em português. A língua portuguesa é um corpo espalhado pelo mundo.”

José Saramago

“Palavras navegam entre línguas. Viajam de boca em boca. Instalam-se nos idiomas subvertendo as línguas onde se acomodam.”

Mia Couto e José Eduardo Agualusa

3.

É urgente conhecer Bispo do Rosário, artista imenso, uma cosmogonia impressionante. Conheci-lhe o nome quando li Nise da Silveira, mas ontem vi uma exposição com o seu trabalho: inventários, amostra de tudo o que existe no mundo, elaboração sobre a memória e o significado das coisas. Bispo acreditava que era Jesus. Viveu numa colónia psiquiátrica a maior parte da vida. "Eu vim". Aparição, impregnação e impacto é o título da exposição no Itaú Cultural de SP. 

Num dos vídeos, diz assim: "Quando eu cheguei lá no Engenho de Dentro, os doentes que é bom espiritualmente me acompanha. Porque é que você me acompanha? Porque o senhor é Jesus. Mas por quê? Você escuta voz? Escuta voz dizendo que o senhor é Jesus. Pronto, é o bastante. Está mais que visto, mas só para quem enxerga.

4.

Era uma fábrica de tambores. Ao invés de derrubarem e erguerem uma torre de vidro e betão, construíram um centro de lazer e cultura, onde é possível nadar, dançar no bailinho da terceira idade, comer a preços módicos, frequentar oficinas de arte, ver exposições (por exemplo, de Sebastião Salgado), espectáculos (por exemplo, de Caetano e Cesária Évora) num palco que funciona em espelho, com plateia de um lado e de outro, ler jornais, e até não fazer nada. O Sesc Pompéia é um lugar que tem as portas abertas. Só isso já faz a diferença numa urbe babélica como São Paulo. É possível estar, estar sem fazer nada, estar sem pagar nada. Uma experiência socialista. Isto é, um lugar verdadeiramente democrático.

Convidaram uma arquitecta dedicada ao ostracismo (por causa da ditadura) que fez do lugar uma jóia radical. Lina Bo Bardi viu a estrutura de ferro, tão rara, no tecto, e optou por manter o edifício da velha fábrica de tambores. O edifício estava sofrido, explica Isa Grinspum Ferraz, mulher do arquitecto Marcelo Ferraz, braço esquerdo e direito da brava Dona Lina. Descascaram a pele danificada do prédio e descobriram coisas incríveis. Trabalharam nove anos. Lina também desenhou o mobiliário de madeira, montou um São Jorge a matar o dragão numa fachada, e ao lado plantas esguias, elegantes: as espadas de São Jorge. Não quis esconder nada. Escolheu não polir a baba do cimento entre tijolos, assumiu os cabos, as condutas, dialogou com o Pompidou, revelando o avesso do avesso. E fez dialogar a velha fábrica com um novo edifício, onde agora estão os balneários e a piscina.

O Sesc é apelidado de verdadeiro ministério da cultura brasileiro. Existe no país todo, mas o do estado de São Paulo é famoso. O seu director há mais de quarenta anos é o Prof. Danilo Miranda, sociólogo, jesuíta de formação, esse deus, sintetiza Isa. São quarenta e tantos centros, enraizados na vida da comunidade, âncoras da actividade social, cívica, cultural. O do bairro Pompéia é o mais célebre.

5.

No dia 5 de Julho de 1950, começaram a erigir a Casa de Vidro. A construção demorou um ano.

Visito a casa de Pietro e Lina Bo Bardi no dia 7 de Julho de 2022. A intervenção no edifício, por coincidência começada nesse dia, vai demorar um a dois anos.

É uma casa sustentada por colunas elegantes, princípios simples: a leveza, a permeabilidade, o diálogo entre o interior e o exterior, a obra construída e a presença da Natureza. Foi uma forma de pensar sem limites, provocando continuidades, a convivência de uma espreguiçadeira Corbusier com um armário do século do século XVI, bugigangas e óleos antigos, uma estátua de Diana e uma mesa feita de pedras brasileiras, linhas depuradas.

A paisagem que envolve a casa faz de parede, de paredes. Parece uma mata que sempre existiu, mas tudo foi plantado. As fotografias antigas mostram os dois terrenos comprados sem qualquer vegetação. Lina jogou sementes ao vento, brincou com a ideia de desordem. Porém, há troncos de árvores finos e alinhados com os pilares sobre os quais assenta a casa de vidro. A gárgula que vemos numa das extremidades deita água exactamente sobre o lago, fazendo ali uma pequena cachoeira. Dito de outro modo: tudo foi pensado. 

O que mais impressiona, subindo as escadas, é a sala imensa, de onde se avista o verde em frente. O chão é de pastilha azul, desperta a sensação de pisar um mar de cor tépida. No movel da televisão e aparelhagem, há vinis de Caymmi e García Lorca. Era também um espaço de trabalho com estantes, livros, mesas. Quase todo o mobiliário foi desenhado pela arquitecta italiana.

Nas casas de banho, predomina também a pastilha, de diferentes tons: azul marinho, azul esverdeado, tom de areia. Num dos armários, há uma repetição de frascos de perfume com cheiro a violeta.

Este foi o primeiro projecto arquictónico de Lina, aos 37 anos.

Pietro e Lina viveram aqui até à sua morte, nos anos 90. O casal não teve filhos. 

No espaço exterior, no que seria o terceiro terreno, fica o jardim, a horta, o canil, a casa das ferramentas. Ervas daninhas brotam do cimento. Há pedras coloridas incrustadas; lembra Gaudí.

A Casa de Vidro vive exclusivamente de receitas próprias, entradas e aluguer do espaço. O Daniel, que conduz visitas limitadas a grupos de 15 pessoas e sob reserva, diz que precisam de visitas. 

6.

O João Fernandes leva quase três anos de Brasil, no Instituto Moreira Salles. Rimos muito numa tarde de Outono, tirámos fotografias junto à escultura do Richard Serra, depois de um almoço em que aprendi tanto, e antes de ser levada pelas exposições de Walter Firmo e Daido Moriyama. Conhecemo-nos no Porto, cruzámo-nos em Madrid, reencontramo-nos em São Paulo. 

Carolina Maria de Jesus escreveu em Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada: “Ao entrar no elevador percebi que ele é... É maior do que o meu ex-barracão”. A frase foi reproduzida no elevador do Instituto Moreira Salles, que dedicou uma exposição a Carolina há uns meses. Bateu recordes de visitas. 

7.

A exposição de Gabriela Albergaria no MAC é a beleza esperada. A artista portuguesa intromete-se mais fundo na raiz das árvores, das plantas, do rio. É constituída essencialmente por desenho e escultura, resulta de uma viagem feita à Amazónia. Aquela árvore inteira cortada em cubos e disposta em forma decrescente: metáfora do tempo ínfimo que um dia foi o nosso, nascentes, até ao momento do crescimento adulto e maduro.

Gabriela e João Fernandes falaram no primeiro fim de semana da Bienal.

Entre a Bienal do Livro de São Paulo, encontros com antigos presidentes e a comunidade portuguesa, o presidente Marcelo visitou a mostra.

Fica no terceiro piso do museu projectado por Oscar Niemeyer. No último piso alcança-se uma das vistas mais impressionantes de São Paulo. Era sexta feira, anoitecia, as luzes dos carros bruxuleavam.

A conversa entre as várias disciplinas artísticas (arte, literatura, arquitectura...) é cada vez mais intrincada. 

Á saída do edifício, um segurança pergunta a outro segurança: tem como ver um TX para visitante?

TX: táxi.

 

Estou a acompanhar a Bienal do Livro de São Paulo a convite da Câmara Brasileira do Livro.

Bienal do Livro de São Paulo - 4

07.07.22

1.

Rebecca tem 36 anos, vai à Bienal do Livro de São Paulo no próximo domingo. Porque é o dia de folga e porque recebe na sexta, e quer comprar um montão de livros. Vai com a filha, que também gosta de ler. O seu pai morreu quando tinha sete anos, e lembra comovida que a levava a esta feira imensa. Rebecca gosta de ler crime. Está até a ler O Crime do Padre Amaro. É vendedora num centro comercial. Ganha, depois dos impostos, 1200 reais por mês, mais comissões. Pode ganhar três e quatro mil num mês muito bom, pode ganhar 2000 mil num mês mau.

2.

Lídia Jorge entrou para o Brasil pela porta da literatura. Percebeu que havia outra sintaxe possível para o português com Jorge Amado e Graciliano Ramos. Não pensa em Portugal como países irmãos, nem países mãe e filho. Não quer que Freud se meta nesta relação porque isso nos separa. Prefere pensar em nós como países profundamente amigos. Compreende que nas discussões se acentuam os ressentimentos do passado. “Os povos têm de falar da sua dor. Até se saciarem. Vai demorar muito. Creio que é importante lavar a cara e manter a memória.

Um dia respondi num questionário Proust que queria ser um porto de mar. O que é isso? É ser barco que chega e que parte, é fazer a viagem para longe e voltar, é ser a aventura, ser toda a vida do cais, ou seja, da humanidade.”

Lídia dialogava com a escritora brasileira Socorro Acioli. Nessa manhã falara de Agustina, cujo centenário se assinala também este ano. Na carrinha, de regresso ao hotel, punha-se o sol. “A Terra é linda”, comentava embevecida.

3.

Insistem para que não use o celular na rua. Muitos furtos a pé e de bicicleta. Menos violento que o Rio. Ainda que tenha piorado um pouco com a pandemia. Pessoas dormem em tendas num jardim. Numa tenda improvisa-se um alpendre e pendura-se uma rede de pano xadrez. Muitas pessoas dormem na rua, sem cobertor ou tenda. Carolina Maria de Jesus escreveu em Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada: “Ao entrar no elevador percebi que ele é... É maior do que o meu ex-barracão”. A frase foi reproduzida no elevador do Instituto Moreira Salles, que dedicou uma exposição a Carolina há uns meses. Bateu recordes de visitas. O livro de Carolina ficou em primeiro lugar numa lista de livros que devemos ler para compreender o Brasil. 200 anos, 200 livros.  

4.

Caminho na Avenida Paulista. Na banca de jornais, vende-se Para além do bem e do mal de Nietzsche e o Cândido de Voltaire, Sófocles e Agatha Christie. Também se vendem jornais velhos para os animais fazerem as necessidades, carrinhos de brincar, óculos de baixa graduação, tralha. Numa das pontas da banca, uma bandeira mostra Lula: O Brasil feliz de novo. Na outra ponta, a cara sorridente do actual presidente e o (mesmo) slogan: Brasil acima de tudo, Deus acima de todos; fechou com Bolsonaro.

Na banca seguinte vende-se artesanato em capim dourado. Pulseiras, pequenos cestos. Capim dourado vem do Tocantins. “Esse os chineses ainda não conseguiram imitar”, diz o vendedor, rindo muito.

5.

Finalmente avisto os urubus. Quando chego ao aeroporto António Carlos Jobim, começo, madrugada, por saber que estou no Rio quando vejo o sobrevoo dos urubus. Gosto deles por causa do álbum homónimo de Jobim. Em São Paulo, esta ave necrófila voava quase tão alto quanto o aviãozinho que passou logo depois. 

6.

Disseram-me que a Casa Santa Luzia era o melhor supermercado de São Paulo. Tudo caríssimo, tudo maravilhoso. Vi um Barca Velha de 2011 que custava cerca de 1500 euros. Mas o que gostei mesmo de ver foi a cocada, a bananada, a pessegada, a marmelada, a goiabada, a figada, a mangada. Há quem goste de passear em supermercado.  

7.

O empregado do pequeno almoço canta Índia de Gal Costa. Canta muitas canções. É a minha segunda vez em São Paulo e fascino-me com a dura poesia concreta das suas esquinas. Caetano canta o tempo todo na minha cabeça. Muito importante: perseguir o avesso do avesso do avesso do avesso do avesso. Continuar na sensação nada entendi. O cruzamento da Ipiranga e da Avenida São João: até agora só estive lá na imaginação, que é um bom lugar para estar. 

 

Estou a acompanhar a Bienal do Livro de São Paulo a convite da Câmara Brasileira do Livro.

Bienal do Livro de São Paulo - 3

04.07.22

1.

Adriana Calcanhotto leu Alberto Pimenta, Ana Hatherly, Gastão Cruz, Fiama Hasse Paes Brandão, abriu com Cesariny, confessou amar o poema das rosas como bolores da Adília Lopes.

Maravilhosa leitura. Voz colocada no tom certo, voz que compreende o poema, e por vezes o sente, voz bela.

Isto foi quase o fim de festa no domingo, segundo dia da Bienal do Livro de São Paulo.  

2.

Adriana Lisboa e José Luís Peixoto, ambos Prémio José Saramago, refazem os passos do Nobel Português. O projecto Viagem a Portugal Revisited é feito pela Fundação Saramago em parceria com o Turismo de Portugal e reconstrói os roteiros percorridos pelo escritor, em 1979 e 1980. Adriana ousou visitar a Biblioteca Joanina em Coimbra. Uma subversão que Saramago, que não foi à joia da Universidade e uma das mais belas e famosas do mundo, apreciaria.

- Para quem não sabe, há uma colónia de morcegos que mora na biblioteca e cuida dos livros comendo as traças. É uma simbiose muito interessante. De noite eles saem e ganham o espaço. Gosto muito de pensar a biblioteca fechada à noite e os morcegos devorando as traças.

3.

Imaginicídio. A palavra vai sendo construída no momento em que é dita por Noemi Jaffe. O neologismo serve para dizer: “o que esse Governo está tentando fazer com a cultura”.

Esse Governo: Bolsonaro.

Noemi, escritora brasileira, doutora em literatura, dialoga com Dulce Maria Cardoso, escritora portuguesa, licenciada em Direito. A formação importa um pouco, já se vê como. A mediação é do jornalista da Folha de São Paulo Maurício Meirelles, que saiu da Cultura para a Política porque queria ler apenas pelo prazer de ler, sem ter de trabalhar sobre os livros.  

Depois do furação Marcelo que varreu a manhã e começo da tarde, as conversas voltam a operar um pequeno milagre: circunscrever um espaço, separado do real ruidoso que ecoa nas paredes do pavilhão, onde se responde à pergunta:

- Como se escapa da armadilha do real?

Este real pandémico, de guerra, fascizante, distópico, desigual, o real de um presidente negacionista que simula empunhar uma arma quando posa para as fotografias.

- Pela imaginação.

Dizem as duas. A faculdade da imaginação foi a célula a partir da qual se desenvolveu o diálogo.

No começo, Noemi disse:

- Tenho paixão pelas coisas pequenas. Até coceira no pé. Os escritores sabem que uma dor de cotovelo é real, que um elefante voando é real, e que a vida de cada pessoa é tão real quanto o que se lê nos jornais. É a isto que se dedicam os escritores.

Dulce disse:

- A ficção está na imaginação, mais do que no conhecimento. A imaginação aponta para o futuro. A realidade é o primado do eu, da verdade, aponta para o passado. Com o objecto livro podem experimentar quase todas as vidas, digo aos jovens nas escolas. O que é ser eu? Eu é ser memória. Quando ela falha, os outros deixam de nos reconhecer como aquele que somos. Identidade e Memória vêm juntos.

Conheci Noemi Jaffe na FLIP de 2017, quando li o maravilhoso livro O que os cegos estão sonhando, a partir do diário escrito pela sua mãe, sobrevivente de Auschwitz. Agora a mãe morreu, e a experiência da perda está no seu livro mais recente, Lili – Novela de um luto.

Dulce está a lançar Eliete no Brasil.

Sintonia entre as duas escritoras. No centro d’ O Retorno está a sensação de não pertencer, ser desterrada. No centro da prosa de Noemi, está o exílio; por ser filha de refugiados e sobreviventes dos campos, mulher, judia, escritora.

Muito público a assistir.

Dulce:

- Nada me disse tanto sobre memória como a Recherche de Proust. Nada me disse tanto sobre culpa como Crime e Castigo (e eu estudei Direito Penal). Nada me disse tanto sobre adultério como a Bovary de Flaubert.

Vivemos tempos de indignação e a política esteve sempre a pairar.

Noemi:

- A literatura não serve para nada e não serve a nada. Como disse a Dulce, ninguém morre por não ler um livro. Porém, ser um fim em si mesma é uma liberdade e é a sua riqueza. Errando, permitindo o acaso, as inconclusões, ela é mais livre do que outras linguagens artísticas. Se o autor não fala de política, nestes dias, isso está errado, ele está em dívida para com a sociedade. Mas a sua escrita não tem de dizer.

4.

António Prata gracejou dizendo que era e queria ser Ricardo Araújo Pereira.

António Prata citou Paulo Leminski que diz que o poema é inutensílio. Um inutensílio indispensável.

António Prata disse que o humor é o melhor lubrificante da nossa relação com a morte.

Ricardo Araújo Pereira citou a Lisístrata de Aristófanes. Também Sófocles.

Ricardo Araújo Pereira começou a sua relação com o humor quando percebeu (cedo) que não era o filho preferido dos seus pais. Pausa. E é filho único.

5.

Adriana Calcanhotto e Pedro Eiras. O professor de literatura da Universidade do Porto e poeta (a lançar o seu livro no Brasil). A embaixadora da Universidade de Coimbra e cantora e compositora. A poesia e a música, o espaço de aprendizagem e partilha na sala de aula. E a política, sempre.

Pedro Eiras:

- A aula é alguém descobrir pontos de fuga. É duvidar, é alquimia, é escrever em voz alta, é entrar como quem entra num território misterioso. Qualquer aula minha seria proibida sob o fascismo. Sou baby boomer, nasci em 1975. Mas a democracia é frágil. A extrema direita cresce. Vou continuar a dar o meu melhor e a ter alguma esperança.

Adriana Calcanhotto:

- Cecília Meireles eu ouvi no fado e, na adolescência, no Fagner. Temos encontros da alta poesia com a música popular em vários autores. Vinicius de Moraes. Gilberto Gil entrou para a Academia Brasileira de Letras. Eu revejo-me no recorte da academia de notáveis defendida por Joaquim Nabuco, mais do que na academia de escritores defendida por Machado de Assis. As melhores coisas não são a maioria das coisas. É uma distinção importante. Temos de ser vigilantes. O mais triste é que as coisas são comunicadas. O processo de deseducação foi anunciado. Vamos responder! Ou a gente deixa ou a gente reage.

 

Estou a acompanhar a Bienal do Livro de São Paulo a convite da Câmara Brasileira do Livro.

 

 

Bienal do Livro de São Paulo: a visita de Marcelo - 2

03.07.22

Marcelo deu para lá de show de bola. Irrequieto, afectuoso, selfies para cá, selfies para lá, brasileiros a repetirem em cada esquina: estou com inveja, quem me dera um presidente assim.

O presidente começou o dia com um ex-presidente, e por causa desse encontro ficará desta visita um amargo na boca. Ainda que a expressão “incidente diplomático” não seja verbalizada e, ao contrário, o desconvite do presidente para almoçar em Brasília, segunda-feira, seja desvalorizado. Até 7 de Setembro, quando se assinalam os 200 anos da independência do Brasil, há tempo para digerir esta pedra.

Marcelo começou o dia com Lula, pequeno-almoço às 9,30 em que se falou de tudo, de geopolítica à Ucrânia, e não se falou do Brasil nem de Bolsonaro. Na casa do cônsul de Portugal em São Paulo. Marcelo e comitiva chegaram a São Paulo ontem, vindos do Rio, num avião militar brasileiro.

E agora, o que vai conhecer? Nunca se sabe. Tratando-se de Marcelo, nunca se sabe. O programa de São Paulo foi reagendado, a ida a Brasília cancelada. Durante a tarde, encontro com a comunidade de portugueses em Sampa. Passa para segunda feira a reunião com Temer.

O caudal de pessoas que esperavam o presidente português, já no recinto da Bienal, era engrossado minuto a minuto. Fora os visitantes que perguntavam:

- Gente, que há ali?

- O presidente de Portugal.

- Sério?!

Comentários da espera:

- o presidente está a fazer declarações depois do encontro com Lula.

- o presidente já está a caminho.

Chegou.

Marcelo tem aquele dom de transformar 50 segundos num tempo considerável. Por exemplo, em 50 segundos é possível provar um croquete de leitão da Bairrada, fazer um brinde com espumante português, ao som de uma guitarra.

Passo acelerado pelos corredores. Marcelo de braço dado com Pedro Adão e Silva. Como se o apadrinhasse. Talvez tenha começado a apadrinha-lo quando mergulharam juntos nas águas de Copacabana, ontem.

E então Marcelo vê José Luís Peixoto num auditório. Muda a rota, sobe ao palco. “Ia passando por aqui e vi o Peixoto.” Peixoto falava de Saramago. “Como disse o Peixoto, Saramago é português, é brasileiro, é angolano... porque ele é universal.” Remonta aos anos 90, quando apresentou um livro de Saramago, e naquele tempo como agora vivíamos sob uma cegueira incapacitante. Ágil, ainda comenta a peculiar pontuação do Nobel português, que acompanha o seu ritmo de pensamento. E despede-se com um abraço.

A multidão atónita. A segurança brasileira incrédula. O protocolo e os portugueses, habituados ao improviso e carácter indómito do presidente, ainda assim a dizerem: uau. Uma jornalista comenta: esta é a viagem presidencial mais estranha de todas as que já acompanhei.

E ainda faltava tanto. Aquele momento em que uma cantora sertaneja interpretava à viola uma toada que ia bem com o que estava escrito numa faixa: sertão de carne e alma. De uma música de cordel, passou directo para o Fado Tropical de Chico Buarque. Ai esta terra ainda vai cumprir seu ideal. O imenso-Portugal-Marcelo atravessou o recinto, tirou mais selfies, aparentemente sem fito.

Ilusão. O passo pode ser errático, mas a intenção é decidida, firme. Sabe o que quer e, sobretudo, não erra no objectivo que traça.

Ao virar da esquina, entra numa casinha. Maurício de Sousa, o autor do Livro da Mônica, num rectângulo onde na nossa infância se dizia: menina não entra, está a pintar. Não se avistava Cebolinha ou Cascão. O presidente sentou-se ao lado, desenhou com o cartoonista, pintou, usou os lápis de cor, experimentou o fio livre da criança que salta e ri, e avança curiosa. Não foram 50 segundos, foram uns cinco minutos, podem ter sido dez. Foi o tempo de um recuo à infância, uma coisa que não se mede em tempo cronológico.

Pouco antes, passagem pelo pavilhão de Portugal. Já estava quase no fim a conversa com Paulina Chiziane, escritora moçambicana, a última a ser galardoada com o prémio Camões.

A Paulina foi o que não pude ouvir por ir a galope, com Marcelo.

Marcelo e Pedro Adão e Silva (e demais individualidades) sentados um instante a ver ainda Paulina, a que “tem o elixir da juventude eterna. Um beijo”, despede-se.

Pegando o gancho do que ele disse sobre Paulina: a juventude, será o que procura? Pode ser que seja uma forma de perdurar.

 

Estou a acompanhar a Bienal do Livro de São Paulo a convite da Câmara Brasileira do Livro.

 

 

Bienal do Livro de São Paulo - 1

03.07.22

1.

A fala de Marcelo Rebelo de Sousa quadra com a de Lilia Schwarcz. O presidente disse, sem dizer assim: “O livro é uma arma contra o populismo”. A historiadora exortou, com urgência: “Gente, está na hora de praticarmos vigilância cidadã”.

Lisboa – Rio: 100 anos depois da travessia de Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Marcelo já tinha tomado banho em Copacabana, o desconvite (oficial) de Brasília ainda não havia chegado. Nem chegou. O discurso do presidente na cerimónia de abertura da 26º Bienal do Livro de São Paulo começou na primeira pessoa. Os pais que viveram em São Paulo depois da Revolução de Abril. A mãe que era de esquerda, o pai que era salazarista. O amor pelos livros discutido à mesa e forma de exercitar a tolerância, lidar com a diferença. Os seus (primeiros) 60 mil livros que foram doados à biblioteca da sua terra, Celorico de Basto. Que já foi o mais pobre município do país, e já não é. Quiçá pelos livros, pela compreensão de que a cultura e a educação são o caminho indispensável para arrancar da pobreza.

O presidente brasileiro não é mencionado. A não ser no refrão "Fora Bolsonaro" que irrompeu da plateia, entre os discursos da noite. Mas é ele que está no subtexto do discurso vigoroso do homólogo português, também, quando Marcelo fala de pureza. No começo da noite, um magnífico concerto da orquestra Mundana Refugi, que integra refugiados e busca a sintonia entre o que parece dissonante. Vêm da Síria, Palestina, Cuba, China, Irão. Interpretam temas tradicionais, por exemplo do Congo, mas também do Brasil. Instrumentos e vozes, roupas e fenótipos diversos. Não há portugueses puros como não há brasileiros puros. Não, a nossa raça não é indubitavelmente caucasiana — não disse o presidente, mas o sentido era este. Nós somos o encontro, em resumo. Marcelo aludiu ao concerto, à beleza da polifonia, à verdade da polifonia.

 

2.

Isto no fim do primeiro dia da Bienal, em que Portugal é o país homenageado. No ano dos 200 anos da Independência do Brasil.

Mas de que independências — no plural — falamos, alertou Lilia Schwarcz. A questão é complexa.

Na conversa inaugural, a historiadora falou com o activista indígena Daniel Munduruku e Valter Hugo Mãe (é dele a frase que serve de motor à programação: é urgente viver encantado); mediação da curadora do espaço português, Isabel Lucas. Nessa discussão, como em todas, houve o momento em que a política se impôs, derivando da cultura para um sentido de urgência que está no ar e que vai desembocar nas eleições de Outubro.

Outra linha da intervenção de Marcelo: o livro é o instrumento para apurar o espírito crítico. Lilia poderia dizer, como já disse: não queremos armas, queremos livros. Os presidentes dos dois países empunham objectos diferentes. E o livro, canta Caetano, é um objecto transcendente.

Alguns sublinhados da primeira mesa.

Lilia:

- Racismo estrutural. O genocídio do século XVI e ainda se fala em harmonia. O olhar europeizante na maneira como o Brasil se vê. O problema da palavra “mestiçagem”: tem implícito não só a mistura como a hierarquia. E está no mito fundacional do Brasil. A relação do branco com o indígena: nós temos ciência, eles têm crença, nós temos filosofia, eles têm lendas, nós temos arte, eles têm artesanato. As palavras não são inocentes. Mas não se trata de culpabilizar o colonizador.

Daniel:

- Índio é uma palavra que nos nega. Indígena é uma palavra que nos afirma. O significado de indígena é: originário. A ritualização é a forma de não esquecer o lugar de origem, e saber por onde avançar. Os ritos de passagem representam uma quebra no tempo. Todos têm a ver com sofrimento. Brasil é país em crise de identidade. É necessário celebrar e revisar uma nação de 522 anos. “E para pensar um projecto de país, a gente tem que sofrer.” Sejam rebeldes!, incitação para os jovens.  

 

 3.

Como escrever depois de Saramago?

O Nobel português é a pedra no no caminho. Alusão de Carlos Reis, comissário do centenário de Saramago, ao poema de Carlos Drummond de Andrade. Uma pedra que dura e que fica, mas que não é pedra no sapato.

Valter Hugo Mãe e José Luís Peixoto falam da herança saramaguiana.

Valter:

- O lastro humanista e a boa fé: o que primeiro o impactou em José Saramago. “Ele apresenta-se limpo nas suas convicções, inteiro, sem esconderijos. Ao serviço da Humanidade.”

Peixoto:

- Levantado do Chão: de repente, era o mesmo Alentejo. Compreender, de forma fulminante, que aquilo que o rodeava podia ser literatura. Como escrever sobre Religião depois do Evangelho Segundo Jesus Cristo ou Caim?

A escritora Socorro Accioli, também na mesa:

- O meu amuleto é uma folha da oliveira que está em frente à Casa dos Bicos. Saramago é o escritor que me deu coragem.

 

  1.  

Put some farofa on it — como diria Gregorio Duvivier.

Some farofa mais tarde, uma conversa à tarde, em que o poema é lanterna.

Quase a chegar ao stand de Portugal, topar com o bondinho 28, réplica do amarelinho que atravessa Lisboa, ao lado do qual há uma estátua de Pessoa (não se parece nada, mas valeu a intenção). E os painéis com uma exposição de Saramago. E livros.

- Prove uma bala, moça.

Tenho dificuldade em não aceitar esta bala, que é um doce.

Eucanaã Ferraz:

- “O poema Coral de Sophia: ´... e cada coisa pergunta o nome que tinha´. O poema pergunta os nomes que esquecemos. Esquecemos de tanto dizer. Então precisamos acender os nomes.” O horizonte do poema é a ressignificação das coisas, tocar a fundação do mundo. Também Eugénio de Andrade. E Clarice que nos lembra que escrever é uma forma de fracassar.  

Fracassar, fracassar sempre, fracassar cada vez melhor — adaptando o Beckett.

Maria do Rosário Pedreira:

- A literatura é um instrumento para aprender a empatia e a compaixão. Artistas e cientistas: a sua matéria prima é a inquietação, a não conformação.

Ambos sabem que debaixo de cada coisa há um monstro, que se repercute mesmo nos poemas solares. Temos em nós a experiência da ruína, a sombra.

Ambos criam uma cápsula onde está o foco, a concentração, a luz da lanterna. Apesar do ruído. Que cresce, sobe, e toca o tecto do pavilhão.

 

5.

João Fernandes e Gabriela Albergaria, director do Instituto Moreira Salles, artista plástica, exposição recém-inaugurada em São Paulo. Título da mesa: para entender a floresta.

A artista traz um tópico fundamental: a importância do erro. O erro o erro o erro. O seu trabalho é um palimpsesto. Há, como nos veios da madeira, ideias, erros e correcções. Tem no centro o reaproveitamento da falha. Os erros — a rasura — são fundamentais para pensar e avançar no processo de trabalho. A parte feia também tem de ser mencionada: ela é vida em potência.

A arte é a forma mais radical de liberdade.

As viagens. Misturar as linguagens todas. Respeito pela natureza.

Poderíamos continuar a adentrar-nos na Amazónia, ver a cor vermelha ou preta ou roxa da terra. Ou os rios. Mas cada conversa tem 50 minutos. E essa cola com a recitação e canção da Livia Nestrovski.

Casa cheia no pavilhão de Portugal ou nem tanto. Valter Hugo Mãe terá sempre filas à volta do quarteirão. Porém, é indispensável escutar vozes emergentes e de outros segmentos. 

 

6.

Milhões de livros, milhares de pessoas, filas quilométricas para entrar manhã cedo. Muitos, muitos jovens. Crianção até aos 12 anos não pagam, estudantes pagam 15 reais, adultos 30 reais (30 reais: cerca de seis euros). Muitos atrás do fenómeno Thalita Rebouças. Depois da pandemia, o desconfinamento eufórico. Editores, autores, leitores, todos os agentes do sector. O slogan da Bienal: todo o mundo sai melhor do que entrou.

 

Estou a acompanhar a Bienal do Livro de São Paulo a convite da Câmara Brasileira do Livro.

 

Maria de Lourdes Modesto (a pretexto de um livro de queijos)

01.07.22

A conversa correu frente ao jardim. Fez-me acreditar que estava a ler um livro antigo. Levou-me até um tempo em que uma mulher separada no Alentejo profundo era estigmatizada. Levou-me até às verdades inconfessadas da natureza feminina – como quando diz que no fundo sempre soube que ia ser oprimida por um homem. Não teve uma relação fácil com a mãe, tem uma personalidade indómita. Tudo contado num português correctíssimo, com uma cadência de um livro de Camilo.

Os livros que lançou foram outros. Uma parte da história do Portugal recente está contida na sua Cozinha Tradicional Portuguesa. Um volume que reconstitui quem somos a partir do que comemos. Maria de Lourdes Modesto já era uma cara conhecida do grande público quando o lançou. Cozinhava na televisão. Mas talvez não se soubesse nessa altura, nem se saiba agora, quem ela verdadeiramente é.

Pelos anos fora, lançou outros livros. O mais recente está a ser lançado e é sobre queijos. De cabra, ovelha, vaca, mistura, frescos, curados, sumptuosos, cosmopolitas, discretos, rurais.

Conversámos e tomámos café. Na véspera ela tinha feito “areias”, um pequeno bolo que deve desfazer-se na boca; como se fosse areia. Eu já conhecia as areias da Maria de Lourdes: a primeira vez que a visitei, ela presenteou-me com areias, justamente! Estendeu-mas como quem estende um presente. Feito com cuidado, com emoção. Era um bom prenúncio…

 

 

Ainda tem um grande prazer em cozinhar?

Espero viver mais uns anos e cozinhar apenas por prazer – o que não aconteceu até agora. Como toda a minha vida profissional anda à volta da comida, mesmo indo com gosto para a cozinha, não consigo separar a profissional da pessoa que quer fazer uma coisa bem feita. Estou sempre atenta à temperatura do forno, a ver como é que a gordura se comporta...

 

Vamos ao princípio: as pessoas têm a ideia que a Maria de Lourdes ensinou o país a cozinhar. Mas este talento não foi uma vocação evidente para si…

Não fui um prodígio de saber estrelar um ovo com quatro ou cinco anos! Relativamente à cozinha, fui conquistada. Toda a minha vida ouvi dizer que tinha de trabalhar, tinha de estudar… A minha mãe encheu-nos a cabeça, tanto a mim como à minha irmã! Nunca nos disse: “Vocês têm de ser boas donas de casa, saber passar uma camisa a ferro, pregar os botões dos punhos dos maridos”. Os meus pais eram divorciados e fomos criadas pela minha mãe. Que devia ter muito má opinião dos homens. Tenho a impressão que nos transmitiu isso…

 

Era uma mulher de uma enorme coragem, para assumir um divórcio no Alentejo profundo de há 60 anos.

Separação, separação, não se falava em divórcio. Ficar com duas filhas e poucos meios… Havia uma certeza que a minha mãe tinha: não depender de um homem. Ter condições para, quando o casamento não resulta, quando há razões muito fortes (e havia), sobreviver e educar os filhos.

 

A sua mãe ainda é viva?

Infelizmente não. Devo dizer que o nosso relacionamento não era o melhor. Às vezes procuro momentos de afectividade por parte da minha mãe e tenho alguma dificuldade em encontrar. Por causa desta pressão. Para ser correcta, para comer bem à mesa. Lembro-me sempre das obrigações, raramente me lembro de momentos de ternura. E receio ter sido uma mãe assim.

 

Podia ter sido o contrário, num obstinado movimento de recusa…

Mas não, fui como a minha mãe. Fui de tal modo obrigada a, para obter as coisas, ter de as adquirir, ter de fazer por elas, que não fui capaz de me abstrair disso e achar normal que a juventude de hoje tenha tudo de mão beijada. Eu, com dez anos, fazia luvas com duas agulhas, o que era uma habilidade, e depois vendia-as. Hoje lamento uma coisa que fiz à minha filha: vendi um Mini que tinha, quando ela já conduzia. Achei que devia ganhar para o seu carro. E hoje tenho muita pena de não ter sido capaz de dizer: “Toma este carro”.

 

A sua mãe sentiu um especial orgulho em si e na sua carreira?

Não tenho a certeza… É capaz. Vou contar-lhe uma história: o outro dia o Dr. António Barreto quis ter uma conversa comigo por causa de um trabalho sobre a televisão e ficou numa enorme estranheza por eu não ter nada guardado do que se disse a meu respeito. Penso que isso também vem de trás: ter a obrigação de fazer, ser normal fazer, ser sobretudo normal fazer bem. Fui criada desta maneira.

 

Mas estava a dizer-me há pouco que não consegue desfazer-se dos objectos. Não consegue viver sem aquilo que também conta a sua história, mas desprende-se facilmente daquilo que celebra o seu sucesso.

Não tenho muita maneira de medir o meu sucesso. Tenho tido uma certa permanência mediática; salvo raras excepções, as pessoas estão interessadas em pôr-me lá, mas a dizer muito pouco de mim, daquilo que na realidade eu sou. Sirvo para encher um quarto de página, duas páginas… À maior parte das coisas, não atribuo especial valor. Como cá em casa não há o culto da mulher vedeta – o meu marido olha para mim como todos os maridos olham para as mulheres –, penso sempre que é passageiro. Apesar de já estar com 77 anos… Dá-me a impressão que passa, passa…

 

Tudo isto era a propósito do eventual orgulho da sua mãe no seu percurso. Mesmo na terra! Naquele tempo, não era toda a gente que aparecia na televisão…

A minha mãe era muito contida quanto aos seus sentimentos. E quando falávamos, eu dizia-lhe sempre que estar na televisão era uma coisa precária. Éramos contratados programa a programa. Só no fim da minha passagem pela televisão é que me lembro de assinar contratos para 12 ou 13 programas. Há outra coisa: tirei um pequeno curso de dois anos de educadora familiar. E era professora. A minha mãe achava isso bonito. Quando passei a trabalhar numa multi-nacional, a minha mãe achou que eu tinha… descido. Uma professora era uma profissão de prestígio. O facto de eu aparecer na televisão era para ela objecto de tensão. Tanto quanto para mim. Nunca apareci na televisão descontraidamente.

 

Porquê? As pessoas têm a imagem contrária. E o seu famoso começo, sublinhado pelo Mário Castrim, em que prova da colher e comenta: “Hum, está uma delícia”, revela uma pessoa à vontade.

A imagem não era a de uma mulher insegura, mas é capaz de não corresponder à realidade…

 

Esse é um problema de auto-estima… Vem de trás, de não se sentir suficientemente amada?

Tenho sempre dúvidas. Em relação à minha filha, aos meus netos. O meu marido tem sido extraordinário, mas até a ele lhe digo: “Não sei se gostas de mim ou se gostas da tua mulher”.

 

Explique-me melhor essa dualidade…

Fico muito contente quando as pessoas são capazes de manifestar sentimentos bons em relação a mim e eu sinto que isso é verdade. Tenho sempre a preocupação de ver se isso é verdade ou adulação. Conto-lhe uma história: fui a uma loja comprar uma carteira. Era uma carteira cara, perdi a cabeça. E quando estava a regularizar o pagamento, a empregada disse: “É tão bonita…” Eu achei que ela estava a falar da carteira. “A senhora é muito bonita”. Eu, bonita? Nunca ninguém me chamou bonita. «Não se esforce mais, que já lhe comprei a carteira». E ela respondeu: «É a mesma coisa com a minha avó: nunca acredita!». Foi nessa altura que percebi que já não era mais uma rapariga. Isto foi há dois anos. Até aí, sentia sempre que era uma rapariga; passei a considerar-me a senhora da terceira idade que sou.

 

Foi difícil para si envelhecer?

Nunca lhe direi como outras mulheres que gosto muito das rugas que tenho e dos papos! Não, eu tirava-os de boa vontade se isso não me exigisse uma operação. Mas não é nada mau estar com 77 anos…

 

A relação com a sua imagem nunca foi pacífica. A sua beleza nunca foi canónica, quer enquanto professora do Liceu Francês, quer nos tempos da televisão. Fragilizou-a, porque não acreditava em si?

Nunca gostei da minha cara. Acontece que quando vejo agora fotografias dos meus primeiros tempos de televisão, penso: “Mas que parva que fui, afinal até era gira!”. Em Portugal nunca tive muito sucesso junto dos rapazes, mas quando chegava a França (onde passava pelo menos dois meses por ano, por causa do Liceu Francês), diziam-me sempre: «Você é a rapariga do ano que vem». Era muito magra e diferente da rapariga desenxovalhada, que se usava na altura.

 

Não se sentir poderosa fisicamente fê-la concentrar-se mais no que fazia bem?

Também me concentrava a tentar ser mais bonita… Mesmo hoje, continuo a maquilhar-me, arranjar-me, tenho cuidado com a minha aparência. 

 

Façamos o filme da sua vida: viveu no Alentejo até aos 15 anos, e com essa idade veio sozinha para Lisboa estudar.

Vim para um lar da Mocidade Portuguesa. Era uma coisa de qualidade e baixo preço, e estive aí os dois anos em que tirei o curso de Professora de Educação Familiar.

 

Aprendia exactamente o quê? Lavores? Como educar os filhos?

Não, tinha muito a ver com a educação. Gostei muito de revista e de ir ao Parque Mayer, mas no meu curso íamos ao São Carlos. Isto dá-lhe uma ideia de como as coisas se passavam? Ter maneiras à mesa, ter as gavetas arrumadas. Culinária seria uma das disciplinas. Trabalhos manuais; fazíamos berços para bebés, coisas para o Dia da Mãe, roupas muito bonitas. Havia também aulas de literatura portuguesa. Não fazer má língua.

 

Não fazer má língua?!

Parecia mal. Tudo isso contava para a avaliação global da personalidade. Agora, até gosto muito de fazer um bocadinho de má língua!! [riso]. Era bom: havia pessoas que não tinham acesso a certos formalismos, necessários na vida, e que os adquiriam através dessas aulas. Aquela preparação era para transmitir. Éramos obrigadas, aliás, a exercer três anos.

 

Há pouco repetia uma coisa que diz ao seu marido: “Não sei se gostas de mim, se gostas da tua mulher”. Nesses anos aprendeu a ser uma mulher ideal!

Não quer dizer que aplicasse. Se o meu marido casou comigo pensando que eu era uma fada do lar, estava bem enganado. Eu tinha defeitos suficientemente resistentes à aprendizagem!!

 

Tem uma alma indómita! Onde se revela essa natureza? No seu gosto pela boémia?

Era namoradeira. Gostava muito de dançar. Um bocadinho irreverente. Havia um confronto em relação à minha mãe. A minha irmã aceitava piamente, e eu discutia, queria saber o porquê. Fui sempre um pouco rebelde, e continuo a ser! Durante o curso, não – sabia que ia fora. Quer dizer…, rebelava-me sem perder o controlo. Essa é uma das características da minha maneira de ser: nestes 77 anos de vida lembro-me de ter perdido o controlo umas três vezes. Mas perdi porque quis. Não se pode dizer que tenha perdido completamente. Quis mostrar que era capaz de perder o controlo. Lembro-me de uma vez me ter zangado muito cá em casa, ter pegado numa pilha de pratos e ter partido os pratos! Para se ouvir! Para as pessoas verem que estava mesmo zangada. E deu resultado. A seguir, apanhei os pratos que estavam soltos. Mas depois nunca mais parti os pratos.

 

O que isso quer dizer é que perder-se, abandonar-se à zanga, à fúria, é um pouco perder o pé… E não se permite.

Em todos os aspectos, até no afectivo, nunca perdi o controlo. Não sei o que é essa coisa do “amar perdidamente”. De ser capaz de me atirar da ponte por amor.

 

Lamenta não ter sido arrebatada por isso? Ou não ter consentida que isso acontecesse…

Desde que me conheço que vivo apaixonada. Mas o facto de me apaixonar e acabar, foi determinante para a minha sequência amorosa. A minha irmã só teve um namorado, eu nem sei quantos tive! Mas nunca fui mais longe do que aquilo que achava que era o limite. Sou extraordinariamente orgulhosa. Ir ao descalabro com alguém, teria sido muito mau para mim. Evitei sempre situações de descalabro moral.

 

A sua mãe amou perdidamente o seu pai?

Penso que sim. A minha mãe separou-se do meu pai com 26 anos, não voltou a casar e nunca voltou a gostar de mais ninguém. E quando o meu pai morreu (eu tinha 18 anos), ela disse-me: “Tive sempre esperança”… Embora parecesse muito fria. 

 

Parece que não quis, como a sua mãe, amar perdidamente e depois ficar no perigo, na tragédia de ser abandonada…

O meu pai era pessoa de quem não se falava. Conheci-o até aos meus quatro anos.

 

Teve vontade de falar com ele?

Tive, e uma vez tentei. Como achava que tinha razões de queixa da minha mãe, fiz um telefonema ao meu pai. Com muito maus resultados. E não voltei a tentar.

 

Quando é que se resolveu dentro de si essa zanga em relação aos homens, alimentada pela sua mãe e pela imagem do seu pai?

Não só. Nós somos de Beja e mudámo-nos para Évora. A minha mãe era uma mulher separada com duas filhas – um estigma enorme. Eu dizia que os meus pais eram casados e por igreja! Em Évora, nos arcos e nas esplanadas, sentavam-se latifundiários a ver passar as mulheres, a fazer comentários, a terem uma atitude opressiva. Digamos que os homens me metiam medo.

 

Medo? Como assim?

Quando tive uma depressão muito grande, quando saí da televisão, o psiquiatra dizia-me que eu tinha medo dos homens. E agora quando vejo na televisão estes casos dos homens que degolam as mulheres, digo que quem tinha razão era eu: há poucos bons! Mas sempre pensei ter como companheiro um homem. Embora o meu universo fosse feminino, nunca tive tendências lésbicas nem nada disso.

 

Não seria um homem qualquer…

Não. Mas eu sabia que ia ser subjugada. E penso que, por melhores que eles sejam, são sempre opressores. Até na voz deles sinto a opressão!

 

Mas depois a mulher não é dominadora por uma outra via?

Sim…, tento fazer o meu jogo…, tenho os meus truques.

 

O que é que procurava num homem? O que é gostou no seu marido?

Conheci o meu marido na televisão numa altura em que andavam bastantes à minha volta. O meu marido não é nem bonito nem rico e não acabou o curso de medicina – não se previa um grande futuro. Mas eu dizia que queria casar com um homem bem educado. Havia um restaurante onde almoçávamos e havia um sujeito que, houvesse o que houvesse, comia muito bem à mesa. E isso impressionou-me. Outra coisa que me levou a aproximar-me: verifiquei que ele tinha um enormíssimo sentido de humor. Não falava quase nada, mas quando dizia, dizia a frase derradeira. Achava muita graça, e continuo a achar.

 

Foi, então, a senhora que se aproximou dele.

Ah, sim, que ele não estava nada interessado na rapariga dos cozinhados.

 

Era apenas a “rapariga dos cozinhados”?

Na televisão talvez fosse. Quando ia a França, e se o meu parceiro de dança me perguntava o que é que eu fazia, respondia, muito ridiculamente: “je suis experte culinaire”! [risos] Ohh lala. Eu não sabia bem o que dizer como profissão. Tanto digo que escrevo livros de cozinha… Talvez tenha um certo complexo. O trabalho da cozinha, não sendo só manual, é muito desvalorizado. Mas ninguém morreu por saber cozinhar, as pessoas morrem é por não terem que comer.

 

Mas agora a cozinha, os restaurantes, as mercearias finas passaram a estar na moda.

Isso é porque pessoas cultas se dedicaram à cozinha. No passado, ia-se para cozinheiro, quando se vinha da província, para se ter um sítio para dormir e comer. Começavam por carregar carvão.

 

Na sua casa, o universo feminino e o masculino estão bem delimitados? Aquilo que é o seu espaço e atribuições, e aquelas que são do seu marido.

Sim, sim. Vi na televisão a Isabel Stilwell dizer que quando o botão da camisa do marido não estava lá, ela sentia uma certa culpa. Isto foi o que me ficou do programa. E responde à sua pergunta… Quando o meu marido pergunta: «O que é que um homem vai comer?», e eu não sei, porque é a minha empregada que trata disso, sinto uma certa culpa. Nunca fui capaz de responder: «Sei lá, vai lá tu ver».

 

Apesar de todas as mudanças comportamentais, que são gigantescas, persistir uma espécie de culpa primordial nas mulheres que não tratam dos seus homens…

Penso que isso acontece às mulheres que são verdadeiramente femininas.

 

Já cozinhou para a sua filha como quem oferece um presente a alguém?

Sim. A minha filha tem a sua família, e vêm sempre jantar comigo ao sábado; pergunto na sexta o que é que gostariam de comer. Às vezes faço uma surpresa. Fazer um prato por amor? De uma maneira geral, há sempre emoção, até num simples hamburger. Tenho o cuidado de fazer bem feito. É para ele. Vou fazer ao gosto dele.

 

E já aconteceu estar zangada, numa disputa doméstica, e o cozinhado não sair bem? O cozinhado a exprimir essa raiva…

Não tenho lembrança de uma situação dessas. Seria engraçado… Tenho memória, sim, de deixar queimar. De me passar e deixar queimar. Ainda não houve nenhum que se tenha revoltado!

 

Fez algum cozinhado especial para a sua mãe de que ela tivesse gostado?

Não. Talvez por estarmos longe. Lembro-me mais daquilo que ela fez para mim. Quando eu estava no Lar, aqui em São João do Estoril, nos meus anos, mandou-me um bolo de que eu gostava muito: bolo de mel e azeite do Alentejo. E mandou bolinhos pequenos. Quando cheguei das aulas as minhas colegas tinham-me comido tudo. Sei que ela fez aquilo com muito amor e não fui capaz de lhe dizer que isto tinha acontecido… Mas lembro-me, como se estivesse a ver neste momento, da maneira como ela punha as mãos a cozinhar. E da maneira como ela pesava com as mãos – praticamente não precisava de balança. Eu não tenho essa capacidade. Havia quem dissesse que eu tinha uns gestos bonitos na televisão. A minha mãe tinha uns gestos seguramente diferentes dos meus. Eram sempre uma espécie de beliscão – era como ela mexia nos alimentos.

 

Fale-me da sua relação com o pão, que considera um alimento sacralizado. Disse-me que dá um beijinho no pão antes de o deitar fora… Um gesto muito antigo, que já quase não se faz.

Mantenho essa relação com o pão. Não sei se foi por causa das dietas, passei a comer menos pão. Mas como-o todos, todos os dias. Faz-me pena o estado a que o pão chegou… Há uma grande variedade, mas não qualidade.

 

Continua a dizer que se tivesse que escolher a última refeição, seria pão alentejano?

Pão Alentejano com queijo. Adoro queijo. É um alimento tão versátil…

 

 

 Publicado originalmente na Revista Selecções do Reader’s Digest em 2007

 

 

Pág. 1/2