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Anabela Mota Ribeiro

Millôr Fernandes

24.01.23

Tudo se passou em três semanas de Agosto. Primeira dificuldade: encontrar o número certo para falar com Millôr Fernandes. Passo seguinte: deixar recados no gravador ao longo de dez dias. Diários. Sem resposta. O gravador atendia assim: “Fale ou fax”. Num tom de sentença. Numa voz de velho irado. Uma vez atendeu. Que maluca era eu que lhe entupia o gravador com um pedido de entrevista que ele iria recusar? Iria oferecer-me um cafezinho, e era tudo. Decidi ser assertiva: “Vai dar-me a entrevista, sim!” E Millôr obedeceu: “Adoro mulheres autoritárias, se chegar muito perto peço você em casamento…”. Após o que nos escangalhámos a rir, que era a única coisa a fazer. Houve ainda aquela angústia do guarda-redes antes do penalty, sentada na entrada, ao lado do segurança, e o Millôr atrasado, atrasado quase uma hora. Finalmente chegou: “Ah, você veio mesmo?”

Ele manda e-mails nos quais assina: O Millôr. Porque o O é um personagem. Millôr é uma daquelas figuras que só poderiam ter nascido no Rio de Janeiro. Cartoonista, caricaturista, humorista, escritor, dramaturgo, jornalista, tradutor, director de revistas míticas da história brasileira do século XX. Autor de frases famosas.

“A verdade é que na vida nos dão muito enredo e muito pouco tempo”. A vida dele tem enredo para uma telenovela de cinco mil novecentos e quarenta e oito capítulos, pelo menos. Porque, além do que acima se disse, foi um amoroso. Queria ter sido atleta. Não quis ser atleta sexual. Mas da fama não se livra. Deu-se com toda a gente, pertence a uma geração mítica de sul-americanos que viveram muito intensamente.

Já escreveu o seu epitáfio: “não contem mais comigo”!

 

 

Ouvi dizer que chegava ao Pasquim e vangloriava-se de ter comido cinco mil. Confirme ou desminta.

O termo vangloriar é inexacto. Tinha dado cinco mil trepadas. E não estou me vangloriando, não. O homem casa, come aquela mulherzinha dele, e depois não está mais nem aí. Sempre fui uma pessoa, sob este aspecto, livre. Nessa altura, [do Pasquim], tinha apenas 30 anos de sexo. Se botar uma incidência sexual de três vezes por semana, que não é nada de extraordinário – quando tem 15, 18, 20, 30 anos às vezes faz isso numa noite – se fizer três em 30 anos, no fim de um ano tem 150, no fim de dez anos tem 1500, no fim de 30 anos tem cinco mil.

 

Pensei que se vangloriava de ter comido cinco mil mulheres.

Imagina!, imagina. As pessoas assumem as coisas pelo lado vulgar. Não estou interessado, nem nunca estive, em ser atleta sexual. O meu interesse foi sempre, e consegui isso inúmeras vezes, comer a alma da mulher.

 

Comer a alma da mulher…

Um homem com algum dinheiro: se quiser uma mulher de 20 anos, olho azul, paga duzentos, e ela está aqui, às sete horas da noite. Resolve o problema de alguém? O problema anímico, o problema maior, não. Passaram pela minha vida mulheres extraordinárias, e não foram cinco mil.

 

Isto, no fundo, é um intróito, um preliminar...

Então esquece, apaga! [risos]

 

O sexo, na escrita ou sob a forma de caricatura, surge como linha principal daquilo que faz. O que me interessa é saber o que é tem de irresistível para comer tanta mulher. E porque é que o sexo é a linha principal.

A linha principal, não. Não sei qual é a linha principal. Uma das linhas principais, tenho a palavra exacta em inglês, é contempt [desprezo]. Eu não sou conquistador, mas não sou mesmo. Ou por outra, sou conquistador quando, estando diante de uma mulher, se me sinto atraído, sem querer faço gracinha, sem querer sou interessante. O Vinicius de Moraes?, o Vinícius é um amador! Quem quer casar, tem cem mulheres! Para mulher, “casar” é uma palavra mágica, até hoje. Não me lembro de ter falado em casamento com nenhuma mulher.

 

É casado.

O primeiro casamento da minha vida, eu preservei: me livrou de todos os outros!

 

Porque é que casou?

Eu era muito jovem, fazia parte da prática. As mulheres com quem tive coisas intensas são minhas amigas, a vida inteira.

 

Amigas é um eufemismo para dizer “lovers”? Amantes.

Amantes durante um certo período, sem nenhuma promessa de fixação, de casamento. Chega um momento em que uma pessoa se cansa, naturalmente; porque aparece um mais curioso, um mais bonito. Sofre. Mas uma pessoa como eu acha que isso faz parte do jogo.

 

Sofrer por amor? Cansar-se do outro?

Sofrer por amor só existe quando a pessoa, de uma forma ou de outra, é afastada, é abandonada. Agora cansar-se do outro, meu Deus do céu, é universal! Não há hipótese! Eu tenho uma frase que é muito aplicada a isso: “Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos muito bem!” O casamento é isso. Como é que um casal, duas pessoas, se sustentam vivendo num quarto e sala conjugado? No fim de um mês, um quer matar o outro! Evidente.

 

Não há relações sem esse enfastiamento? Felizes.

Quando entra o valor do espírito. Quando tem um outro tipo de relação em que o sexo passa a ser uma coisa ocasional – porque um homem sofre de problemas hidráulico-mecânicos. [risos] Mas aquela mulher se estiolou, se exauriu para ele.

 

Iniciou-se aos 15 anos. Como é que um rapaz do subúrbio, há 70 anos, se iniciava sexualmente?

Eu sou do Meyer. Vivi lá até aos 12 anos. Com 15, já vivia na cidade [Rio], em pensão. A relação sexual: ou começava com uma pessoa muito inferior, que eram as empregadas domésticas, ou na prostituição.

 

Vamos lá à história da sua vida…

Se você quiser eu mudo!

 

Inventa já outra biografia?

Uma outra...

 

Você mente?

Não. Meu pai era espanhol, minha mãe era de família italiana. Eu podia ter nascido em Madrid, em Nápoles, e meus avós vieram trepar aqui, para que eu nascesse aqui. O meu pai veio muito moço da Espanha, com 24 ou 25 anos, era formado em engenharia – não que fosse engenheiro, mas quando chegou tinha um aparato intelectual maior do que o dos nativos. Ele devia ser muito malandro... Sabe o que é malandro?

 

Dê-me a sua definição de malandro.

O malandro antigo era o vagabundo que andava com navalhas. O malandro é aquela pessoa que percebe a realidade do mundo, que dá um jeitinho nas coisas. Meu pai, com esse aparato…, nós éramos de classe média por causa dele. A nossa casa no Meyer era muito boa, com um belo terreno; devia ter sete, oito metros de frente por vinte de fundo, quatro quartos enormes. Tenho muitas fotografias do meu pai – tinha, na gaveta; ele próprio se fotografava. Com uma farda bonita, branca.

 

O seu pai era garboso?

Era. Quando morreu, aos 36 anos, descemos para o proletariado. Na família, se fala que foi envenenado. Encontraram o cofre da firma comercial aberto, tinham roubado coisas. Mas essas lendas de família, sabe como é que se formam... Por outro lado, dizem que teria morrido com uma intoxicação alimentar, que naquela época era coisa séria. Eu tinha um ano, ou não tinha nem um ano.

 

A imagem do seu pai foi-lhe passada pela sua mãe, pelos familiares?

Não tenho essas recordações ou relatos romanescos. Não tinha ninguém proustiano na minha casa! Minha mãe tinha 27 anos, quatro filhos; que educação é que ela tinha? Nenhuma. Então, começou a costurar para fora e alugou metade da casa a uma irmã. Com isso, nos sustentava. Essa irmã trouxe minhas primas, com quem muito cedo entendi que prima não é irmã! Já começa... Aquelas experiências vagas, mas já começa!

 

A sua mãe morreu muito cedo, também. Tinha 36 anos.

Por exorcismo, não se falava da doença. “Deu uma coisa, deu um tumor nela...”. Possivelmente teria sido câncer.

 

Quem é que se ocupou das crianças?

Minha irmã casou, foi viver a vida dela, e levou a [irmã] menor. Eu, eu comecei a trabalhar na imprensa com 13 anos. Curiosamente isso está registado na minha carteira de trabalho. Era um menino louco, eu era louco...

 

É surpreendente que não tenha querido saber exactamente de que morreram os seus pais.

Acho que as pessoas morrem. Depois disso, fui morar com um tio num subúrbio bem mais distante. Era um tio pobre, também. Evidentemente, eu comia mal… Fui para o cemitério, não chorei. Voltei para casa, depois do enterro, entrei em baixo de uma cama, numa esteira; lembro que era fim de semana, normalmente se lavava a casa, o chão estava húmido. Ali, comecei a chorar. Mas feito um desesperado. E sentindo a injustiça do mundo. Dizia “Que Deus… Sem mãe, sem pai, não tenho nada”. Senti uma coisa que designei de a paz da descrença.

 

Habituou-se a não desejar nada? A não esperar nada, senão aquilo que ia conquistando?

Nunca pensei o que é que ia ser quando crescesse. Nunca pensei qual seria a minha profissão. Quando vi, estava trabalhando nos jornais. Já é uma fortuna extraordinária fazer aquilo que gosto de fazer. Cada vez mais me convidam para fazer uns negócios, e eu faço.

 

Gosta de ser adulado?

Desde que comecei, sempre fui tão adulado que me acostumei. E só penso: “E se não fosse? E se cessasse de repente?”. É feito o telefone: toca, às vezes toca o tempo todo; e se não tocasse? A pessoa que envelhece, está sozinha em casa, o telefone toca, ele vai a correr, e a pessoa fala: “É engano!”

 

Está a falar de solidão. Mas sempre andou muito acompanhado…

Vou te contar uma história: eu estava em Roma, na casa de um amigo; algumas semanas depois, a mulher do meu amigo pegou o avião e veio para cá, para se entregar para mim. Pensa que é uma doidivanas, uma louca? Pensa que fiz alguma graça especial? Não! Eu estava lá, simplesmente vivendo.

 

O que é que fez? Deu-lhe atenção?    

Não, não é atenção. Tem um escritor, que morreu há alguns anos, morreu jovem, Carlinhos de Oliveira, pequenininho, vesgo: impressionante o número de mulheres que teve. Porque ele tinha vontade! E aquela vontade reflectia.

 

O que é que disse à mulher do seu amigo quando ela desembarcou no Rio?

Não disse nada, fui vivendo com ela. Um tempo assim adobedebeubeudedede... Porquê não sei. Vamos mudar de assunto. Isso aqui vai ficar uma conversa que é uma parte pobre da minha personalidade. Já me pediram para escrever a minha biografia, me ofereceram dinheiro – eu não quero. Tenho umas notas que escrevi através da vida. Não toco no assunto mulher pelo seguinte: qualquer coisa que diga a respeito de uma pessoa estou, sem querer, ferindo outra.

 

Vamos voltar ao menino que chora, zangado com o mundo, e depois conhece a paz. Foi a primeira vez e a última que chorou? Parece uma coisa diluviana, definitiva.

É, eu não choro. Mesmo quando tenho um sentimento que me levaria a chorar, não choro. Quando comecei a trabalhar, ganhava cem reais por mês – não dava… Com essa coisa que eu tinha de menino louco, não tendo ninguém por trás de mim, um dia cheguei na empresa e disse: “Só fico se me derem trezentos reais”. Aí, deram.

 

Antes dos jornais: como é que aprendeu a ler e a escrever?

Estudei em colégio público; no meu tempo e na minha recordação era muito bom. Tudo o que sei, aprendi no curso primário. Tinha uma professora velha, velha, que depois descobri que tinha 21 anos! Mulata, uma criatura de uma ternura formidável. Me lembro do dia em que ela me ensinou, no relógio, como os ponteiros marcavam as horas; foi um deslumbramento! Tinha uma varanda que circundava o colégio e eu saí pela varanda para ver os outros relógios; de repente percebi que um relógio não era igual ao outro, e que aquilo era o tempo que passava [risos]! Se me perguntar quais são as preposições, eu digo. Definição: deve ser clara, breve, geral e verdadeira. Não é bom?

 

São princípios que seguiu a vida toda?

Pois é. Uma frase deve ter sujeito, verbo, predicados na ordem directa – a ordem indirecta deixa pró Camões. Fiquei uns dois anos ou três sem estudar, fui morar na cidade. Quando recomecei, ganhava já trezentos reais. A primeira coisa que fiz: entrei para colégio nocturno. Eu trabalhava das oito da manhã às seis da tarde, sábado também. Pagava para estudar. Quando saía do colégio, andava um quilómetro até pegar um bonde, andava uns três, quatro quilómetros de bonde, depois andava num trem uns vinte minutos até chegar em casa. Eu me chamava a mim mesmo de “piscina”, porque chegava, batia na parede e voltava para o trabalho!

 

Já nessa altura produzia as frases, os aforismos que foram ficando famosos pelos anos?

É, é uma coisa natural. Eu não paro e digo: “Vou fazer uma frase”. Ou faço ou não faço. Fazia, sem querer.

 

Era um menino espirituoso, que fazia rir os colegas? Como é que era quando a sua mãe era viva? E depois?

Minha mãe morreu quando eu tinha dez anos, minha recordação com ela é uma recordação de carinho.

 

Duas frases: “Mãe, que é a carreira mais difícil do mundo e para toda a vida, não precisa de exame psicotécnico, nem curso de faculdade nem atestado de bons antecedentes.” “Super mãe é uma mulher que corta um “petit-pois” [ervilha] em dois para o filho não ter que mastigar.”

Tou achando bom!

 

A sua mãe fazia-lhe isto?

Não tenho ideia como é que escrevi isso. Não sou muito biógrafo, não. (Olha, e antes que me esqueça: considero o Ivo Pitanguy o homem mais realizado que conheço. Ele percorreu o mundo de cima para baixo. O pai dele já era médico, era prestigiado; Ivo entrava no palácio de Buckingham para operar uma terceira prima da rainha, e quando entrava, era esperado, era o Dr. Ivo! Ele fazia tudo, fazia esporte, fazia natação… Na casa dele, tem Picasso, Dalí… Mas não comprou, não: Dalí deu pra ele.)

 

Falamos mais tarde da geração notável a que pertence e das pessoas com quem se deu, entre eles Pitanguy. Mas sobre o seu pai, escreveu: “O Noel Rosa diria hoje que o vizinho rico morreu. Eu tinha um ano”. Noel é um dos maiores compositores da história da música brasileira. O seu bairro era Vila Isabel, e o vosso era ao lado.

Meu pai morava na Rua Teodoro da Silva. Noel era um homem pobre, baixa classe média. Chegou a estudar. Era um génio.

 

Evoco o seu pai e a sua mãe para perguntar pelas suas memórias de infância.

Tenho fotografias, uma ou outra, poucas com minha mãe. Me lembro de uma coisa de afecto, de carinho. Também tinha muita tia, porque meu pai trouxe duas irmãs; depois que envelheceram ficaram reaccionárias, chatas, e nunca mais quis ver. Você fica falando de relação com mulher e eu vou te dizer: minha avó materna foi a primeira mulher realmente apaixonada por mim.

 

Como sentiu esse amor?

Ela tinha 72 netos e bisnetos, teve dez filhos. Quando fiquei nessa fase de miséria, e fui morar nessa casa longínqua, com meu tio, eu tinha um quarto no quintal. Essa mulher largou tudo e foi morar comigo. Quando eu chegava, a altas horas da noite, às vezes sem comer, dizia: “Milton...” – me chamava Milton – “Tem uma sardinha no fogão”. Reservava uma sardinha para mim. De onde é que vem isso? Porquê essa preferência? É misterioso.

 

E nesse gesto sentiu o amor da sua avó.

Quando você é um menino, como se diz em inglês, “take for granted” [toma como garantido]. Foi o que foi. A relação com mulher: uma prima de 18 anos ia tomar banho ali; tinha um daqueles guarda roupas com um espelho enorme, não tinha nem banheira, era uma bacia; ela ficava se ensaboando e eu ficava para morrer! Mas para morrer! Para mim, aquilo era o mundo!

 

Mais tarde, desenharia muitas mulheres nuas. Quando começou a trabalhar, desenhava. Como era O Cruzeiro, a famosa revista onde se iniciou?

A revista era uma sala, a sala teria três metros por seis ou sete; isto era O Cruzeiro. Foi meu primeiro emprego. A revista vendia dez mil exemplares por semana, quando vendia dez mil e quinhentos era um sucesso. Eu era contínuo, carregador, ia fazendo tudo o que aparecia; e do lado – para ver a pobreza – tinha o director da revista, no fundo tinha uma prancheta em que o desenhista fazia o que se chama hoje design. Isto me deu uma grande oportunidade.

 

Como?

Eles não tinham dinheiro nem para comprar envelope, e recebíamos envelopes bonitos, de companhias americanas, que mandavam fotografias. Eu pegava as fotografias, arquivava, e nos  envelopes botava “Praia”, botava “Moda”, botava “Políticos”. Não vai acreditar: isto se transformou no maior arquivo da América do Sul! Foi crescendo, crescendo. A revista explodiu. Aparecia uma história de quadradinhos para traduzir, e eu traduzia.

 

Como é que um rapaz do Meyer aprendia inglês?

Dicionário!

 

Anos mais tarde traduziu Shakespeare. Como é que aprendeu inglês?

Sei lá como é que a gente aprende! Como é que a gente aprende as coisas? Devo ter lido dez mil livros. Eu não sei nada, eu aprendo lendo. Inclusive, esta é a minha definição de cultura – sei que vai concordar com ela... “Cultura é aquilo que amplia a nossa ignorância”. Não estou fazendo uma frase, não. O idiota que leu duas coisas acha que sabe tudo! A nossa ignorância é maravilhosa.

 

O Cruzeiromudou a sua vida, porque lhe deu espaço para aprender, expandir o seu mundo.

Assim como eu tive a sorte de perder os pais...

 

A sorte de perder os pais?

É, não fui massacrado pelo sistema familiar, não fui massacrado pelo sistema religioso.

 

Deu-se com toda a gente, conhece toda a gente.

Pois é. Uma das primeiras pessoas que vi entrar, [Dorival] Caymmi, dizia que a primeira pessoa que conheceu fui eu. Era menino, chegou, foi procurar um desenhista que o iria apresentar ao director da Rádio Tupi, também baiano, para dar uma oportunidade para ele. Outra pessoa, Gago Coutinho! O Gago Coutinho, no ano 40, tinha atravessado o Atlântico; era almirante, com aquele dólman, aqueles botões; fez uma entrevista. Mais tarde é que vi a importância dele. Em dez anos, a revista estava vendendo 750 mil. Todas as pessoas, as vedettes, as pessoas importantes, não há um nome da imprensa brasileira, actualmente, que não tenha passado por lá.

 

Foi um sobrevivente, com uma vontade de aço.

Não era vontade. Eu estava vivendo. Eu ambicionei ou a vida me arrastou? Não sei.

 

Não sabe? O que é que aconteceu aos seus irmãos? Tiveram uma carreira tão fulgurante quanto a sua? Uma vida tão entusiasmante quanto a sua?

Fulgurante, gostei! Minha irmã trabalhou no Ministério de Educação; a minha irmã menor era uma mulher bonita e se casou com um diplomata equatoriano; e Hélio, meu irmão, que era mais aventureiro do que eu, pegou um jornal chamado Tribuna de Imprensa, do político Carlos Lacerda, e escreve editorial todo o dia.

 

Num dos seus livros, faz uma dedicatória à sua irmã: que continua a acreditar na bondade do ser humano. Quando é que deixou de acreditar na bondade do ser humano?

Quem deixou de acreditar na minha bondade foi você! Pelo contrário: a coisa que mais admiro no ser humano não é a cultura, não é o carácter, é a capacidade de ser bom. Mas quando encontro uma pessoa boa, quando acredito que ela é boa, a bondade já está fugindo.

 

Qual é a sua definição de bondade?

Não é Madre Teresa de Calcutá – essa é uma exploradora da bondade, não toma banho e cheira mal; aquilo é o cheiro da santidade; quer ser boa em Calcutá, depois quer ser boa em Nova Iorque…

 

Sobre a bondade.

Quero ver o que é que eu disse!

 

Num livro que reúne as mil citações mais famosas diz o seguinte: “Pode ser engano, mas pela situação do mundo parece que o leite da bondade humana azedou de vez”. Estava num dia mau…

Não, não...

 

“O génio do ser humano não é o talento, é a bondade”. E ainda: “Só vi a bondade uma vez, tem muitos anos”.

O facto de estar decepcionado por não encontrar a bondade, não quer dizer que não preze isso.

 

Que vez foi essa, há muitos anos, que encontrou a bondade?

Não sei! Deve ser poético! [risos]

 

Definição de bondade: respondeu com uma negativa, disse que não é a Madre Teresa de Calcutá. Nesta tarde, neste momento, que definição de bondade é que lhe ocorre?

Quer que eu seja definitivo…

 

Ao contrário: se é a definição para esta tarde, para este momento, só pode ter um carácter pontual.

O que está mais perto da bondade é uma coisa que se chama humanismo. Por exemplo, todas as pessoas que trabalham comigo, trato como se fossem pessoas da minha casa. Talvez por isso consiga conviver com elas tanto tempo. Não gosto da palavra respeito, mas há esse sentimento humano. (Como é que vai ouvir isso depois?

 

Ouço, transcrevo e edito.

Sabe que tenho horror de dar entrevista? A pessoa vai me ouvir duas ou três vezes e vai passar a me odiar, não vai mais nem me cumprimentar...

 

Há quanto tempo não dava uma entrevista assim?

Há muito tempo.

 

Obrigada. Decidiu-se por causa da minha persistência?

Foi a sua persistência, e porque é em Portugal. Aqui não, aqui tem uma repercussão negativa). Então você quer saber do desenho e da escrita… Fui fazendo. Nunca tive essa consciência de “vou ser escritor”. Derivando um pouco, há uns duzentos anos descobri o haikai [forma poética oriental]; peguei o haikai e comecei a fazer haikai à minha maneira. A noção de desconstruir é minha, sempre. Você pega os idiotas que continuam a fazer haikai falando de Primavera, de colibri, de pirilampo… Eu peguei e fiz um negócio carioca! Fiz mais de 400 haikais, mais do que o Bashô [poeta japonês]! Fábulas? Fiz mais de 300 fábulas. O que é o instinto…

 

Fez por instinto? Começou por ser só um instinto de sobrevivência?

Uma naturalidade minha. Pode pegar as fábulas: não tem uma fábula moralista!

 

Muito me surpreenderia se resultasse de si alguma coisa moralista.

Pega La Fontaine, pega os outros, são todos moralistas. O desenho: eu tinha dez anos quando apareceram aqui no Rio as histórias em quadrinhos que começavam a fazer sucesso nos Estados Unidos. Como é que se chama em Portugal?

 

Banda desenhada.

E apareceu aquela figura... Foi a maior relação do desenho intelectual comigo: Flash Gordon! Eu copiava aquilo. Era um desenho infantil, claro. Minha irmã, durante anos, guardava, depois se perdeu. Gostaria muito de ver hoje.

 

E foi assim que começou a desenhar? Copiando o Flash Gordon.

É. Para mim, a minha coisa mais essencial, mais orgânica, é o desenho. Desenho a bico de pena. Fazia árvores de dois metros a bico de pena, fiz meia dúzia. Tem mais de 30 anos que não faço exposição. Para quê expor? Expor porquê? Tenho horror, acho muito engraçado: o ser humano sacrifica a sua vida toda, fica quatro, cinco anos estudando um salto, para brilhar um minuto. Não quero sacrificar a minha vida.

 

Viveu a vida muito intensamente?

Sim. Fazia tudo quanto era esporte. Comecei a praticar depois dos dez anos, quando já era tarde. Antes, não tinha tempo nem ocasião.

 

Correr na praia é gratuito.

Sim, mas naquela época eu morava no Meyer, não tinha praia... E era tudo muito longe.

 

O que é que representou para si a vinda do Meyer para o Rio?

Era uma cidade pacífica. Não foi um grande acontecimento. Vim morar numa rua que não existe mais, Rua São Pedro, onde é a Avenida Presidente Vargas, numa pensão. Uma pensão muito boa: tinha uma sala ampla, tinha comerciários, tinha motorista de táxi e tinha empregadinha deliciosa...

 

Ficou sozinho? Ou já antes tomava conta de si?

Enquanto minha mãe era viva, era ela. Não me vem ideia nenhuma de sofrimento. A vida era cheia, fazendo coisas, estudando. Entrei no Liceu de Artes e Ofícios; o curso era de seis anos, estudei quatro ou cinco. Saí, porque, entre aspas, já era famoso, e não tinha mais sentido estar naquele colégio... Se quiser saber do meu temperamento, não posso lhe dizer. Esse colégio era um edifício art noveau, tinha umas escadarias de mármore; uma noite, um professor, no meio do patamar das escadas, com todos os alunos ouvindo, me parou e disse assim: “Olhe aqui, nunca mais me faça isso na aula, o que você fez é imperdoável, você zombou do seu colega”. O pessoal riu e ele achava isso imperdoável.

 

Alguma vez se riram de si?

Que eu sentisse, não. Quando se faz humor, provoca-se o riso. É uma matéria muito delicada, sobretudo quando nos pomos nesse lugar, o do alvo... Existe uma frase que acho idiota: “Você perde um amigo, mas não perde uma piada.”

 

Nunca tomou essa frase como sua?

Não tem nenhuma necessidade.

 

Está muito mais dócil do que eu imaginaria. Esperei encontrar o Millôr de faca espetada!

Mas de maneira nenhuma.

 

O que é que fez de si famoso? O humor?

A grande coisa que tenho é a capacidade de processamento. Qualquer coisa que me falam, sou capaz de processar de dez maneiras diferentes. Com meu irmão, que é muito hábil também, começávamos a brigar, e quando a briga chegava a um certo ponto, ele falava: “Agora vem para o meu lado e eu vou para o teu!”

 

Quando é que deixou de ser o Milton para passar a ser o Millôr?

Precisei tirar uma carteira. Devia ter 17 ou 18 anos, e vi que estava Millôr na certidão. O tabelião escreveu Milton na boa caligrafia daquele tempo: o R, com a rapidez de escrever, ficou solto, o N ficou solto, e traçou o T em cima do O. Millôr, não tem mais dúvida. Todo o mundo passou a me chamar de Millôr!

 

Como é que a sua mulher lhe chama?

Eu já era Millôr... Ninguém me chama de Milton. Quem me chamava, morreu. É isso. Não tenho mais nada a dizer, já que descobriu que não sou aquilo que você pensava...

 

Quero que me conte o seu encontro com o Walt Disney.

Normal, normal. Nesse tempo, não havia essa coisa desta estrela ou aqueloutra. Aquilo era uma tropa de elite. As pessoas eram as pessoas que se conheciam do botequim ou da praia. Fui para os Estados Unidos, estive três vezes lá, tinha 24 anos. Eu era famoso – como dizia você – e fui fazer algumas entrevistas. Quando cheguei a Los Angeles, Hollywood, o Vinicius de Moraes, que já conhecia daqui, era cônsul; o César Lattes, cientista, ficou meu amigo, e duas ou três vezes fomos para casa da Carmen Miranda.

 

Carmen Miranda era uma espécie de embaixatriz da comunidade brasileira em LA. Eram amigos?

Jogávamos cartas com ela. Uma noite olhei para uma estante e vi 13 volumes pequenos, livros de capa dura, com A História Universal do Humor. “Você me dá?” Está aqui, nessa estante. São livros ingleses, perfeitos, têm cem anos e ela me deu. Nadava na piscina dela com César Lattes, ele nadava melhor do que eu. Atravessei os Estados Unidos de onibus, parava onde queria, descia no Grand Cannyon. Vim de navio de lá para cá, demorava 12 dias; namorei uma moça alemã, e a viagem foi tão divertida que o comissário de bordo me emprestou o apartamentozinho dele para conversar melhor com a moça! [risos]

 

Pergunto-lhe pelo Walt Disney e acaba por falar das moças… A punchline são sempre as moças.

Eu já disse: até a minha avó, porquê me preferiu? Não tenho a menor ideia.

 

O Cruzeiro, O Pasquim, O Pif Paf são grandes momentos da sua vida ligada à comunicação social. Foram os anos gloriosos?

Posso te botar a Veja, entrei na Veja no início.

 

Além das revistas e jornais, onde fez caricatura, cartoonismo e escreveu, fez peças de teatro e tradução. Face a esta versatilidade, importa saber se a qualidade é constante, ou se considera que algumas destas coisas são menores.

Não acho que seja bom em tudo, talvez eu seja melhor em tudo... Vamos falar de teatro: pensa que eu queria fazer teatro? As pessoas dizem: “É apaixonado por teatro...”. Não sou.

 

Porque é que fez teatro?

Um casal de actores chegou ao pé de mim e pediu para fazer uma peça. Como sou uma pessoa gentil, aceitei e fiz a peça. E como sou uma pessoa muito gentil, para não ficarem envergonhados, fiz uma peça boa! [risos] Depois fiz outras.

 

Entra o brio…

Brio é uma corruptela de brilho? Comecei a fazer teatro, chegou um amigo ao pé de mim e me pediu para traduzir uma peça. Traduzi. Era um trabalho profissional, porque o teatro tinha um público razoável e a gente recebia pela bilheteira. Fiz essa tradução, depois fiz outra; em pouco tempo, no panorama de teatro, tinha 30 peças, cinco com traduções minhas. [O encenador] Gianni Ratto me pediu que traduzisse “A Megera Domada” do Shakespeare.

 

“A Fera Amansada”, em Portugal.

Como é que é?, “The Taming of the Shrew”. “Negócio de traduzir essa peça, não sei...” – para você ver a minha atitude. À terceira vez, ele jogou na minha prancheta a peça, “Quem vai traduzir é você!”. Peguei 20 traduções já existentes, em várias línguas, incluindo português; fiquei impressionado com a mediocridade das outras, a mediocridade pretensiosa, uma merda aquilo tudo. Se pegar a peça e comparar, vai ver que a minha é mais perto do original do que a deles.

 

O tamanho do génio do Shakespeare não foi dissuasor?

Chega um momento em que não tenho medo do Shakespeare. Comecei a traduzir. “Hamlet” vendeu 80 mil, “A Megera Domada”, não sei, o “King Lear” 60 mil...

 

Não tem medo do Shakespeare. Não se deixa intimidar por ninguém?

No papel, não. Se aparecer um negão, tenho medo!

 

Quem é que admira?

Literatura, não sou especialista, não quero ser. O meu negócio é uma opinião de pessoa que lê. Só gosto do que gosto. Não tem esse negócio de fulano. Pode ser Confúcio, pode ser quem for. No Brasil, quais são os grandes escritores? Guimarães Rosa, Euclides da Cunha. Machado de Assis não é meu preferido. Tenho uma tendência natural para escritores difíceis. Eu escrevia no jornal Brasil e botei um Top: “Amor nos Tempos de Cólera”, de Garcia Márquez, é um livro admirável, “Memorial do Convento”, de José Saramago, é definitivo. Gosto muito do Saramago, Rubem Fonseca, João Cabral de Melo Neto, Drummond. Portugal tem poetas sensacionais.

 

“Requiem: Quem matou Millôr Fernandes? Perguntará a manchete do dia, enquanto o assassino vai ao enterro disfarçando a alegria.” Disse isto em 1971. Como é que imagina a sua morte?

Tenho grande dificuldade em imaginar a minha morte porque não sou muito bom em ficção!

 

Escuda-se nos aforismos, não é?

Não! O que é que vou dizer? Que estou chorando? Não sei.

 

Está com 84 anos, pensa muito na morte?

Talvez. Quem sabe se chego aos 85... Sabe aquelas pessoas de 80 anos que ficam indignadas porque um cara botou no jornal que estava com 81? Que diferença faz um ano?

 

E faz?

 Ué, talvez seja o último! Não faz diferença quando uma pessoa tem 18 anos, ou 30, 40. Na verdade, nem gosto de falar nisso. Aquelas figuras admiráveis do Cruzeiro, meninos como eu, quase todos morreram. Você está sendo esperado, a qualquer momento… Como é que vai ser? Conhece aquela coisa anedótica, que diz assim: César morreu, Jesus Cristo morreu, Lincoln morreu, e eu não estou me sentindo muito bem!

 

Quando é que o dinheiro e a necessidade deixaram de ser uma coisa premente na sua vida?

Não posso dizer nada, porque eu estava vivendo. Primeiro, não tinha dinheiro, não tinha dinheiro para comer. Com exactamente 20 anos, fui morar na Avenida Atlântica com um amigo meu chamado Fred; tinha dinheiro para morar num apartamento de seis quartos, eu ficava com os dois de baixo. Lidando comigo todo o dia, foi meu admirador até ao fim da vida. Uma vez, apareceu lá um jornalista, brilhante esse jornalista, ele se voltou, na frente de todo o mundo: “Oh Artur, você pensa que é muito brilhante?, eu também sou! Mas não vai se comparar com o Millôr, não!”

 

A Avenida Atlântica é a mais cara e exclusiva do Rio. Confere status. Ganhava bem, tão jovem?

Ganhava o maior salário da imprensa. Passei desses cem para doze e quinhentos, que nem sei nem o que é que é. Dava para comprar automóvel, que ninguém tinha na época, dava para ajudar as minhas irmãs (pagava um apartamento para morarem).

 

O dinheiro muda a vida das pessoas?

Muda, mas apesar do tempo breve, muda paulatinamente. Você conhece todo o mundo. A cidade era pequena, amabilíssima; chegava às dez horas da noite, sabia qual era o bar em que os amigos estavam. O Di Cavalcanti, que era o grande pintor, tinha uma namorada muito bonitinha, e comecei a namorar ela. A irresponsabilidade do jovem: eu ia para o estúdio dele e ficava namorando com ela na frente dele! Um dia ele me botou para fora! Achei que era um açougueiro! Mas é isso, dona Ana... Sabe que traduzi cento e dez peças? Quando as pessoas levam cinco anos para traduzir o “Hamlet”, eu sou bonzinho de julgamento: acho que o cara é bicha, que o cara é homossexual. Eu tinha um ímpeto de fazer. Enquanto isso estava jogando frescoball na praia – que fui eu que inventei.

 

Desportista era o que gostaria de ter sido?

Atleta, né? Talvez fosse correr. Quando a polícia proibiu o frescoball, comecei a me aborrecer. Eu corria oito quilómetros todo o dia, na praia, porque eu morava em frente. Está bem, senhora Anabela?

 

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2008

Millôr Fernandes morreu em 2012

 

 

Ivo Pitanguy

24.01.23

O mais famoso cirurgião plástico do século XX cruzou o mundo como se ele fosse um mapa estendido sobre a mesa. Sabe o que é a joie de vivre. Tem muito para contar. Esta foi uma entrevista exclusiva para a Pública.

Chegámos à ilha de helicóptero. Uma ilha no arquipélago de Angra dos Reis, uma amostra de paraíso, a sua arca de Noé. Faz o tour de grand seigneur. “Aqui faz-se a criação de porcos, aqui alimento meu viveiro de peixes, isto que você está ouvindo é uma sabiá, não chega muito perto da anta, que ela está amamentando.” Pássaros de cores inverosímeis, água translúcida, vegetação luxuriante; mobiliário do jardim e traços arquitectónicos de formas orgânicas. Um silêncio cortado pelo esbracejar das folhas, pelo sons que vêm da terra e do mar. Nuvens ameaçadoras ao fundo. Chuva tropical, por fim. Champanhe e vinho francês, livros e amigos, T.S. Eliot que vem à conversa com a mesma facilidade como que diz que os ovos de codorniz são afrodisíacos. Mas também Schiller, ou Dante, ou Cervantes, ou Tennyson, ou Guimarães Rosa (que descreveu a terra de gente da terra onde o pai nasceu). Citados na língua original, com elegância, como um sopro. As pessoas que passaram pela ilha, Leni “que se sentou aí onde você está”, Brigitte a quem não seria preciso chamar Bardot. Esses e os outros, a população carenciada que trata na Santa Casa, aqueles de quem não sabemos o primeiro nem o último nome. Todos. Um homem é uma ilha, Pitanguy é um arquipélago. De vidas, de pessoas, de viagens. Tudo converge no seu jardim do éden. A ilha é o seu rosebud.  

Quando há 40 anos (número redondo) a comprou, o seu desejo foi o de “agredir o menos possível” aquela superfície. Há partes que permanecem virgens, impenetráveis. Como ele. Aquela seria a sua terra prometida, qual Ulisses. O mundo foi a sua aventura. Que aventura.

 

 

Se vamos inevitavelmente falar de beleza, começo por pedir que descreva a beleza da sua mãe.

Era muito clara, os cabelos eram pretos. Teve a qualidade de nos fazer pensar, e o meu pai também, que os únicos valores que importam emanam da natureza humana. Valores mais espirituais que físicos ou materiais. Tratava todos de uma mesma forma, e indirectamente estava nos ensinando que o ser humano é o mesmo, independente da sua cor, da sua dimensão, da sua postura aparente. Era uma estrela: estrelas têm luminosidade própria, não reflectem luz de ninguém.

 

A paixão pelo belo talvez derive da relação que teve com a sua mãe…

A minha mãe tinha, não uma paixão, mas um amor profundo pela vida, que passou para nós. A vida tem uma estética própria, e essa estética é a harmonia dos factos. A harmonia é o indispensável em qualquer objecto de beleza. Esse sentido que minha mãe me passou é a minha conceituação de beleza. Que não é a conceituação do poeta puro, do artista com a sua tinta, do escultor com a sua pedra. É uma conceituação de sentido amplo, quase dostoiévskiano: “A beleza salvará o mundo”.

 

Alguma vez operou a sua mãe?

Não. Minha mãe nunca fez nenhuma operação estética. Me ensinou também que a pessoa, quando se tolera, não precisa fazer cirurgia nenhuma! [risos] Importante é você gostar de você. A finalidade da cirurgia é trazer o bem-estar; e quando ela pode, tem uma legitimação enorme. Na minha época, minha conversa com minha mãe não era sobre cirurgia; era conversa de jovem estudante. Tinha um peito poético, não sabia se queria ser escritor, médico...

 

Antes de ser o Ivo Pitanguy, o mais famoso e melhor cirurgião plástico do mundo, quem é que era?

A questão é bonita, mas acho que sempre fui uma pessoa como as outras, com minhas indagações, minhas procuras... Quando era jovem, era muito “esportista”. Dos 11 aos 16 nadava todos os dias. No Minas Clube, em Belo Horizonte, foi criada uma equipa para ganhar campeonatos nacionais; eu era parte dessa equipa, junto com o Fernando Sabino.

 

Famoso escritor brasileiro.

Meu amigo de infância. Como era o Hélio Pellegrino.

 

Hélio foi o mais reputado psicanalista do Rio. Amigo íntimo do escritor Nelson Rodrigues.

Hélio Pellegrino, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos: todos eram da mesma geração, com uma diferença de três, quatro anos. Belo Horizonte era uma cidade pequena, hoje é uma cidade de três milhões de habitantes. Formávamos um grupo. Entrei para medicina de uma forma muito espontânea.

 

O seu pai era médico. Numa cidade pequena, do ponto de vista social, isso colocava-o numa franja à parte?

Não havia propriamente uma elite (como se diz hoje), mas algumas pessoas eram da alta burguesia mineira – ou seja, médicos, advogados; não havia o industrial. Fui criado num ambiente que não era de grande riqueza, mas que era de grande fartura. Um ambiente intelectualmente muito rico; minha mãe lia muito, meu pai também.

 

O que é que liam?

Líamos sobre tudo, líamos todos os clássicos, cultura francesa. Sem nenhum pedantismo, apenas com o objectivo de cultuar as coisas do espírito. Líamos Cervantes, Benavente, Shakespeare, Goldoni, Papini. Colectámos o que havia de melhor na literatura mundial, alguma coisa portuguesa ou brasileira, mas não obrigatoriamente como referência principal.

 

E havia uma cultura helenista? Tem na ilha estátuas a que chamou Calipso, Circe...

Muito grande. A cultura helenista, na época nossa, se misturava com a cultura genérica. Li a Ilíada e a Odisseia várias vezes. Ulisses é um pouco o meu herói. Porque o Ulisses é um homem que tentou, um homem que ousou. Ulisses aceitou todas as tentações, e a única maneira de conhecer realmente a vida é aceitar a tentação, e vencê-la. Oscar Wilde: “The only way to get rid of temptation is to yield to it”. [A única maneira de se ver livre da tentação é não lhe resistir]. Quando você é um lutador, passa a ter um lado ulissiano de procurar a cultura, o conhecimento além do firmamento.

 

Quando Ulisses parte, intui que a sua demanda será tão exigente? Terá tido ao partir a confiança necessária? Estou a servir-me da aventura de Ulisses para projectar estas questões em si.

Ele parte porque ele não quer ficar enferrujado. “To stay and be rusty or to go, looking for the knowledge on the distant cloud, and this great spirit yearning for knowledge...” [Ficar e enferrujar ou partir em busca do grande conhecimento numa nuvem distante e manter o espírito sedento de conhecimento]. Tennyson. Todos se preocuparam com Ulisses, porque ele representa o mito. A minha relação com Ulisses não foi na infância, mas na adolescência.

 

Em algum momento se sentiu Telémaco? E sentiu o seu pai como a encarnação de Ulisses?

Não, o Ulisses era eu. Queria ser Ulisses, Telémaco e Circe. Circe transformou os homens todos em porcos...

 

A sua ilha chama-se Ilha dos Porcos Grandes. Quem lhe pôs o nome?

Eu não, foram os navegadores portugueses. (Interessante, eu nunca tinha ligado isso. Está vendo aquele?, é um “heron” [garça], balançando na árvore... Bom não importa, tem vários, nasceram todos aqui). Todos nós queremos ter uma vida aventurosa. Ulisses teve muitas derrotas, e foi superando, e foi voltando. A vida não é feita de momentos tão épicos. Mas a constância, a continuidade, e o interesse pelo que teve a sorte de ser abraçado, faz com isso seja uma realidade. E não tenho medo do desconhecido.

 

Repito a minha pergunta: antes de ser o Ivo Pitanguy, era quem?

Era um garoto sonhador, muito curioso. Nunca fiz da realidade, embora respeitando-a, a minha mestra, para que eu não fosse seu escravo.

 

Voltemos à cronologia: foi criado em Belo Horizonte e depois cursou medicina. Se o seu pai gostava, talvez não fosse ruim...

É um motivo, (falei agora), mas podem ter sido muitas coisas. Sempre gostei do ser humano. A medicina é um caminho fácil para ajudar o outro. Eu não sabia que havia cirurgia plástica...

 

Nem sabia que tinha umas mãos tão dotadas...

Não: defendo que a mão é o instrumento primordial do cérebro. O fundamental é o que você pensa, o que você concebe –  a mão executa. O pensamento é la clarté [a clareza]. A mão segue, ela não decide nada. Já vi cirurgiões que operavam quase tremendo, e outros fantásticos de movimentação que faziam uma porcaria. É evidente que uma habilidade mínima é necessária para qualquer ofício que seja artesanal, mas é só isso. Procurei sempre conceituar os factos antes de actuar sobre eles. A procura é um temperamento. Tem pessoas que não procuram, eu procuro. E tem pessoas que gostam de fazer tudo junto; “choisir c’est renoncer” [escolher é renunciar], Sacha Guitry disse – é perfeito!

 

Ainda não percebi porque é que foi médico e não foi escritor.

Eu lhe expliquei com vários motivos porquê; exactamente porquê, não sei, até hoje não sei. Fui médico e achei que aquilo era um caminho; porque é que fui cirurgião? A primeira operação que vi, desmaiei!

 

Como é que foi?

Eu era estudante de medicina, e meu pai me levou numa clínica para ver uma cirurgia. Tinha medo de sangue. “Meu filho, você viu o sangue como espectador, e qualquer pessoa normal tem uma reacção como essa”. Foi muito bom comigo, meu pai. Às vezes, a palavra, no momento preciso, ajuda uma vida. “Posteriormente vai sentir que o sangue é uma parte do acto cirúrgico, vai interrompê-lo, vai salvar alguém de uma hemorragia”.

 

O que é que o faz vir para o Rio?

Estava no quarto ano médico. O Rio foi um acidente na minha vida. Naquela época, a cavalaria era obrigatória, e não tinha destacamento de cavalaria em Belo Horizonte; eu teria que perder um ano ou ir para o Rio, (que tinha um destacamento de cavalaria). Vim para os Dragões da Independência para não perder o ano na universidade. Havia um concurso no pronto-socorro do Hospital do Rio, para interno; sem saber, estava preparadíssimo, tirei um dos primeiros lugares. Junto com a cavalaria, fazia internato num hospital de urgências, numa época de navalhadas, de avenidas que se abriam com navalhas.

 

Avenidas que se abriam com navalhadas? Significa um grande corte?

Da comissura labial até ao trago. Era uma maneira de marcar. Para deformar. Muitas vezes dava uma paralisia. Você consertava, fechava a ferida, mas ficava aquela cicatriz. Encontrei outro tipo de cicatriz: de queimaduras, sequelas... Voltar à vida, para essas pessoas, era difícil. Então, depois de salvar a vida e atenuar a deformidade, procurei, com os meus meios precários, ajudar.

 

Nasceu o cirurgião plástico assim?

Vi que aquilo era importante. Comprei umas agulhinhas melhores, menores que as do hospital. Senti que estava indo para uma cirurgia de detalhe. Na época não havia um ensino formal de cirurgia plástica – mesmo as escolas europeias não ensinavam. Fui para os Estados Unidos com uma bolsa de estudos, que ganhei num concurso.

 

Foi fazer essa especialização directamente da licenciatura?

Tinha 22 anos. Fiz aqui mais um ano de profissão e fui para Cincinatti. Me deu um conhecimento importante do que eram os Estados Unidos, todos esses países, uma nação. Trabalhei dois anos, em cirurgia plástica, reparadora geral.

 

Era o pós-guerra. Operou estropiados?

Não. Isto se passou em 1952, por aí. Já tinham voltado há muito tempo os estropiados de guerra. Operei as pessoas estropiadas dentro da violência urbana. O hospital em que eu trabalhava, o Longacre, era um hospital de cirurgia plástica geral; operava deformidades congénitas, deformidades pós-traumáticas. Ao voltar ao Rio, criei um centro de cirurgia plástica da mão.

 

Começou aí, verdadeiramente, a sua carreira?

Eu já tinha um começo de clientela aqui e deixei tudo para voltar a ser estudante. Tinha mais de 26, 27 anos, e fui para Paris. Morei lá dois anos. Era o bouillon [caldo/mistura] do pós-guerra, com Sartre, Jean Genet, Édith Piaf, Juliette Gréco. Fiquei muito amigo da Juliette Gréco. Ela me adoptou. Naquele princípio, eu era um garoto simpático, agradável. Convivi muito com o Alain Delon, que já esteve aqui na ilha. Eram anos muito ricos. O mundo todo tinha se voltado para Paris, de novo.

 

Foi introduzido nesse mundo pela Juliette Gréco?

Não. Viajei com ela, ficámos amigos. Todo o mundo se conhecia. Tinha uma resistência incrível: trabalhava, andava de motocicleta para baixo e para cima, morava em Nanterre e ia para St. Germain. Convivi muito intimamente com essa Paris romântica. E guardando toda a curiosidade. A maior parte dos médicos têm formação numa coisa só; eu tinha uma formação ampla.

 

E mergulhou em Paris num momento em que a cidade estava em ebulição. Deu-se com os protagonistas, foi um deles.

Jacques Prevért: íamos muito ao La Rose Rouge, Rue des Reines, nº10. “Barbara, rapelle toi Barbara, rapelle quand même ce jour-là, Il pleuvait sans cesse sur Brest, il a crié ton nom, Barbara...” [Bárbara, lembra-te Bárbara, lembra-te quando naquele dia, chovia sem parar em Brest, ele gritou o teu nome]. Eu tinha dentro de mim aquela curiosidade profunda do garoto mineiro, que foi impregnado da cultura francesa, mas que nunca tinha tido a oportunidade de conhecer Paris.

 

Esse mundo que descobria em Paris era uma materialização de qualquer coisa longínqua, que estava nos livros e nas conversas com a sua mãe e com o seu pai.

É. Seria uma materialização de várias coisas longínquas, de que tinha conhecimento por livros, por conversas; eles mesmos só tinham conhecimento através de livros e conversas, não tinham conhecimento físico. De modo que havia o encanto do encontro, e o encontro com aquele pré-conhecimento. Essa Paris que encontrei, já não era a Paris dos anos 20, do Scott Fitzgerald, do Hemingway; era um país após a guerra, que ressurgia de novo.

 

De Paris foi para Inglaterra.

Foi onde fiz minha formação final.

 

Que ligação é que tinha com o Rio de Janeiro, ou com o Brasil, nessa altura? Escreviam-se cartas? Fernando Sabino trocava correspondência regular com Clarice Lispector, quando ela vivia no estrangeiro, com o marido, diplomata.

Praticamente não tinha ligação com o Rio.

 

Os seus amigos de Belo Horizonte vieram para o Rio. Desencontraram-se?

Vieram todos, e foram todos para literatura ou jornalismo. Indo para medicina, você se isola um pouco. E me isolei muito porque fiquei quase seis anos fora, nessa peregrinação de um lugar para outro, nessa aprendizagem. Fiquei expatriado. Quando regressei, não conhecia ninguém. Tive que me reintroduzir.

 

Fez sozinho a peregrinação?

Entre os Estados Unidos e a Europa, conheci a Marilu. Ela estava voltando, porque passou uns sete, oito anos estudando na Europa. Eu a conheci na casa de Nélio Baptista, que era o meu chefe de serviço do pronto-socorro; gostei muito dela logo de início, e senti que gostaria de tê-la para minha vida.

 

Do que é que mais gostou nela?

Não sei... Gostar não se define, se se define é porque não se gosta. Eu gostei do todo, da delicadeza, da presença, da inteligência, da cultura, da forma como se movia, e da beleza. Era muito bonita, e não tinha o papo das meninas que não tinham interesses culturais. Depois me ausentei de novo e ela foi para a Alemanha. Nós nos reencontrámos uma vez, em Espanha. Ela tinha até um namorado em Valência... “Não tem namorado nenhum, vai casar é comigo!” [risos]... Fui levando a coisa com força e convicção.

 

Raptou-a!

Quando voltei para o Brasil, ela ainda estava na Alemanha. Nos casámos fim do ano de 55? 59?, nem sei mais. Marilu...  Recomecei meu trabalho, com muito entusiasmo. Senti que este conhecimento adquirido era uma responsabilidade e que devia transmiti-lo. Não era usual: as pessoas que aprendiam guardavam para si. Não sei porque tive isso. Criei uma escola.

 

O serviço que continua a dirigir, na Santa Casa?

Sim. É uma escola que há mais de 40 anos vamos levando adiante. E ao criar a [minha] clínica, estabeleci uma união entre a parte privada e a parte universitária. Sem essa união, sentiria que a parte universitária era pobre. Eu tinha que enriquecê-la com meu ganho pessoal, da minha própria clínica.

 

[Segunda parte da entrevista, na sua clínica, em Botafogo. Uma semana depois]

 

Dalì fez desenhos para si e dedicou-os. “À mon ami...”. Conte-me porquê.

Você vê a grandeza do pintor: com um desenho simbolizou quase tudo o que a gente faz. Porque ele colocou Monsieur Pitanguy, e o M é a espada de um cavaleiro, eu estou montado a cavalo, o P é a espada. Aquela espada não está inclinada como D. Quixote, nem para a frente nem para trás, com medo; ela está em tensão, e o cavalo levanta uma pata também.

 

Reviu-se nesse desenho?

Revi aquilo simbolizando o meu ofício, o meu metier. A minha pessoa?, também, um pouco, o quanto eu posso estar ali dentro do meu ofício.

 

Privou com todas as figuras míticas do século XX. No outro dia, referiu-se à presença da Leni na ilha. Mas só depois de eu perguntar, esclareceu que era a Leni Riefenstahl. Importa que a Leni seja a Leni Riefenstahl? Em que é que é diferente tê-la como paciente ou ter como paciente uma pessoa carenciada da Santa Casa?

Se faço uma retrospectiva, diria que o importante são as pessoas que se encontram no dia a dia. É delas que você aprende muito mais e é com elas que pode sentir aquele aprendizado…, uma compreensão maior do ser humano. As pessoas que fizeram coisas importantes, na arte, na literatura ou no plano social, são todas pessoas interessantes, mas não transmitem obrigatoriamente coisas interessantes. Elas são interessantes pelo que fazem, pelo que representam.

 

Quando é que aprendeu a fazer essa divisão, a perceber a diferença que havia entre o sujeito público e o privado?

A pessoa é uma só. A pessoa que separa o que ele é e o que ele faz não é bom carácter. Por isso nunca quis fazer política. Eu sou a mesma pessoa. Guardo o mesmo respeito, trato da mesma forma. Isso aprendi na convivência com o ser humano: que ele é um só. E sobretudo, essas pessoas que você diz que poderiam ser importantes, quando estão dependendo, elas são tão dependentes quanto qualquer outra.

 

É sobretudo na fragilidade e na vulnerabilidade que nos parecemos?

É sobretudo na vulnerabilidade, na fragilidade, que demonstramos a nossa força. Porque, paradoxalmente, quando está mostrando a sua força, está mostrando alguma coisa, não está sendo. E quando está sendo, está sobrevivendo ao que os outros poderiam pensar, está sendo o que você é. É difícil avaliar o que é força e o que é fragilidade. Tem uma coisa muito bonita numa peça de Bernard Shaw, Candida – eu te contei isso, não contei?

 

Não contou. Como é que é?

É o marido, que é muito forte, e a mulher, que tem dois pretendentes; um deles, Marchbanks, é poeta. Quando tem que fazer uma escolha, ela diz: “What do you offer me?” [O que tens para me oferecer?], o marido diz todas aquelas coisas de potência que um homem pode dar a uma mulher, “My dignity, my position, my love...” [A minha dignidade, a minha posição, o meu amor…]. “And you, Marchbanks?”, “What can I give you?, my love, the weakness of my heart” [O que posso dar-te? O meu amor, a fraqueza do meu coração]. Ela diz: “I’ll go with the weaker of you two” [Vou com o mais fraco dos dois]. E vai com o marido. Quer dizer, aquela força era aparente, a fragilidade era uma força até maior.

 

Porque é que acha isso tão bonito?

Simboliza muitos aspectos da vida. Por exemplo, quando me perguntam porque é que os homens hoje fazem mais cirurgias do que faziam anteriormente, posso responder de mil maneiras; mas uma das coisas que digo é que a mulher ocupou uma força tal no mundo que ele pode se permitir aquela que é talvez a sua maior força: a sua fragilidade, e fazer o que quiser com o seu corpo. É uma coisa que parece tola, mas não é.

 

É diferente, para si, operar homens ou mulheres?

É a mesma coisa. A coisa mais importante, em qualquer cirurgia, é indicar bem, e perceber que aquilo que a pessoa está pensando não vai além das suas possibilidades. Ela não está te vendo, te endeusando, como um Doutor Fausto – falando de Goethe, uma pessoa mágica. Ela está te vendo como uma possibilidade.

 

Olham para si um pouco como um Doutor Fausto, aquele que restitui a juventude perdida, a frescura, a beleza?

Quando a pessoa olha, e acredita mesmo, não faz mal. Mas eu não tenho a poção mágica, nem quero ficar com a alma de ninguém.

 

Já teve a conversa à volta do mito Fausto muitas vezes? E com muitos paciente? 

Fausto é um tema muito interessante. É uma lenda que pertence à humanidade, Goethe tomou-a, outros poetas também usaram Fausto. [Christopher] Marlowe usou-o de uma maneira muito bonita; ele dizia a Helen: “May I find eternity through your lips?” [Posso encontrar a eternidade através dos teus lábios?]. No final, vem a beleza. A beleza, no sentido goetheniano, (e isso é um tema muito meu), é superior ao bom; ela contém o bom em si mesma. Os gestos se confundem, belus e bonus. Beau geste é o gesto bonito, e o gesto bonito tem que ser um gesto bom. A bondade está junto com a beleza.

 

O seu gesto representa a esperança. De vir a ser, parecer.

Existe uma promessa permanente. É o sentido stendhaliano: “La beauté n’est qu’une promesse de bonheur” [A beleza não é senão uma promessa de felicidade]. Porquê une promesse? É muito bonito: quando aspira o perfume de uma rosa, ele continua... “La beauté n’est qu’ un moment de bonheur [A beleza não é senão um momento de felicidade]: é um pouco mais duro, já é balzaquiano. Sempre pode falar da beleza eternamente, mas tangenciando, sem falar dela mesma. Porque não consegue defini-la.

 

Transformou-se no cirurgião que é, também, graças à sua cultura e erudição, tudo o que leu, tudo o que viveu? Ou o exercício médico é pura mestria técnica?

A medicina é uma arte aplicada, não é uma coisa normativa. É uma criatividade permanente, é um bom senso. E não existe uma habilidade – como lhe disse, a mão é o instrumento primordial do cérebro.

 

Operou mulheres lindíssimas, que não imaginaríamos que recorressem a si. Tem no gabinete fotografias suas com Marc Chagall, Sofia Loren. Estes encontros foram especialmente enriquecedores?

Tenho aqui, por acaso, algumas fotos. Nunca fiz colecção de fotos, não colecciono coisas assim. Todo o mundo dá a alguém alguma coisa. O mais enriquecedor é o contacto com a vida, o dia-a-dia, o esperar o dia de amanhã. A minha vida não é só encontrar as pessoas que querem fazer cirurgia...

 

O que é que aprende com uma milionária árabe que vem fazer uma rinoplastia?

O doente, de um modo geral, está muito preocupado com ele mesmo. Eu me enriqueço, no sentido humano, com você, com a sua entrevista. A pessoa te surpreende. Sempre tive uma vida muito rica, viajei muito, dei muitas conferências. É um tipo de..., não sei se a palavra existe em português: serindipity,...

 

Existe serendipidade: significa fazer descobertas e encontros felizes por acaso. Mas é uma palavra que quase não se usa.

Serendipismo vem de “serendipi”, que é o antigo Ceilão; os reis de Ceilão notaram, quando faziam um relato final da missão, que, muitas vezes, as coisas que tinham aprendido eram tão importantes, ou mais, do que a própria missão. Tudo o que souber associar na sua vida é serendipismo. Eu acho que a minha vida foi muito rica de serendipismo. [O meu trabalho], esse convívio, fez com que conhecesse muitas pessoas. Algumas me decepcionaram, outras me enriqueceram, tudo isso faz parte da vida. Umas foram pacientes, outras foram amigas, outras foram circunstanciais... Mas estou sempre preparado para encontrar outra pessoa.

 

Explique melhor da importância de manter a funcionar a unidade (que tem o seu nome) da Santa Casa. Podia, simplesmente, ter continuado a enriquecer na clínica privada.

A Santa Casa, para mim, é o maior enriquecimento. Pessoa não enriquece só com dinheiro, não. Sou o responsável directo por uma estrutura que criei. Acho que é meu mérito tê-la criado com pessoas muito capazes, com um espírito semelhante ao meu: querer dar, ensinar. É um grupo docente que funciona dentro do atendimento aos pacientes, sem nenhuma finalidade mercenária. Cada um deles dá um pouco do seu tempo e dá o outro à sua clínica privada. Quando perguntam porque é que a pessoa faz isso quando poderia estar fazendo outras coisas, é porque nunca fizeram isto...

 

O escritor Ruy Castro, no seu dicionário de figuras de Ipanema, refere-se a si como um Robin Wood da cirurgia plástica…

É mentira! [riso] Sabe que os ricos não pagam muito? Isso é conversa fiada... Trabalhando muito você vai produzindo, o normal, mas não tem nada de extraordinário. O que é importante é que criei uma estrutura que é universitária e é privada, e a privada ajuda a universitária.

 

É uma forma de dádiva ao seu país? Apostar na formação é apostar no futuro. E ajuda pessoas que de outro modo não teriam acesso a este tipo de serviço.

É. O futuro é o presente que você vive com intensidade e qualidade.

 

Na Santa Casa faz cirurgia reconstrutiva e também cirurgia plástica por razões puramente estéticas.

Fazemos as duas. Serviço de cirurgia reconstrutiva existe em toda a parte, mas um serviço que faça também estética, e que dê dignidade à cirurgia estética, não só académica como do ponto de vista do valor humano, não. A única forma de poder atender a essa população, era formando cirurgiões tanto na reparadora como na estética, e apelando à população para tirar esse lado de elite da cirurgia estética...

 

Num outro livro, Carnaval no Fogo, Ruy Castro fala da possibilidade de existirem meninas na favela da Rocinha com um nariz igual ao da Sofia Loren… Operadas por si.

Sabe que as coisas muito bonitas nunca foram tocadas? Ela [Sofia Loren] nunca mexeu no nariz dela. O bonito é sentir que existem pessoas bonitas em toda a parte, e a Rocinha, é um pedaço do Brasil…

 

Que idade tem? Oitenta?

Por aí.

 

Pensa no que deixa, no seu legado?

Todo o mundo quer ter um legado. O legado que posso deixar é o meu ofício. Que transmiti, que algumas pessoas vão seguir. Lancei agora um livro chamado Aprendiz da Vida, mas estou fazendo um outro chamado Carta a Um Jovem Médico. Falo da importância do lado humano, do contacto.

 

Fale-me do prazer de operar. Do prazer táctil.

Não é um prazer físico, não diria isso. Há um prazer no fazer, no dizer uma coisa que você acredita que é a sua verdade. Não há sensualidade na cirurgia. As leis são muito rígidas – a anatomia – não trabalha com a liberdade do escultor. Não é um prazer de Miguel Ângelo, que falou: “Parla Moisés!”.

 

Ainda não falámos da sua relação com o seu corpo.

É muito espartana, como com a vida. Sempre mantive uma relação com o meu corpo dentro do meu biótipo, com o melhor que ele pode me oferecer, e com muito respeito. Embora possa me permitir alguns excessos, mas não vou viver neles. O corpo merece um cuidado especial, é o nosso santuário. Até hoje tenho o cuidado de exercitar.

 

No seu livro de memórias tem uma fotografia de uma menina com a legenda: “Uma namoradinha que o Fernando Sabino e eu disputávamos”…

Eu sempre fui muito namorador, sempre gostei muito de namorar... não por esporte! A mulher é o animal mais bonito que Deus concebeu; apreciar a sua graça, sua beleza, é uma coisa que aprendi, e até hoje aprecio.

 

Quando, adolescente, disputava a namoradinha com o seu melhor amigo, olha-se ao espelho e perguntava-se: “Sou suficientemente bonito? Sou suficientemente alto?”. Coisas que, como bem sabe, interferem na auto-estima…

Claro. Se olhar para fotos minhas, de garoto, você vai ver que…  [aponta para outra fotografia no livro] Continuo esquiando.

 

E continua a nadar...

Continuo a nadar. Naquela época, o disputar tinha um sentido muito interessante… Está vendo aqui, a cavalo? [numa outra página] Era um garoto, tinha um físico muito bom! Ainda jogo o meu ténis pela manhã. Eu não vivo a idade, eu vivo o que eu sinto. Nunca me achei muito bonito, mas nunca me achei feio; era uma pessoa mais ou menos dentro do normal. Às vezes tinha que fazer um certo esforço para conquistar.

 

Já foi trocado?, recusado?

Claro, todo o mundo já foi, não é? Inclusive, você já foi. A mulher tem sempre uma postura de poder recusar e cabe ao homem considerar isso normal. O homem aceita um pouco mais, mulher é mais dura, mais capaz de dizer “Não”. O homem tem uma certa pena de dizer “Não”! [risos]

 

Sonhou alguma vez com as suas mãos?

Com as minhas mãos, não. A minha mão é mão de trabalhador, é larga, forte, com dedos curtos e finos.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2008

 

 

 

 

 

Filipe Seems, um herói de BD

11.01.23

Os álbuns “Ana” (1993), “A História do Tesouro Perdido” (1994) e “A Tribo dos Sonhos Cruzados” (2003), escritos por Nuno Artur Silva e desenhados por António Jorge Gonçalves, fornecem um retrato de um herói enquanto jovem. Filipe Seems.

São a biografia de uma pessoa, que só por acaso não é de carne e osso; e de uma cidade, Lisboa, imaginada por ele.

A BD começou por ser publicada no semanário Sete. Depois em álbum. Depois fez-se a adaptação para teatro, na peça “Conspiração”. Primeiro protagonizada por Nuno Lopes, depois por Marco de Almeida. Os restantes cúmplices eram Sandra Celas e Kalaf, música de Armando Teixeira, coreografia de Amélia Bentes.

A peça deriva do terceiro tomo, “A Tribo…”, uma novela gráfica, mais do que um álbum BD. A versão vídeo, realizada por Pedro Macedo, está agora a ser lançada numa caixa que reúne todos os álbuns, o DVD e desenhos originais.

Muitos anos depois, fecha-se um ciclo. Formalmente fecha-se um ciclo. António Jorge Gonçalves e Nuno Artur Silva já não são os mesmos. E Seems?

Por onde se começa? A compor uma ficção, a desvendar um mistério, a amar uma cidade. Talvez pela luz dourada sobre o rio, que é um mar. Pela vista esplêndida. Por uma cena assim: sapatos de detective pousados sobre a secretária, uma mulher óbvia e ondulante que entra pela porta, uma citação de Picasso. “D’abord on trouve, puis on cherche”. Primeiro encontra-se, depois procura-se. Este será o modus operandi deste detective.

Escolher o enigma e não a solução.

Seems, Filipe Seems. Parece que.

O ambiente de Seems: não há vestígios da soturnidade do film noir ou do romance à la Chandler. Mas melancolia, sim. Não há citações de Cesário, mas de Pessoa. (Há uma prancha em que se lê, no café, o Livro do Desassossego). Não há mortos. E é verdade que a primeira vez que alguém diz: “mãos ao ar”, o que se aponta é uma máquina fotográfica – arma dos tempos modernos, objecto conhecido e identificado.

Viramos a página. Subitamente, canais junto ao elevador de Santa Justa, gôndolas venezianas, escadas, escadas. Uma Lisboa impossível. Um objecto de desejo.

Começamos, de novo: o problema essencial é o problema de Seems. Que caminho seguir. Que escolha fazer. Qual é o fio da nossa história. Perante a bifurcação permanente, que narração escolhemos, de que narração fazemos parte. Tudo perguntas, tudo questões, deixadas em aberto. Não interessa a resposta, interessa o caminho para lá chegar.

O princípio mesmo. Lisboa, 1992. Dois amigos. Nuno Artur Silva, António Jorge Gonçalves. “Lisboa era uma cenografia pronta a receber histórias. Uma cidade com um potencial extraordinário. E havia histórias por contar e imagens para desenhar”, diz o argumentista.

Percorreram a cidade uma e outra vez. Fizeram repérage, como quando se prepara um filme. Mas a pensar em álbuns de banda desenhada. Escolheram décors, escolheram o ângulo, escolheram o absurdo que lhes apetecia. Por exemplo: “Acho que vou dar um mergulho”, e a seguir estão golfinhos a nadar no Tejo. Ou o Terreiro do Paço, completamente inundado, como se fosse S. Marcos em dias de maré-alta.

Tudo isto sem gastar dinheiro ou pedir autorizações. Ao contrário dos filmes. Coisas que a literatura permite. E também há, por falar em Lisboa absurda, a imagem poética da cidade coberta de neve. Neve espessa, de um branco opaco.

O cenário era este. Depois, era preciso um herói que ligasse os pontos, que lhes desse um sentido, que contasse uma história. Que a contasse à medida que a descobre. Descobrir, procurar – nesta ordem. Podia ser um poeta, mas é um detective. Faz o que fazem os detectives: segue as pistas. Outra citação, René Char: “Um poeta deve deixar pistas e não provas; Só as pistas fazem sonhar”.

Filipe Seems. “Em termos práticos, nasci em 1993, ano em que me inventaram. Mas as minhas histórias passam-se num futuro mítico. Será 2016, 2020? Se quiser, eu não tenho tempo, eu não tenho idade. Sou uma ficção, uma utopia. O que está por trás de mim é a ideia de que todos somos obras de ficção. Vivo numa cidade mas esta cidade não é só a cidade real. Aliás, esta cidade é sobretudo a cidade irreal. É a cidade que eu posso transformar. É a cidade em que, na esquina, posso ter aquele jacarandá e imaginar tudo o que quiser: gôndolas venezianas, naves espaciais. Esta cidade tem pessoas. Cada pessoa é uma obra de arte, uma obra de ficção. O meu cruzamento com essas pessoas tem que ser um cruzamento que provoque, que estimule, que inspire. Eu tenho que ter uma existência literária. Eu quero ter uma existência literária. Porque essa é a forma de viver inspiradamente”.

O excerto é retirado de uma entrevista de 2003, a única entrevista dada por Seems. Ou seja, por Nuno Artur e António Jorge a responderem na pele de Filipe Seems.

Da mesma entrevista.

“Qual é o seu passado? Que infância foi a sua?

- Que quer que lhe diga? Em miúdo, vivi num bairro típico de Lisboa, fui o miúdo do Molero [«O que diz Molero», Dinis Machado]. Joguei à bola no meio dos outros miúdos. Depois fartei-me de viajar sem nunca sair do bairro. Depois isolei-me. Fartei-me de ler, de ver filmes. Continuei a viver no mesmo sítio, mas virado para dentro da minha cabeça. Foi esse o lugar onde sobrevivi.

Tem mãe? Foi embalado?

- Não. Ou se tive, também foi uma ficção. Não esqueça que eu não tenho o problema de pagar a renda, não penso em dinheiro. Sou apenas uma personagem perdida num labirinto de possibilidades, condenada a errar eternamente nesse labirinto”.

Coisas, factos, imagens do labirinto: um passageiro numa noite de verão, um gato elegante que vai à frente. Passeia no telhado, sem que isso pareça um número equilibrista. Funambulismo não é uma palavra usada. Mas serendipidade sim. (Serendipidade: faculdade de fazer descobertas felizes e inesperadas, por acidente). Palavra essencial na música do acaso de Seems.

Há números de circo (e moda) na Basílica da Estrela. Uma evocação de Pessoa ao volante de um Chevrolet, numa estada de Sintra. Há pessoas que comunicam pelo computador antes de o skype ser uma ferramenta de todos os dias. Há sessões de psicanálise, amigos cientistas, uma guia que acha que o ideal é deixar que os seus turistas se percam. Prestidigitadores, visões caleidoscópicas. Um azul árabe. Esquinas, jogo de sombras, edifícios oblíquos. Gaivotas esparsas. Roupa dependurada na janela. Temperatura solar. E Jorge Luís Borges, omnipresente.

Mais factos: “Convidei-a para um pequeno-almoço, a luz da manhã invadia os telhados”. Era n’ A Brasileira, e A Brasileira era mesmo A Brasileira. O mesmo recorte. Não havia coisas estrambólicas – ao tempo – e que depois não seriam tão estrambólicas assim. Como o comboio a passar debaixo da ponte 25 de Abril. (De certa maneira, Seems apresenta também uma Lisboa premonitória).

Há bicicletas que andam no ar, com um balão. Um funicular liga a Baixa e o castelo de S. Jorge. Um eléctrico igual ao 28 que percorre as colinas de Lisboa e onde fanam carteiras aos turistas.

Detenhamo-nos no eléctrico. No primeiro álbum, “Ana”, é um funicular. No segundo, “A História do Tesouro Perdido”, há um bar que funciona num eléctrico chamado Desejo. (Sem Blanche Dubois à vista). No terceiro, “A Tribo dos Sonhos Cruzados”, o eléctrico é o mesmo, mas eles não. O eléctrico aporta numa estação soturna, com estalactites e estalagmites. (Cesário nunca vem ao caso). E por isso, o espaço que atravessa é subterrâneo, dark, perdido do seu sentido.

O fio principal: “O primeiro álbum tem a ver com o universo das histórias. É dominado pela errância do personagem e pela frase de Picasso. A partir daqui, quis fazer arte pop. Colagem, mistura, cruzamento, sobreposição. Tudo o que a BD permite, de modo simples e imediato. Misturar o universo borgesiano com Philip K. Dick. Cruzar um passado mítico e visões futuristas. A Costa da Caparica que aparece é a do [modernista] Cassiano Branco (de um projecto que nunca se chegou a concretizar). Tudo num só tempo”.

Tudo cheio de múltiplos sentidos, múltiplos fios. Um exemplo: Maria Kodama, dona de uma clínica de clonagem em “Ana”, é o nome da mulher de Jorge Luís Borges. Alice Lidell, que dá nome à clínica, é o nome verdadeiro da Alice do país das maravilhas.

Nada elementar, meu caro Seems.

Voltamos a Nuno Artur Silva e ao coração destas fábulas: “O António Jorge queria desenhar luz, luz, luz. Eu gosto de histórias de tesouros. Qual é o sítio mais improvável para enterrar um tesouro e encontrar um marinheiro? No meio do deserto”.

N’ “A História do Tesouro Perdido” mistura-se Casablanca e a “Ilha do Tesouro” de Stevenson, Corto Maltese e os Descobrimentos Portugueses, Al Berto aparece, himself, como director de um museu, há um misterioso casal de atlantes. Mas os andróides/atlantes/replicants vêm do primeiro álbum. Numa citação explícita de “Blade Runner”, e Harrison Ford cara a cara com Filipe Seems.

E o tesouro? “Mais importante é estar na pista do que encontrar no tesouro”, diz Nuno Artur.

Sempre a mesma ideia base.

Dez anos mais tarde, no terceiro tomo da trilogia, em vez de um tom luminoso e solar, há fantasmas por resolver. Tudo se passa no undergroung, nos subterrâneos dele próprio – Seems – e de Lisboa. Sombras e nevoeiro. Escuro cá dentro. Talvez seja sempre noite. Seems sem conseguir ver o dia. Cidade em escombros. Corredores e corredores de metro. A única imagem solar é a dos Jerónimos transformados em praia tropical. Bizarro.

E há um fio condutor, roubado a Chatwin, que por sua vez o roubou aos aborígenes do deserto australiano. Os tais que se guiam por canções e não por mapas. (Roubar é um modo de dizer.) Quando se muda o sentido, o caminho, o fio? Quando acaba a canção.

Filipe Seems deve, então, seguir a sua songline. Sair dos escombros. (Todo o cenário do último álbum, aliás, é pré e pós apocalíptico). Uma rede terrorista faz atentados. A sociedade sucumbe a uma overdose de imagens e sons. É preciso chegar ao silêncio. Soterrado, soterrado. Filipe Seems precisa de abrir uma fenda no muro.

António Jorge Gonçalves: “N’ "A Tribo", somos outros a revisitar um lugar onde muito tinha acontecido”. Graficamente, é outro objecto. “Achei que era eu que estava a marcar demasiado a diferença por incapacidade de voltar a uma linguagem de "juventude"; mas a certa altura percebi que o Nuno também não era o mesmo, e que já tínhamos mudado de século, e que já tinha acontecido o 11 de Setembro, e que...”

E que coisas querem dizer? “Nos dois primeiros queríamos apenas jogar; no terceiro precisámos dizer. O meio da banda desenhada (essa pequena aldeia de irredutíveis) não aceitou muito bem essa diferença e acho que decepcionámos alguns fãs.

Mas para mim é límpida a supremacia do autor sobre o leitor numa obra (quer dizer: o autor fá-lo por necessidade, não escolhe. O leitor tem a liberdade de decidir se quer ou se não quer)”.

Onde começou a alucinação?

“A mulher que comigo agora se cruza é o meu grande amor e ambos ainda não o sabemos. O homem que saiu do táxi tem uma missão: vai salvar doze pessoas e ainda não sabe. O outro, que entrou no táxi, é um assassino, vai atrás da sua vítima, e sabe-o”.

Linhas, fios, histórias, enredos. Viver, literariamente, que é como vivemos, talvez se trate de encontro e desencontro. O problema talvez seja desencontrarmo-nos dos nossos passos, ou seja, da nossa ficção. Mas há sempre outra ficção…

Filipe Seems diz: “Tudo é ficção, acaso e destino, labirinto e jogo”.

Faites vos jeux, os fios estão lançados.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2009

 

Os (2ºs) Filhos da Madrugada

09.01.23

Na nossa História, houve um “dia levantado e principal”, como lhe chamou José Saramago no final do romance Levantado do Chão. Os filhos dessa alvorada que rompeu com as sombras e o silêncio, aqueles que acordaram em dias de outra inteireza, são Os Filhos da Madrugada.

À semelhança da primeira série, que deu origem a um livro homónimo, procura-se fazer uma auscultação do país erguido após a revolução, ouvindo pessoas que nasceram depois de 74 e que formam um retrato plural do Portugal que hoje somos. A Célia e o Pedro que casaram no dia 25 de Abril, uma imigrante brasileira que conhece a palavra exílio, um médico que nasceu por acidente no Canadá, para onde os pais, conservadores, foram em 1975, um ilustrador que criou uma psicanalista que deixa os pacientes na merda, uma diplomata e uma mulher que integra o Conselho Superior de Magistratura, cargos vedados às mulheres antes do 25 de Abril, um jovem empresário que criou uma marca de sucesso aos 20 e poucos anos, uma jornalista açoriana que vive numa pequena ilha.

Vamos até ao 25 de Abril, todos os dias na RTP3, e começamos a 24 de Março, quando o tempo passa a ter outra substância: esse é o primeiro dia em que se contam mais dias de democracia do que os dias de ditadura. Portanto, 48 anos e um dia.

Autoria e coordenação de Anabela Mota Ribeiro, nascida em 1971.

24 Março - Gustavo Carona, médico, 1980

25 - Célia Costa, produtora, 1978, e Pedro Vieira, escritor, 1975

26 - Sérgio Antunes, arquitecto, 1977

27 - Joana Bértholo, escritora, 1982

28 - Zoy Anastassakis, prof., imigrante em Portugal, 1974

29 - Sérgio Machado Letria, gestor cultural, 1975

30 - Marta Loja Neves, diplomata, 1982

31 - Ana Laura Santos, designer, 1983

1 Abril - João Pereira Coutinho, prof. ciência política, 1976

2 - Eduarda Mendes, jornalista, 1996

3 - Daniela Salgueiro Maia, estudante, 2003

4 - Catarina Vasconcelos, cineasta, 1986

5 - Diogo Amorim, padeiro e empresário, 1996

6 - João Ferro Rodrigues, economista, 1976

7 - Hugo van der Ding, ilustrador, 1976

8 - Catarina Belo, prof. estudos islâmicos, 1974

9 - Capicua, rapper e socióloga, 1982

10 - David Marçal, bioquímico e divulgador de ciência, 1976

11 - Luísa Semedo, professora de Filosofia, emigrante, 1977 

12 - Inês Ferreira Leite, Prof. Direito e membro CSM, 1978

13 - Ricardo Marvão, empreendedor, 1978 

14 - Isabel Moreira, deputada, 1976

15 - Kalaf Epalanga, escritor, 1978

16 - Marta Mateus, cineasta, 1984, e Safir Eizner, estudante, 2004

17 - Gisela Casimiro, escritora e artista, 1984 

18 - Bordalo ii, artista plástico, 1987

19 - Bernardo Pires de Lima, analista de Política Internacional, 1979

20 - Francisco Mendes da Silva, advogado, 1980 

21 - Marta Bateira - Beatriz Gosta, humorista, 1982

22 - Samuel Úria, músico, 1979 

23 - Carolina e Constança Villaverde Rosado, produtora e artista, 1993 e 1996 

24 - Blessing Lumueno, treinador de futebol, 1988

25 - Tiago Bartolomeu Costa, programador cultural, 1979 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A few of my favorite things de 2022

09.01.23
These are a few of my favorite things e outras de 2022 (e a cantar para dentro: Tristeza, por favor vá embora...):
- Tive saúde. Tomei cuidados e vacinas, e tive sorte.
- Escrevi.
- Falei uma noite inteira com a Annie Ernaux e pude agradecer-lhe o que os seus livros fizeram por mim.
- Despedi-me da Paula Rego entre os seus quadros em Málaga.
- Convidei amigos novos para os meus anos, além dos amigos de sempre. Conheci pessoas de quem fiquei instantaneamente amiga. No dia em que me fechar no risco da desilusão, serei velha e triste.
- Comi outra vez um gelado com a Conceição Matos e o Domingos Abrantes no 25 de Abril. Na mesma tarde, mostrei ao Moreno Veloso como vivemos esse dia mais feliz do ano.
- Fiz Os Filhos da Madrugada e o Calendário do Advento na RTP. Lancei o livro d' Os Filhos II pela Temas e Debates. Concebi um ciclo para a Casa do Cinema Manoel de Oliveira. Conversei com o Richard Zenith no lançamento da Biografia de Pessoa. Li quase 1300 páginas e aprendi muitíssimo.
- Fiz uma conferência sobre Machado de Assis na PUC-São Paulo, e outra sobre Saramago na UMass de Dartmouth. Também falei de Saramago em Paris e em Madrid.
- Trombei com um mundo em ebulição e esperança em Paraty, onde moderei uma mesa com as ponta de lança do futuro Alice Neto de Sousa e Mídria, e o soba Lázaro Ramos.
- Participei nas reuniões do Conselho Geral da Universidade de Coimbra, que integro, e pensei: como se prepara o futuro e se investe no saber?
- Abracei a minha afilhada Mia e vimos juntas vestidos. Vi os meus afilhados Maria e Pedro a jogarem xadrez. Andei de barco e servi sumo de laranja numa flute ao meu afilhado Chico. Celebrei os 16 anos da Margarida com champanhe num restaurante fino; ela chegou de trotinete. A Mada repete que sou a sua melhor amiga mais velha. Procuro com a Alice um nome para o seu filho, de quem hei-de ser madrinha (ou já sou). Compreendi, olhando para o meu sobrinho-neto João, que temos muito a aprender com as crianças. Guardamos demasiado trampa na nossa cabeça.
- Conheci a Laureana num concurso de escrita promovido pelo Plano Nacional de Leitura, e enchi-me de força com ela.
- Retomei as viagens. Paris, Bordéus, Madrid, Málaga, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraty, New Bedford.
- Manifestei-me contra a invasão da Ucrânia.
- Bolsonaro perdeu. Lula venceu.
- A minha sobrinha foi para a universidade. Não foi estudar aquilo que eu achava que ela devia estudar, o que foi mesmo bom, porque os tios racham lenha.
- Saltei do Paleolítico para a modernidade e já tenho Spotify (ah ah ah).
- A peça da Christiane Jatahy, a performance do André e. Teodósio.
- Os filmes da Cláudia Varejão, da Cristèle Alves Meira, do Marco Martins.
- Os livros da Djaimilia, da Joana Bértholo, da Leila Slimani, os livros e o prémio Pessoa para o João Luís Barreto Guimarães (para só falar de amigos).
- A exposição do Bispo do Rosário. O Rui Chafes e a Agnès Varda em Serralves.
- Na música, descobri uma miúda, a Raquel Martins.
- Morreu o Godard. Morreu a Gal. A Ana Luísa Amaral. A Paula Rego. A Maria de Lourdes Modesto. Morreu gente a mais.
- A Estelle Valente esteve comigo na televisão e fotografou-me com verdade e cuidado nos meus 51 anos. Com rugas e cabelos brancos.
 

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Calendário do Advento

09.01.23

“Para isso fomos feitos / Para lembrar e ser lembrados [...] Pois para isso fomos feitos / Para a esperança no milagre”, escreveu o poeta Vinicius de Moraes no seu Poema de Natal.

O Natal faz-nos recuar a uma infância mitificada? O Natal é uma cápsula impermeável ao mundano, à agressividade, ao sexo (a ressonância bíblica ensina-nos que Maria engravidou sem pecado)? O Natal é um lugar onde se faz alarde do amor e da esperança e se ficcionam as boas intenções? Em que momento o Natal começou a ser o martírio, a destrutividade a vir por fora, o consumismo descontrolado? Persiste em nós o sentimento de que fomos esperados, de que somos, como o Menino Jesus, um Messias para os nossos pais? O Natal da convenção é também o do desamparo, como se lê nos versos de Fernando Pessoa (“Quando o corpo me arrefece, tenho o frio e Natal não”).

Advento significa chegada. Essa chegada pressupõe uma espera e é uma promessa. O Calendário do Advento anuncia, dia a dia, o aparecimento de um ser, de algo que se inicia. Ou seja, uma vida nova, um nascer de novo.

As alegrias do Natal, os atritos do Natal, os reencontros, os desencontros, o nascimento e a morte, as viagens (no tempo, interna, na estrada), a comida, as memórias da infância e a reconstrução dessas memórias nos filhos e nos netos, nos elos seguintes da árvore genealógica, as novas configurações da família, o país desigual, cortado nas diferentes geografias, tempo histórico, classe social, costumes e religiões, é aquilo que se procura questionar numa série de entrevistas a decorrer entre o dia 27 de Novembro e 24 de Dezembro. Justamente, enquanto se folheia este Calendário do Advento.

Entrevistas de 20 minutos, diárias, para as quais o convidado leva fotografias, presentes e memórias, e sai da sua biografia para reflectir, também, sobre esse grande mistério que é o Natal. Na RTP3, 20h. Programas disponíveis na RTP Play. 

Autoria e coordenação: Anabela Mota Ribeiro.

Fotografias de Estelle Valente.
 

Os entrevistados do Calendário:

Um clérigo, uma muçulmana, uma protestante, um judeu, ateus, agnósticos, católicos, uma etnomusicóloga que nos ajuda a perceber distâncias e caminhos comuns com o hinduísmo, uma mãe e uma filha, um pai e um filho, três pessoas negras, duas pessoas gay, pessoas nascidas nas décadas de 30, 40, 50, 60, 70, 80, anos 2000, artistas e criadores, cientistas, teóricos, pessoas que gostam do Natal, outras que nem por isso, 16 homens, 14 mulheres, um americano, um brasileiro, três moçambicanas, pessoas do Porto, Braga, Aveiro, Trás os Montes, Algarve. Podiam sempre ser outras pessoas, mas são estas. E que pessoas maravilhosas no Calendário do Advento! 

27 Nov - Aldina Duarte, fadista, 1967

28 Nov - Pedro Strecht, pedopsiquiatra, 1966

29 Nov - Helena Pato, matemática, resistente anti-fascista, 1939

30 Nov - Miguel Vale de Almeida, antropólogo, 1960

1 Dez - Sheila Khan, socióloga, 1972

2 Dez - José Avillez, chef, 1979

3 Dez - Maria Emília Brederode Santos, pedagoga, 1942

4 Dez - António Araújo, historiador, 1966

5 Dez - Filipa Roseta e Helena Roseta, arquitectas e políticas, 1973, 1947 

6 Dez - Richard Zimler, escritor, 1956

7 Dez - Lídia Jorge, escritora, 1946

8 Dez - Nuno Markl, humorista e locutor de rádio, 1971

9 Dez - Pedro Bidarra, publicitário e escritor, 1961 

10 Dez - Selma Uamusse, cantora, 1981

11 Dez - André Letria, ilustrador, 1973

12 Dez - Faranaz Keshavjee, investigadora Estudos Islâmicos, 1968

13 Dez - Carlos Fiolhais, físico, 1956

14 Dez - Isabel Camarinha, dirigente sindical, 1960

15 Dez - Frei Bento Domingues, clérigo, 1934

16 Dez - Gabriela Moita, psicóloga, 1963

17 Dez - Gonçalo M. Tavares, escritor, 1970

18 Dez - Graça Morais, pintora, 1948

19 Dez - Francisco Vaz da Silva, antropólogo, 1960

20 Dez - Cláudia Varejão, cineasta, 1980

21 Dez - Gregorio Duvivier, humorista e poeta, 1986

22 Dez - Susana Sardo, etnomusicóloga, 1963 

23 Dez - Sobrinho Simões, patologista, 1947

24 Dez - Sandro Feliciano, estudante e actor, 2005, e Jorge Feliciano, mediador de seguros, 1971

 

 

 

 

Calendário do Advento - Bastidores

09.01.23

- Primeiro tive a ideia do Calendário do Advento, escrevi uma sinopse, fiz uma primeira lista de convidados. 

- Depois propus o programa ao António José Teixeira, director de informação da RTP3, que gostou da proposta e mobilizou meios para que ele pudesse avançar. 
- Sugeri que fosse feito com o núcleo duro d' Os Filhos da Madrugada, o produtor Gonçalo Soares da Silva e o realizador José Véstia, e as imprescindíveis fotografias da Estelle Valente (que não é da casa RTP, mas é da minha casa; ou seja, faz uma diferença abissal nos meus projectos tê-la por perto). 
- Pesquisei imagens que evocam o Natal, como o personagem João do filme A Palavra, de Dreyer, o Música no Coração, um painel de Natal dos incríveis João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira para um Quebra Nozes encenado pelo André e. Teodósio; e um presépio desenhado pelo Almada Negreiros e um cartão de Natal da Catarina Almada para a avó Sarah Affonso. Estes foram imensamente generosos e cederam gratuitamente a inclusão destas imagens no programa.
- Depois o Nicolau Tudela, director de arte da RTP, e a sua equipa, e o Nuno Estanqueiro, criaram um painel que aglomerasse todas as referências e que servisse de base ao cenário virtual. 
- Foram também eles que fizeram o genérico lindíssimo, com música do Bach (sim, é possível ter uma banda sonora que não a Mariah Carey). 
- Por fim (isto é: poucas semanas depois do início do processo) começámos a gravar, três ou mais programas por dia. Houve um dia em que gravámos seis, não me perguntem como aguentei, porque nem eu sei. 
- Pelo meio fui ao Brasil e EUA e estive duas semanas fora. Acabava de lançar Os Filhos da Madrugada II e tinha de acompanhar o ciclo Um Filme Falado, ou o Cinema e as outras Artes no Porto. Deixei gravados 15 programas. Seria preciso gravar mais 13. 
- Compreendi que precisava de ajuda. Pela primeira vez desde que faço televisão, pedi apoio na pesquisa e preparação das entrevistas. A Maria João Caetano, jornalista que conhecia há tantos anos do DN, foi preciosa nesta série de 28. Compreendeu o meu estilo e seleccionou material útil para o programa, neste ritmo alucinante. 
- Diariamente, é preciso fazer um trabalho de divulgação de cada emissão. Não menos importante que tudo o que descrevo. 
- Agora que entramos nos últimos dias, quero partilhar o processo e sobretudo agradecer a tantas pessoas envolvidas no Calendário do Advento que podem ver na RTP3, às 20h, e sempre na RTP Play. Esta liberdade de pensar um projecto e o empenho de tantos para que ele se concretize com qualidade é inestimável.
- Sou grata também a todos os que vêem o programa e me ajudam a pensar com os seus comentários.
 

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