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Anabela Mota Ribeiro

Kalaf Epalanga

20.02.25

Kalaf é esquisito. É aquele dos Buraka Som Sistema, a banda que está a bombar em todo o mundo. Poeta-cantor, imensamente cool, porte de quem vem do reino dos Ovimbundos, viajante. A melhor definição para dizer quem é e o que faz: agitador cultural. A esquisitice tem que ver com ser estas coisas todas, peças de um puzzle difícil de concatenar. E todavia, sim. Nasceu em Benguela em 1978.

Kalaf é um angolano de Benguela. Lançou recentemente um livro de crónicas de título provocador: O Angolano que Comprou Lisboa (por metade do preço). O CCB dá-lhe carta branca para fazer o show que quiser, dia 29 de Maio. Ele é o show. Não é provável que recrie os jardins do designer belga Dries van Noten, mas esse aroma, o das rosas, subtil, estará lá. Vão estar coisas que não se vêem mas que fazem parte de quem é, e desta viagem que se faz na entrevista. Vão estar sembas e kizombas, o que resulta de lugares onde se incubam ideias, espécie de estufa que frequenta e onde se inventa o mundo. É muito raro uma pessoa fluir entre assuntos e mapas, protagonistas e ficções com este movimento leve. Que nos faz crer que isto anda mesmo tudo ligado. Kalaf Epalanga é assim. (Esqueçam o Kalaf Ângelo: há uma história no nome Epalanga, que é por onde tudo passa. Epalanga não é um nome neutro.)

Pediu um arroz de pato porque estava cheio de fome. Quase não comeu. Trazia umas calças Dries.

  

Não me ocorre mais ninguém que numa frase conseguisse juntar o músico Terry Callier, o designer de moda Dries van Noten, o jornalista Rafael Marques, o político Rui Tavares, o activista Martin Luther King, que é o que posso fazer depois de ler coisas sobre si. É uma boa amostra de quem é?

Bastante. Podia acrescentar outros nomes fundamentais. [O escritor] James Baldwin, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade. E recentemente [o escritor e cronista] Ruy Castro, estou apaixonado por Ruy Castro. Tenho os cronistas em grande estima. Os brasileiros, então.

 

Porquê o seu fascínio pelos cronistas?

Porque a crónica ocupa um lugar na literatura que é um pouco periférico. Não é consagrada. O Miguel Esteves Cardoso é um grande cronista. O facto de serem muito atentos e assertivos nas análises que fazem, aproxima-os do mundano, do que é corrente, do que é agora. Gosto disso.

 

O sentido da urgência, do agora, é fundamental para si?

Sim. E também a ideia de memória. O cronista muitas vezes faz-nos viajar, mas o ponto de partida é sempre o presente.

 

Pode ser esse cronista, pode escrever este tempo e este lugar?

Só daqui a 20 anos teria substância suficiente. Estou em Lisboa há 20 anos. Mas a Lisboa realmente fascinante começou antes. Tem que incluir a Lisboa de [Fernando] Pessoa. A Lisboa de Almada Negreiros, de Almeida Garrett.

 

Tem a capacidade de estar em plataformas muito distintas. Se há coisa que está a acontecer em Lisboa é o cruzamento de linhas, que não há muitos anos não se cruzavam. Está num ir e vir constante. No espaço e no que faz.

Durante muito tempo, para facilitar a minha vida, dizia que era músico. Embora não me sinta músico. Trabalho com música, é o meu nine to five.

 

Porque é que a música é o nine to five? Normalmente é o depois das nove às cinco.

A minha vida mudou a partir do momento em que comecei a acordar às nove da manhã para estar no estúdio às 10h. A ideia de que os músicos só acordam às três da tarde é verdadeira. Mas o mundo não funciona a partir das três da tarde. Sempre que mandávamos um e-mail, eu e o meu cúmplice, o Branko...

 

(Branko?

O nome dele é Branco. Tem um daqueles nomes compostos. Para dar um swing, ficou Branko.) Estávamos a iniciar-nos nas lides da música. Se mandássemos e-mails de manhã, conseguíamos respostas às três da tarde. Quando mandávamos um email às três da tarde, as decisões passavam para o dia seguinte. Num dia de trabalho nine to five, consegue-se ser produtivo. Para nós era importante sermos produtivos e eficazes. Já nos bastava ser esquisitos [risos].

 

Defina esquisitos.

A nossa música é esquisita.

 

Está a pensar nos Buraka Som Sistema?

Em tudo o que fazemos na [editora] Enchufada, incluindo Buraka. Era extremamente esquisito. Não se fazia na altura. Muito poucas pessoas conheciam aquele género de música. Ouviam os singles e limitavam-se a isso. Pouca gente explorava os álbuns. Nós achávamos que os álbuns eram muito interessantes porque juntavam vários universos musicais, propunham coisas estimulantes. Insistimos muito que a kizomba, até mais que o kuduro, tinham um potencial de exportação.

 

O que é que faz a kizomba mais exportável?

Consegue casar melhor com o formato pop, com o formato canção, que se ouve na rádio a ir para o trabalho. O kuduro é essencialmente música de dança, e assim sendo está reduzida a um nicho. Os nossos discos sempre tiveram alguns apontamentos, algumas aproximações [a outros géneros]. A última aproximação, baptizámos de zuok bass.

O zuok é um primo da kizomba. É um ritmo das Antilhas francesas, é a kizomba que se ouve em Paris. Mas agora mudou-se para Lisboa um gigante do zuok francês, o congolês Kaysha. Lisboa transformou-se na capital da kizomba. Os músicos estão a mudar-se para cá. Nelson Freitas [músico holandês de origem cabo-verdiana] tem casa cá. A [cantora cabo-verdiana] Mayra Andrade está a considerar mudar-se para Lisboa.

 

Estava a dizer que a vossa música era esquisita.

Sim. Tivemos sorte no primeiro hit. O Yah!. Aquela canção conseguiu reunir toda uma comunidade de jovens. Toda uma geração que, não sendo do universo da kizomba, viveu exposta àquilo. De certa forma, reagiam contra, porque o kuduro, a kizomba sempre foi vazio, com pouca substância cultural. E nós, se calhar por estarmos envolvidos com toda essa coisa do Bairro Alto e da cena electrónica, abraçámos a fusão, o trazer a kizomba e o kuduro para o nosso mundo. Houve pessoas que reagiram bem. Logo na primeira semana tivemos enchentes. A seguir, a Red Bull fez uma coisa connosco nos Santos Populares. Depois o Lux chamou-nos. E no Verão, estávamos no Sudoeste. Tudo isto no espaço de seis meses, em 2006.

 

Disse que a música é o seu nine to five. Mas afinal quem é que é?

O Vítor Belanciano foi o primeiro jornalista que me deu tempo de antena. Chamou-me poeta-cantor. Embora nunca tenha editado nenhum livro de poesia. Eu vinha de uma escola de spoken word, fiz dois discos de spoken word em 2003. Esse era o meu métier. O meu sonho é resumir a minha biografia numa frase só, numa palavra, de preferência, duas, que provavelmente estarão, se um dia tiver uma página na Wikipedia...

 

Que são…?

Agitador cultural. É também do Belanciano. É a mais próxima daquilo que eu sou e do que faço. Tento não me levar a sério. Não me levando a sério consigo entrar e sair das caixas em que a sociedade nos coloca. Tanto posso estar com cronistas e com os da kizomba, e trazer tudo isso para as minhas crónicas, para a minha música, como posso estar com artistas plásticos ou com designers de moda.

 

Criou uma marca de roupa, mas falaremos da moda mais tarde. Para já, a relação com o artista plástico Nástio Mosquito.

A minha relação com o Nástio é engraçada. Conheci-o em Luanda. Fui para a primeira Trienal de Luanda, o primeiro evento de arte contemporânea na nossa capital. Tinha que estar, tinha que ver. E toda a gente me dizia: “Existe aqui um jovem igual a ti, com o cabelo em pé, óculos. Tens que conhecer”. Também lhe diziam o mesmo: “Está em Lisboa um gajo igualzinho a ti, diz coisas como tu, fala em cima das músicas”.

 

Quando o conheceu, teve a impressão de se olhar ao espelho? No sentido em que encontrou alguém que estava na mesma sintonia, que tinha um recorte aproximado.

Entendi porque é que as pessoas nos consideravam parecidos, mas estávamos em lugares diferentes. Temos alguns anos de diferença. Eu sabia mais ou menos ao que vinha e o que queria da música. Ele estava a dar os primeiros passos. Nasceu ali uma admiração, que acho que é mútua. Senti que não estava sozinho.

 

É uma coisa muito importante quando se tem essa estranheza.

É muito importante. Sempre disse que é impossível fazer revoluções com um soldado apenas.

 

Quaisquer revoluções?

Exacto. Precisamos de um exército. As revoluções não são feitas por generais. As revoluções são feitas por pessoas que sentem necessidade de mudança. E a mudança tem vários rostos. A minha agenda é diferente da agenda do Nástio, mas elas complementam-se. E aí está a importância de se estar em sintonia e em diálogo com a nossa geração. Com o nosso tempo.

O Nástio tem um sentido de urgência mais apressado que o meu. Desafia, exige de nós. É isso que é importante nas amizades: que nos provoquem.

 

É verdade que as revoluções não se fazem pelos generais. (Generais é uma palavra que tem uma certa conotação, ainda mais quando se fala com um angolano.) Mas precisamos de referências, de mentores. Precisamos de caras que liderem o processo. E aí voltamos a falar de Martin Luther King, Rafael Marques, Rui Tavares, Dries van Noten, Terry Callier. Porque é que aponta estas pessoas, que são agentes da sua revolução pessoal?

O Terry Callier foi a única pessoa a quem pedi um autógrafo. Minto, pedi a uma segunda pessoa, à [poeta-cantora] Ursula Rucker. O Terry Callier é como um herói. A dada altura da sua vida, não sei por que razão, desistiu da música e foi criar a filha. Acho que virou técnico informático. Até ser descoberto pelo Gil Scott Heron, que dizia que toda a gente devia ouvir Terry Callier. Sendo eu estudioso do género spoken word [que é também o de Gil Scott Heron], fui estudar Terry Callier. E tinha razão: toda a gente tem que ouvir Terry Callier. O que Terry Callier me obrigou a fazer foi a reconciliar-me com a minha cultura, com a minha música.

 

Com a cultura negra?

Também. O Terry Callier fez-me voltar a ouvir semba. De repente esbarramos com alguém que nos faz voltar para trás, identificar os pontos, ligar os pontos. O Terry Callier faz-me lembrar Rui Mingas, estranhamente. Aí está o meu segundo cantor favorito, o Rui Mingas. Sou um fã. Não do Mingas político. Ficou conhecido como o embaixador angolano em Portugal. O Mingas músico, o Mingas poeta, tem a mesma importância que um Tom Jobim para os brasileiros. E só tem dois discos.

 

E porquê o Terry Callier e não o Marvin Gaye ou o Stevie Wonder? Se o Terry Callier fosse tão conhecido como o Marvin Gaye ou o Stevie Wonder, gostaria dele da mesma maneira? Estamos a falar do seu interesse pelo que é periférico?

Talvez. Vi o filme Searching for Sugar Man, o documentário que ganhou o Óscar [2012] sobre o Sixto Rodriguez, que gravou dois discos e que desapareceu. Diziam que era tão bom, tão maravilhoso como o Bob Dylan. A profissão dele foi demolir casas, cuidar das filhas da maneira que podia. Uma história incrível. O Terry Callier merecia um filme, uma biografia. O que é que faz um músico desistir? Que mágoa é aquela, e como é que se carrega isso? Quando voltou, estava lá, na sua música, toda aquela dor.

Não sei se era [Fernando] Pessoa ou [Paulo] Leminski [poeta brasileiro] que dizia que admirava as pessoas que carregam uma certa dor, que lhes dá uma certa curvatura de ombros. Torna-nos mais sublimes e mais humanos. Mas também mais deuses. A dor tem essa capacidade.

 

Quem é que personificava, nos seus anos de formação, essa figura simultaneamente curvada pela dor e divina?

O meu avô materno. O meu nome Epalanga é herança do meu avô. Sou Kalaf Epalanga Alfredo Ângelo. Morreu recentemente, com quase 100 anos. Na família ninguém sabe bem a idade dele. A minha bisavó foi registá-lo numa paróquia, o senhor do registo perguntou: “Qual é a idade da criança?”, “Não sei, ele nasceu quando o milho estava dessa altura” [risos].

 

Conte a história do seu avô.

O meu avô decidiu ser padre. Estudou Teologia com os missionários, era a única maneira de se estudar no interior de Angola. Entretanto desistiu. Foi para Catumbela, estudou enfermagem, tornou-se enfermeiro do caminho-de-ferro da Catumbela. Depois, com a revolução, com o início da luta contra o colonialismo, 1961, abraçou o MPLA. Virou político e foi governador de uma vila da Catumbela. Era uma vila super importante, historicamente, que foi promovida a cidade.

Adoptou a doutrina marxista. Nunca mais voltou a pisar uma igreja. Era a pessoa mais honesta que conheci na vida. E todos temos essa referência, na família. Em Angola, uma pessoa ser muito honesta, é mau [risos].

 

Ai é?

Significa que as coisas vão passar por nós e não se vai pegar nada, não se vai ascender na sociedade.

O meu avô queria ser escritor, tinha um diário, que eu herdei.

 

De que é que fala? Dos demónios dentro dele, dos demónios cá fora? De coisas banais?

Da vontade de ser alguém melhor. De conduta. E isto num contexto de guerra. A guerra é terrível, destrói tudo, seca tudo, mesmo que não se esteja na frente de combate. Enquanto vimos essa sociedade a desmoronar-se, a relação humana a desfazer-se, está ali um homem, quase uma ilha, a tentar segurar-se. Essa era a dor dele. Tenho muitas perguntas.

 

Que perguntas é que gostava de lhe fazer?

Como é que conseguiu ser um político num país como aquele. E tentar saber se corrompeu, se foi corrompido, como é que resistiu. Se é que resistiu, não sei.

Depois há a minha avó, mãe da minha mãe, que era uma beata. Ia à igreja todo o dia, de manhã e à tarde. Os dois [avô e avó] eram muito engraçados.

 

Foi educado por eles?

Não, mas eram os pilares. Moravam perto, a 20 quilómetros de onde cresci, que foi em Benguela.

 

Porque é que Epalanga é uma homenagem ao seu avô?

O meu avô, por ser o filho mais velho, por ser muito culto e sensato, sempre foi tido como o soba. O soba é aquela entidade cacique, quase (para usar um termo próximo, via Brasil). Sempre teve essa coisa de conciliar, as pessoas iam pedir-lhe conselhos.

 

Ao perguntar pelo seu avô, estou a perguntar de onde é que vem.

Venho de uma região no sul de Angola, o reino dos Ovimbundos. Tenho uma origem, sou umbundo. O meu avô é do Huambo. O meu pai é da Ganda, já em Benguela mas na fronteira com o Huambo. No sul, nos Ovimbundos, “epalanga” é aquela pessoa que pode ser, ou não, familiar do monarca, mas que, na ausência do monarca, tem as suas funções administrativas. E, mais importante, é um conselheiro. O reino Ovimbundo tinha várias facções. Todas as facções e condados tinham um “epalanga” – um vice-rei. Às vezes, Epalanga virava nome de família. Tenho um primo que também é xará do meu avô.

 

O que é xará?

Aquele que tem o mesmo nome.

 

Como se escreve?

Nunca escrevi essa palavra. Há palavras que às vezes é com X, outras com CH. E às vezes trocamos. Por exemplo, tarrachinha. Nasceu como dança, depois virou género musical. Sub-género da kizomba. É uma dança super, ultra sensual. Os dançarinos não se movem e a mulher tem um movimento no quadril muito lascivo.

 

Todas as danças africanas, sobretudo para um europeu...

... são muito sexuais. Mas falamos de danças de família. Podemos estar num casamento e toda a gente dança daquela forma. Passa pela relação com o corpo.

 

Com que idade, em média, uma pessoa em Angola inicia a vida sexual?

Com 12, 13. Rapazes, essencialmente. Já ouviu falar das catorzinhas? Basicamente é pedofilia. Alguns senhores abastados seduzem adolescentes, de 13, 14 anos, namoram com elas. E isso é “permitido” por todos.

 

É uma coisa que se verifica agora?

Tornou-se um fenómeno, e encontrou-se nome para ele: as catorzinhas. A guerra consegue fazer-nos chegar muito baixo.

 

É uma marca da guerra?

Sem dúvida. Trata-se da miséria que a guerra transporta. Muitas vezes isto acontece nas barbas do pai dessa criança – não é outra coisa senão uma criança. A catorzinha sustenta toda a família. Se se torna namorada de um general, ele vai mimá-la.

 

Estamos a falar, também, de prostituição.

Sim. Eles seduzem essas miúdas. Chegam a ter quatro, cinco namoradas. Têm a esposa, a segunda, que é quase oficial e obrigatório [ter]...

 

A amante principal?

Sim. E têm as namoradas.

 

Disse que a iniciação sexual é cedo. Sobretudo para os rapazes. A transição para a idade adulta faz-se a partir do momento em que se tem uma relação sexual?

Sim. Mas o ritual da circuncisão é também uma passagem.

 

A circuncisão, é com quantos anos?

Varia. Geralmente 12, 13.

 

Aqui, na circuncisão, o menino vai ao médico, o médico faz a circuncisão. Não existe esse rito de passagem. Como é que é lá?

Obviamente não é num contexto urbano, nas cidades vai-se ao médico. Mas se se vive no reino, no interior, a 100 quilómetros, ou 50 da grande cidade, há pessoas que ainda vivem segundo uma tradição, e a circuncisão faz parte. Há uma figura, o xamã ou o curandeiro, alguém que tem essa responsabilidade. Juntam os rapazes, isolam-nos, há uns cânticos, fazem umas danças.

 

O que é que dessa coisa tribal, profunda, aparece na música que faz, na poesia que faz? Ao mesmo tempo, olhamos para si e vemos esta síntese urbana.

Sou totalmente urbano. Mas o meu primo, o Tininho, que foi quem me ensinou a diferenciar o certo do errado, aquela figura com 15 anos mais que eu, ou 20... Fala impecavelmente línguas tradicionais. Se há coisa que lamento é não falar nenhuma língua tradicional. Lembro-me de viajar com ele por Angola: uma bênção. Foi aí que decidi assinar Epalanga e acabar com esse Ângelo para o resto dos meus dias.

 

Houve uma fase em que assinava Kalaf Ângelo.

Encontrei vários epalangas naquela região. Pessoas iguaizinhas a nós, com os mesmos trejeitos, e a falarem outra língua. Sentimo-nos estrangeiros. Entendo, sinto, reconheço, mas está um vidro entre nós. Se existe a coisa tribal em mim é mais por essa ausência, por não conseguir tocar o outro lado.

 

Mesmo não compreendendo o que diziam, havia um reconhecimento mútuo, nos trejeitos.

Sofro dessa coisa terrível que é a saudade do futuro. Estou sempre a ir para a frente. Durante muito tempo, nunca voltei para a terra. Essencialmente sou lisboeta. Agora, a cada regresso a Angola, faço questão de mergulhar em lugares onde nunca pus os pés. Sinto uma religiosidade esquisita. Não é propriamente devota de Jesus Cristo, criador. É tão profundo que não consigo encontrar palavras para dizer exactamente como é que essa espiritualidade está em mim, como é que depois transborda para aquilo que faço.

 

Veio para Lisboa aos 17 anos com o sonho de ser escritor?

Não. Vim com 17 com vontade de pegar um curso muito prático que pudesse aplicar em Angola. No primeiro ano, ano e meio, nem desfiz a mala. A ideia era aprender o que tinha que aprender, voltar e viver a minha vida.

 

Queria fazer o quê?

Gestão. Queria saber como é que as empresas funcionam, queria trabalhar com empresas. Sentia que tinha algum jeito para comércio. Tenho um irmão pintor. Pinta muito bem, talentoso, péssimo a promover-se. Quando éramos miúdos, eu pintava o Bruce Lee, um ícone qualquer do momento, pegava naquilo, ia ao mercado e vendia o quadro. Não demorava lá muito tempo. Depois voltava e tínhamos dinheiro para o gelado, o cinema.

 

Viveram em que condições materiais? Sempre com a noção da privação?

O país estava em guerra e a guerra tem uma omnipresença. Meio que ali a pairar, nunca próxima. Só vi o que era uma cidade a ser atacada e bombardeada em 1992, com as eleições e o retomar da guerra civil. O meu primo Tininho foi militar, foi para a Rússia estudar no curso das forças armadas. Ao mesmo tempo tentava-se viver, ser feliz. Andar de bicicleta, namorar, ouvir música.

 

Os seus pais falavam muito de política, da guerra?

Aí está uma coisa engraçada do meu avô: sempre nos aconselhou, quase de forma violenta, a não nos metermos em política. Mais nenhum membro da nossa família é político. Na nossa família, política não era uma carreira [expectável]. Mas todos têm esse sentido de servir o próximo, é uma família de funcionários públicos.

 

O seu pai é médico.

Sim. A minha mãe trabalhava no Ministério do Trabalho (uma espécie de Segurança Social). Éramos classe média, não uma classe média alta, embora tivéssemos um avô político. Infelizmente o senhor era muito honesto [risos].

 

Volto a lembrar-me do que disse num tom meio irónico: em Angola não se pode ser muito honesto senão não se apanha nada. Pode-se ser meio honesto?

Sim.

 

Está a dizer que é preciso saber escapar entre os pingos da chuva?

Na contracapa do livro O Angolano que Comprou Lisboa (por Metade do Preço), tem uma frase: “Pior que não ter dinheiro, é não ter esquema para remediar a situação”. O esquema: é preciso arte. É preciso ter ginga. Os muito honestos não têm ginga nenhuma e sofrem com isso.

 

O Rafael Marques não tem ginga?

O Rafael tem ginga. Não sei se o Rafael Marques vive confortavelmente. O dinheiro não nos define. Sou a prova disso. Fui educado para trabalhar e ter um salário e pagar contas. Não tenho nada a que possa chamar meu, gasto tudo. Gasto em viagens, é o meu vício. Há, [num plano] inconsciente, essa ideia de servir uma causa maior, de servir algo mais importante. Mas é preciso ginga para viver numa sociedade como aquela. Quando digo ginga não é os esquemas, [num sentido] pejorativo. É uma questão de vida ou de morte. Não há outra forma de sobreviver numa situação tão extrema – tem que se saber virar, mesmo.

 

Ter ginga é sabermos virar-nos.

Sabermos desenvencilhar-nos. Imagine o que é estar numa sociedade onde uma aspirina custa mais do que uma cerveja. É uma sociedade que está constantemente a pôr-nos à prova. É impossível relaxar. É impossível tirar o pé do acelerador. Nem os que estão bem conseguem fazer isso. É uma sociedade que já tem alguns anos de paz mais que ainda não se conseguiu livrar desse fardo.

 

O que vemos são marcas do passado recente?

Na sociedade angolana, hoje, estamos a sofrer as sequelas desses mais de 30 anos de guerra civil. Não houve transição nenhuma, do colonialismo passou-se para a guerra civil. Pela primeira vez as pessoas estão a respirar, a respirar num pós-guerra que é também traumatizante. O mundo à nossa volta não ficou à nossa espera. O mundo não disse: “Reconstruam-se, invistam em cultura, em educação, em saúde, que ficamos aqui à espera”. Não, o mundo chegou lá, e disse: “Queremos petróleo, vamos negociar”.

Não fizemos uma auto-reflexão, não houve uma terapia social de como voltar a construir os pilares da sociedade. Como encarar a questão das catorzinhas, por exemplo. (Quem fosse apanhado, devia ir para a cadeia, ponto!) O que é que as pessoas fazem? Calam-se, anulam-se, escondem-se, curvam-se. Essa questão do Rafael Marques, da liberdade de imprensa, todas as fobias que os nossos dirigentes têm em relação à opinião, o direito à manifestação: tudo isso é herança. Há dez ou 15 anos, resolvia-se isto à bala.

 

De repente, o Dries van Noten, designer belga, parece uma coisa completamente diferente desta de que temos vindo a falar. De todas as coisas de que temos vindo a falar.

Não é. Na essência, é um artista. Acontece que usa o vestuário como tela. Ele é jardineiro. A minha mãe e as minhas tias têm uma relação com flores muito íntima, muito próxima. Há certas flores que dão na mão de uma e não dão na mão de outra. É muito esquisito, mas é verdade.

Quando observo o Dries, há sempre algo mais. É das pessoas mais misteriosas que conheço no mundo do design. O Margiela também é misterioso. Também belga. O Dries tem uma humanidade que só os jardineiros conseguem. Faz-nos reparar em detalhes que não vimos. Até ver os jardins e as flores do Dries, nunca me tinha perguntado porque é que as rosas funcionam com a minha tia Carmo e não funcionam com a minha mãe. E porque é que os lírios funcionam com a minha tia Bia e não funcionam com a tia Carmo.

 

Qual é a sua flor?

Não tenho, vivo em constante movimento. Não posso ter nada em casa.

 

Qual é aquela que gosta de contemplar?

Não sei se se chama assim. Em Angola chamava-se rosa de porcelana. [mostra no Google] É esta. Conhece?

 

 

 Publicado originalmente no Público em 2015

 

No domingo fui às Antas

16.02.25

Porque é que o futebol é o que é? Elementar. Porque é bom ganhar. Porque os outros corporizam o mal. Os onze que correm por nós não são o que são mas o que a nossa imaginação quer que sejam. Os apóstolos eram doze. Com o nosso sagrado coração, a conta faz-se: passamos a ser doze.

No domingo fui às Antas.

14.55 h. Carros já estacionados em cima da relva do separador. Mulheres gordas a venderem bandeirinhas e cachecóis. Uma mãe desvia com um safanão a miúda do calipo. Filas extensíssimas para as diversas entradas. Hão-de ser cinquenta mil. Conjuga-se o verbo palmar (se é que me entendem). 

Chegam os primeiros onze ao relvado. Assobios de estridência relativa por serem vizinhos da mesma cidade. Com os mouros já imagino gente esmigalhada, "Ides levar poucas", faces coléricas, "Meu este, meu aquele".

Chegam os nossos. "Porto, Porto, Porto és a nossa glória". Autocarro de vidros fumados. Eles a verem-nos de cima e a sentirem o que nunca vou poder saber. Talvez sintam medo de falhar.

Um rapaz chamado Paulo apoia-se na grade, chama-os pelo nome e faz-lhes um Fixe (de polegar). Nessa noite, há-de contar ao pai como ludibriou um responsável qualquer e chegou sozinho até à última barreira que o separava dos seus heróis.   

Entrei nas Antas, onde nunca tinha estado, pelas traseiras, atravessei não muitos corredores, bebi café e água à borla na sala de imprensa. Finalmente, o estádio. O campo onde vinte e dois marmanjos vão correr atrás de uma bola. A bola é redonda. O campo é um rectângulo verde. Deduções sofisticadas ensinadas nos táxis e nos cafés que cheiram a fritos. O povo instalado na bancada, um ver se te avias, cinquenta mil de povo feliz. A felicidade pode justificar tudo. Todos os Filhos Da, todas as Filhas Da, toda a animalidade expulsa com êxtase. A felicidade é uma coisa difícil e viver cansa mesmo muito.

Ainda no corredor vi passar uma anafada senhora com voltinhas de pérolas azuis e brancas enroladas ao pescoço. Cruza-se com ela um senhor que diz com um suspiro: "Vou pôr a coisinha a chorar". Juro.

A fórmula clássica, usada no Porto, substitui "a coisinha" por "a malandra". Fica então: "Vou pôr a malandra a chorar". É um eufemismo para o acto prosaico do xixi, ou pipi, como se ensina às crianças.

Ocorrem-me os cinquenta mil que estão na bancada e a quase impossibilidade de se dedicarem a actos prosaicos.

De qualquer forma, está a chover.

16.10h. Na sala arregalam os olhos às Spice portuguesas, as Tentações. A diabolização da mulher é mais antiga que o futebol. Imagino os homens feios que se babam com elas. Seguem pelo corredor a desejar "Merde, merde" umas às outras. Hão-de voltar no final. Também lá estavam o Emanuel (o do Pimba, pimba) e o Iran Costa que fazia uns trejeitos indescritíveis com uma cabeleira platinada (o Iran é o do "Bicho, crocodilo eu sou").

Cinco minutos depois é distribuída a constituição das equipas. Volto à bancada. Ainda não estavam os cinquenta mil.

Um corredor é ocupado por deficientes motores que nestas alturas são chamados de aleijadinhos. As carripanas estão enfileiradas junto ao arame farpado. Um deles, um senhor, olha para mim e diz-me: "Vá por cima, menina, que aqui escorrega muito." Engoli a comoção e levantei também os braços para fazer a onda.

Passou o homem das "Batatas a duzentos, Chocolates a duzentos e cinquenta [escudos]". Agarrou-se ao arame e, abanando-o, gritou: "Porto, Porto, Porto".

Dez para as cinco. O povo levanta-se para aplaudir o Pintinho. No anedotário das Antas, a única brincadeira consentida é entre Penta da Costa e Pinto da Costa.

No mesmo camarote estava o ministro Sócrates, o autarca Gomes e uns tantos conhecidos da política e do futebol. Metros adiante identifiquei pelo Boavista o Major Valentim. Não muito longe, deveriam estar as mulheres dos jogadores, que não cheguei a encontrar. Reconheci o Madjer, um argelino que há dez anos marcou um golo de calcanhar e agora assiste, gordo, a um mundo que já não é seu.

O primeiro remate à baliza do Boavista é frouxo. Sustêm-se os primeiros ah’s! e ganha-se fôlego para, em uníssono, chamar o que muito bem imaginam ao guarda-redes. Filho Da. Está ao meu lado uma figura que me elucida: o desejável é que deixe entrar a bola; como fez pela vida e impediu o gooolo, merece ser castigado. Vai daí, tem o estádio inteiro a insultar-lhe a mãe.

Anotei canções para a próxima visita: "Quem não salta é lampião, Quem bate palmas é tripeiro", "Pinto da Costa Olé Olé", "E o Benfica vai pró caralho". Timidamente também se ouvia o já clássico "Eu só quero ver Lisboa a arder".

O presidente, o Pinto, assiste impassível. Nem uma só vez lhe vi os braços no ar.

No primeiro golo, a menina ao meu lado levantou-se toda, com a cintura apertada e a anquinha a dar a dar.

No dia seguinte, perguntava-me uma amiga: "E tu não te empolgaste?, um estádio assim cheio tem uma força do caraças". Lembro-me de ter pensado que o futebol, como a religião, como a pátria, como o amor, alimenta-se dessa entrega abnegada, dessa fé inquestionável, dessa perpétua comunhão. Que eu saiba, a crença não é um processo racionalizável.

Fim. Apenas do jogo. Não da festa. 

Quando estava já a desfalecer de fome e cansaço, segui a procissão, espalhafatosa e profana. Comiam-se bifanas e rodopiavam latas de cerveja. Retinha a expressão dos jogadores na voltinha pelo campo, os cachecóis esticados na bancada que faziam parte do sonho.

Do outro lado da rua um homem grita para o amigo e exibe a dentuça de felicidade agitando o guarda-chuva: "Eh, ó filho da puta". Intimamente disse-lhe: "Ganhámos".

 

 

Publicado originalmente no DNa do Diário de Notícias em 1998

                  

 

Dolores Aveiro

16.02.25

Dolores Aveiro é a mãe de Cristiano Ronaldo, como toda a gente sabe. Tem uma história de pessoa humilíssima que sonhou o sonho de ser feliz. O discurso oscila entre o pungente e o cru. De uma violência de que parece não se dar conta ou, simplesmente, com que aprendeu a viver. E depois aconteceu um sonho.

Podemos chamar-lhe apenas D. Dolores? As coisas simples vão bem com ela.

Em resumo, foi esta a sequência: D. Dolores chega a casa, passa um iogurte grego e uma gelatina ao neto. Não tira os saltos de uns dez centímetros, apesar de ser fim da tarde e do cansaço. Pergunta: “Vai ser longa, a história? Por causa da garganta. E quero ver o jogo”. Não viu o jogo. O Real Madrid ganhou por quatro a zero, Ronaldo não marcou mas assistiu dois golos. A história, a entrevista foi longa. Estava quase sem voz. Continuou com a voz abafada quando terminámos, hora e meia depois.

Não parece ter 60 anos. A pele é bonita, lisa. Não exibe os sulcos de uma vida pobre e triste. Nem se apagou um sorriso e uma candura que pareceriam impossíveis (atendendo ao tanto por que passou, o orfanato, os maus tratos, a carestia). Há nela, quando fala do gosto de lavar o quintal, de mangueira, descalça, uma espécie de milagre. Como uma criança que chapinha na água e que não conhece maior prazer. A água da sua mangueira, o seu quintal. Qualquer coisa que é sua depois de uma vida espoliada.

Espoliar: tirar ilegitimamente.

Foi espoliada pela vida (passe o tom melodramático da frase). Então lutou, quase desistiu, lutou. O seu testemunho é um retrato do que a pobreza faz. Do que é sobreviver a partir do chão. Há nele uma humanidade que comove e que se sobrepõe ao grito, à urgência, ao rude.

No final da entrevista prestou-se às fotografias. Foi uma moça divertida com este papel. Uma vez ou outra brincou com o neto. “Como é que o pai faz quando marca um golo?” E o menino de quatro anos desliza pelo chão, de joelhos, como o pai, o melhor jogador do mundo, desliza pelo relvado, e culminam, um e outro, a celebração com um gesto de braço e punho erguido. Cristiano também imitou a pose do pai, aquela pose de gladiador, que antecede a marcação de um livre. Pernas abertas, cara furiosa, a arfar. A avó delirava. Este menino e o pai deste menino são os seus meninos d’oiro.

Não falámos de Messi nem de rivalidades. Não falámos dos outros filhos (além de pequenas referências). A entrevista foi combinada com as editoras da Matéria Prima, que lançou o livro Mãe Coragem, escrito por Paulo Sousa Costa. Foi com uma delas que chegou a casa, e seguiu directa para a cozinha e o iogurte e a gelatina. A outra estava lá, à espera. Vinham de um evento, fora de Lisboa. Tinha chorado um pouco e os olhos estavam esborratados. Não chorou nunca na entrevista.

No Facebook, onde é seguido por mais de cem milhões de pessoas (é mesmo isso, cem milhões de pessoas) Ronaldo escreveu, ao lado dela, erguendo o livro: “A minha mãe é, sem qualquer dúvida, uma mãe coragem. Sinto-me muito grato e orgulhoso por ser filho dela e tê-la na minha vida”.

Eis aqui a D. Dolores, esta terça-feira [de Dezembro de 2014, pouco antes do Natal].

 

Comecemos por uma recordação da infância do Ronaldo. Uma brincadeira consigo. Uma história. O que é que lhe ocorre?

[muito prontamente] Quando ele era pequenino, eu chorava muito pela vida que levava. Ele dormia na minha cama. Dizia: “A mãe que não chore. Quando for grande, vou ganhar bastante dinheiro. Vou comprar uma casa e tirar a mãe do trabalho”. E foi verdade.

 

Quantos anos tinha quando dizia isso?

Uns cinco, seis anos. Foi uma coisa que me marcou para sempre.

 

Já dizia que ia ser um grande futebolista?

“O que é que queres ser quando fores grande?” “Quero jogar à bola.” Mas nunca julguei que chegasse ao patamar a que chegou. Com o passar do tempo é que vi que o meu filho tinha dom para o futebol. Vi que ia dar alguém. Às vezes penso que é um sonho.

 

E ele, imaginava que ia chegar onde está?

Não, não. Diz que se eu não o deixasse vir para cá [Lisboa] não dava jogador. Trabalhava na construção civil ou aprendia uma arte. Como o irmão mais velho. O irmão trabalhava em alumínio. Fazer janelas, portas.

Dizia que ia jogar à bola, ganhar muito dinheiro e ajudar a mãe. Mas nunca lhe passou pela cabeça. Dizia por dizer.

 

O que quero saber: ele sempre acreditou? Vemos hoje que tem, como dizia o meu colega fotógrafo, Nuno Ferreira Santos, “um querer gigante”. Todo ele é força de vontade...

E trabalha muito. Quando veio aos 12 anos, passou por muito. A maneira de ele falar: gozavam.

 

Este sotaque que tem era o que ele tinha?

Sim, e talvez pior, como criança. Ele telefonava-me de uma cabine. Falava e chorava. “Mãe, vou desistir.” “Filho, se é disso que gostas, luta. Luta, que a mãe não te vai cortar [as pernas].” Ele foi percebendo aquilo que ele era. Havia um treinador que era da Madeira e comunicava-me: “O Ronaldo é um grande jogador. Tem vontade. Acaba o treino e vai outra vez para o ginásio. Criar músculo.” Quando ia à Madeira, de férias, pegava em baldes cheios de pedra para fazer musculação. Punha meias grossas cheias de pedra que amarrava contra as pernas [aponta para barriga da perna].

 

É uma mistura de talento, vontade e trabalho?

São essas três coisas. Ele é uma pessoa que quer sempre mais. Trabalha para mostrar sempre mais.

 

Para mostrar a quem?

A todo o mundo. A ele próprio. A pensar: “Sou capaz, vou fazer”.

 

Nunca duvida?

Não. Ele mete na cabeça que é capaz e consegue.

 

Quando é que foi inseguro?

No princípio, quando chegou aqui. Para se adaptar. Na escola. Eu dizia-lhe: “A mãe vai aí no fim de semana, vais ficar bem”. “Venha, venha ver o jogo.” Vinha. Ficava comigo à noite. Já ficava calmo. A vontade de querer vencer, mesmo: foi a partir dos 15, 16 anos.

 

Já foi duas vezes o melhor do mundo e agora está numa de bater records. Ser o melhor marcador... Fala desses objectivos?

Fala. Comigo, com os irmãos. O ano passado disse assim: “Bem, marquei 31 golos. Tenho esperança de receber a bota [de ouro]. Para o ano, a ver se consigo marcar mais.” A prova disso: ainda não está a meia volta dada e já tem 25 golos.

 

Sempre tiveram uma relação assim íntima? Para ele sempre foi fundamental tê-la por perto?

Sim. Um rapaz assim que tenha ao lado um bom pilar, ajuda muito. É um homem feito, hoje. Tem os pés assentes na terra. Mas gosta que esteja ao lado dele.

 

Porque é que acha que ele nunca se deslumbrou?

Porque dá valor aquilo por que passou. Foi uma criança que viu os outros ter coisas melhores do que as dele. Sabia que tinha consoante aquilo que eu podia dar. Tanto que disse: “Mãe, vou ser pai. Quero que a mãe dê uma educação ao meu filho como aquela que me deu a mim”.

 

Quando é que ele soube do tanto que a senhora passou na sua infância?

Sempre contei. Os meus quatro filhos e eu, à noite, quando se estava na cama, cantava para eles. Cantava músicas tristes. “Menina que estás fazendo, sentada no cemitério, sozinha...” Essas coisas assim. O Ronaldo sabia que eu tinha madrasta. Tratava-a por mãe, mas ele sabia que não era a minha mãe verdadeira. Nunca escondi nada dos meus filhos.

 

Dê-me um momento da sua infância com a sua mãe, feliz. Ela morreu quando tinha cinco anos.

Era bordadeira. Bordava com vizinhas, muitas senhoras. As toalhas eram muito grandes. Cada uma bordava numa ponta. Sentia-me feliz quando a minha mãe bordava e me punha no meio das pernas dela. Elas a cantar e a bordar. A minha mãe não tinha tempo de dar colo. Trabalhava muito para sustentar os filhos. O meu pai nunca foi um pai... São coisas da vida.

 

Sendo diferente, acabou por acontecer o mesmo consigo. Era a D. Dolores que levava o barco, que ganhava.

Pois. O meu marido não ganhava muito. Além de que, o pouco que ganhava, bebia. O ir para o Ultramar..., ficou revoltado. Tínhamos uma filha com um ano. Depois fiquei logo grávida do meu filho. Foi quando ele foi. Depois do 25 de Abril, quando a gente pensava que já não ia mais tropa. Para Angola. Treze meses. Foi o suficiente.

 

Era um homem que falava ou que metia para dentro?

Falava. Quando estava lá, escrevia-se telegramas. Chegou a escrever muita tristeza nos telegramas. “Dolores, fui a tal sítio.” Era primeiro cabo. “Fui buscar uma coisa e estava embrulhada a cabeça de uma pessoa.”

 

Conta no livro “Mãe Coragem” que sempre foi um bom pai.

Nunca foi de maltratar os filhos. Eu é que batia nos meus filhos. Quem dá o pão dá o ensino. Era assim: eles faziam qualquer asneira e eu castigava-os. Como trabalhava muito, sentia-me revoltada e batia.

 

Como é que lhes batia se tinha apanhado na infância?

Se tivessem de levar uma estalada na cara, levavam. Não era assim como eu levei, pancadas. Não tem comparação. Às vezes calhava tirar o cinto. Cheguei a dar, cheguei. Eu achava que se desse com o cinto, eles melhoravam, [aprendiam]. Para eles, os castigos eram piores do que o bater.

 

Que castigos?

Fechados dentro do quarto. A fazer os trabalhos da escola. Se o Ronaldo quisesse jogar a bola com os amigos do bairro, não deixava.

Quando lhes batia, acabava por me arrepender. “Credo! Levei tanta porrada, porque é que vou bater nos meus filhos?”

 

Levou sobretudo da sua madrasta. E no orfanato, das freiras?

Pelas freiras, nunca fui maltratada. Eram castigos. Davam com urtigas no rabo quando fazia xixi.

 

([Entra o neto Cristiano]

A avó está a falar com a senhora. Não pode brincar contigo. Vai lá para dentro.)

 

Os castigos: limpar os quintais. No ditado, se passava de cinco erros andava com o caderno pendurado nas costas toda a tarde. Para os outros colegas verem os erros. Ia-se à missa todos os dias, à tarde. Dava-me o sono. Na sala do convívio das crianças, punham-me num cantinho, com um saco de papel na cabeça. Como quem diz: “Dormiste na igreja, agora dorme aí nesse canto”.

 

Foi recentemente visitar o orfanato, com o seu neto. Como é que foi?

Gostei! Lembrou-me. Além de eu ser castigada, matei as saudades. Muita coisa mudou. O quarto de dormir existia. Era para vinte e tal. Agora só tem seis camas. A minha cama ficava ao pé da janela. Coisas felizes? Quando chegava a Páscoa, tínhamos uns saquinhos de amêndoas. Torrões de açúcar. O convívio. Quando chegava o domingo e não tinha visitas, as minhas amigas tinham, e dividiam aquilo que recebiam. Comigo e com a minha irmã.

 

O menino consegue perceber o que foi a sua infância?

Não. Com quatro anos, ainda não dá para explicar. Faz cinco em Junho do próximo ano.

 

No fundo, era pouco mais velha do que ele quando foi internada no orfanato.

A minha mãe morreu a 13 de Dezembro e fiz seis a 31 de Dezembro. Olho para ele e penso muito. Nos netos todos. Vou partir um dia. Quero vê-los grandes [para ter a certeza de] que não passam aquilo por que passei. Que ficam bem.

Mas, com a idade do Cristiano, lembro-me da minha mãe. Por exemplo, a minha mãe foi uma mulher que casou aos 16 anos. Ficou viúva duas vezes. O [primeiro] marido era pescador e morreu no mar. Casou segunda vez. O marido morreu no mar, também. Eu era criança e ouvia-os a falar. A minha mãe tinha cara de sofredora. A força que eu sinto, a mulher que hoje sou, tem a ver com a minha mãe.

 

Explique melhor isso.

A minha mãe foi para o hospital com o seu juízo. Morreu com a dor de deixar cinco filhos menores. Acho que pediu pela gente. Como eu era a mais velhinha, talvez tenha transmitido a força dela para mim. Ela apareceu-me. Dizia-me: “Olha sempre pelos teus irmãos.” Foi o que fiz.

 

Conte do momento em que ouviu a voz dela.

Foi no orfanato. Ouvi uma voz à distância. As freiras, no princípio, não acreditaram. No fim acreditaram. Quando fui para casa do meu pai é que passei a vê-la. Aquela voz: quanto mais me aproximava mais a ouvia falar. Era um eco.

 

Via-a como?

Na casa do meu pai não existia água canalizada. Íamos à fonte. Vi um vulto ao longe. Aproximava-se. De blusa branca e xaile escuro. O cabelo muito apanhado. A minha mãe usava assim. Dizia ao meu irmão: “Não estás a ver? É a mãe!”. E ele: “Que nada!” Ele não via. Mas acreditava pelo espanto que eu fazia. Em casa dizia ao meu pai. O meu pai batia-me. Um dia comentou: “A miúda, para estar sempre a dizer aquilo, é porque vê alguma coisa”. Falou com o padre. O padre disse que podia ser verdade. Para eu dizer: “Mãe, põe-te a sete léguas de distância, diz-me o queres e não me metas medo”. A minha mãe disse-me assim: “Diz ao teu pai para ir a Machico pagar um litro de azeite à Senhora dos Milagres. A mãe pediu, morreu e não pagou [a promessa]”. Fomos a Machico na altura da festa. O meu pai pagou. E dessa altura para cá nunca mais vi a minha mãe.

 

A sua mãe morreu aos 37 anos com um ataque de coração.

Deu-lhe uma dor e ficou muito negra. Levaram-na para o hospital. Morávamos no Caniçal. Chegar ao Funchal demorava muito tempo. Morreu três ou quatro dias depois de estar internada. Eu estava no quintal da minha avó a brincar. Uma vizinha disse assim: “A tua Matilde já lá foi”. Percebi o que tinha sido. O meu pai nunca foi um homem responsável pela vida. O padre da freguesia quis levar-nos para o orfanato. O meu pai: “Fico com o mais velho. Os outros quatro, o senhor padre faça o favor de os internar”. Comigo ficou a Laurentina. A Florentina e o Jorge ficaram noutro orfanato por causa da idade.

 

Nunca pensou desistir?

De?

 

Da vida.

Pensei. Passou-me pela cabeça dar fim à vida. Depois de ser mãe. Também quando vivia com a minha madrasta e ela me deu uma sova de fio de luz [com o fio eléctrico]. Pôs-me com o corpo todo cortado. Tive uma infância triste. Casei aos 18 e pensei que ia ter uma vida feliz. Depois não foi. Tinha uma filha, ia ter o segundo filho... Depois pensei: “Não. Não pedi para vir ao mundo, também não vou pedir para morrer”. Vou lutar enquanto puder.

 

A maior parte da sua vida foi de muito sofrimento.

É verdade. Só depois de o Ronaldo ir para Manchester é que a nossa vida mudou.

 

Antes de Manchester. Conte do tempo em que veio viver para Lisboa, para tomar conta ele.

Ele tinha 16 anos. Eu tinha 46. “Mãe, vou para a equipa A, a equipa principal. Vou ganhar mais qualquer coisa. Vai dar para orientar a nossa vida aqui e na Madeira”. Vivíamos numa casa da Câmara. “A mãe passa-me a ferro. Já não fico no Sporting. Tenho aquela coisa de ter ao meu lado a mãe.” Vim para este apartamento. Ele ia treinar. Vinha e tinha o almoço feito. Eu ia ao [centro comercial] Vasco da Gama às compras. O meu passatempo: bordava. Não foi fácil deixar o meu trabalho e pôr-me aqui, onde não conhecia ninguém.

 

A comida que fazia, almoço e jantar, era a sua comida ou tinha de ser de acordo com as indicações do clube?

Não, era a minha comida. O clube nunca disse o que é que ele devia ou não devia comer. Sempre tive boas mãos para cozinhar. O Ronaldo gosta de um bacalhau à Brás, cozido à portuguesa, feijoada à minha maneira.

 

Ainda continua a cozinhar?

Sim. Em Madrid, quem faz o meu comer sou eu. Vivo numa casa separada da do Ronaldo. Quando faço uma coisa diferente, vem à minha casa. “Filho, a mãe vai fazer bacalhau. Apetece-te?” “Faça, mãe. Faça que tenho saudades.” Ele agora tem mais cuidado com a alimentação e nem sempre come o que faço. É um atleta de alta competição.

 

E uma coisa é ter 18 anos, outra é ter 28.

Faz 30 para Fevereiro. Ele agora tem os empregados, que fazem [as refeições]. Cheguei a viver na casa dele. Em Manchester vivi com ele. Nunca tive empregados.

 

Naqueles anos, já de milhões, não tinha ninguém que a ajudasse?

Não! Não porque eu tinha que ocupar o tempo. Não sabia falar inglês, não conhecia ninguém. Sentia-me bem a fazer a minha vida. A empregada da casa era eu.

 

E hoje?

Tenho uma empregada que faz tudo em casa, mas o comer, eu faço. O meu comer é sagrado. Eles fazem o comer típico de Espanha. Eu faço à portuguesa. E faço a sopa para o meu neto como fazia para o Ronaldo. Uma massinha, um arroz.

 

Já viu a felicidade de ter um neto que é um filho, com esta idade...

É uma alegria. Não está o tempo todo comigo. Vai para a escola de manhã. Sai às quatro da tarde. Está um pedaço com o pai. Está um pedaço comigo. O Ronaldo está muito tempo ausente. E então fica comigo. Ele sente a minha falta. Quando vou à Madeira dois ou três dias noto o menino triste. Falamos ao telefone: “Anda. Senão não és mais a minha avó”. Magoa-me muito.

 

Ele às vezes chama-lhe mãe?

Não. Mas diz assim: “A minha mãe está no céu. E tu és a minha mãe. Podes ser minha mãe e avó”. Digo que sim.

 

A que é que ele gosta de brincar consigo?

À bola. Para fazer a vontade ao meu neto, vou dando uns pontapés na bola.

 

E com o Ronaldo, jogava?

Jogava.

 

Como é que lhes chama?

O neto é Cristiano, o filho é Ronaldo.

 

Cristiano ou Cristianinho?

Cristiano.

 

São os dois muito parecidos consigo.

Acha?

 

Acho. Sobretudo a boca.

Digo ao Ronaldo: “Estás dentro do campo. A cara que fazes lembra-me a minha cara”. Ele responde: “A senhora queria, mas não sou parecido consigo!” “Mas és parecido com a mãe...”

 

Gosta que ele seja parecido... Que cara faz dentro do campo que é parecida com a sua?

Quando marca o golo e faz aqueles gestos. Ou aquela cara carrancuda. Ou aquela cara de mau. Lembra-me de quando eu era jovem.

 

Mudaram-se para Manchester em 2003. Em dez anos, a vida deu uma volta.

Quando foi para Manchester, começou a ganhar bem. Com o primeiro ordenado que recebeu mandou-me escolher uma casa. Para comprar a casa à mãe, como tinha prometido. Não foi escolhida por mim, foram as minhas filhas que andaram vendo.

 

O que é que quis que a casa tivesse? Espaço?, uma vista bonita?

Tenho uma boa vista, mas não pensei nisso. Pensei num bom conforto. O conforto era ter casas de banho com chuveiro, que não tinha. Na casa onde vivia era preciso aquecer a água no fogão e tomar banho numa banheira. Sonhava ter uma casa de banho e tomar banho de chuveiro. Ter uma banheira. Um quarto de dormir grande. Ter uma cozinha grande. Adoro cozinhas grandes! Uma cozinha com azulejos. Ter a coisa de limpar os azulejos. A brilhar. O conforto vale muito.

 

A sua cara muda quando fala disso. Ilumina-se.

Ter aquele quintal que posso lavar de mangueira, descalça. Sentia um prazer enorme ao lavar o meu quintal. São coisas que não esquecem. A primeira casa que o Ronaldo comprou: a minha filha mais velha é que vive lá. Chego e se for preciso ligo a mangueira e lavo o quintal. No Natal, no Verão. Agora é raro. Mas no princípio fazia isso. Matava as saudades.

 

Já está habituada a esta vida de conforto em que o dinheiro não é um problema?

Claro que agora já posso ir jantar. Em jovem nunca ia jantar. Trabalhava na cozinha do hotel mas nunca tinha ido a um restaurante. Vou à Madeira e ligo a uma amiga: “Queres ir jantar comigo? Vai-se à espetada”. Pago de bom agrado. Posso. Se tiver de fazer bem, faço. Porque posso. Mas penso no dia de amanhã. Não sou mulher que abre a mão e derrete tudo. Podia comprar uma bolsa cara, e não faço isso.

 

Esta sua bolsa cara (a Birkin da Hermès), que está sobre o balcão o cozinha, quem é que a comprou?

Foi o meu filho. Tenho coisas de marca. Que eu compre?, não compro. Não tenho coragem. O Ronaldo amanhã vai fazer a vida dele. Penso que ele não muda, mas às vezes uma mulher muda um homem. Poupo. Não se sabe o dia de amanhã. O meu filho não me deixa faltar nada. Nada mesmo. Se me der mil euros, gasto 500 e guardo 500. Vai para o escuro! Está guardado no escuro, ninguém vê! [riso] De hoje para amanhã vou partir e tenho os meus netos para ficar [com o que poupei]. Têm alguma coisa para a universidade deles... Penso nisto. Ele diz: “Devia gastar mais. Gozar”. “Mas a mãe é assim.” A boca leva tudo.

 

“A boca leva tudo”?

Quer dizer: há pessoas que ganham cem e gastam 110. Eu vou ao supermercado e escolho as coisas mais baratas.

 

Compara preços para poupar dez cêntimos aqui, 30 acolá?

Faço isso. É a minha maneira de ser.

 

Pensei que procurasse os produtos de que gosta, independentemente do custo.

Antigamente dava aos meus filhos iogurtes naturais. Nem tinham sabor nenhum. Hoje não faço isso. Vou ao supermercado e compro aos meus netos iogurtes com aromas bons. Um bife: compro carne melhor do que antigamente. Mas o que puder poupar, poupo.

 

Ficou uma marca muito grande da fome e da pobreza.

Pois. E acontecendo alguma coisa – oxalá que não! [bate no sofá três vezes] – tenho ali o que poupei. E se acontecesse alguma coisa ao meu filho, ia buscar tudo o que poupei e dava-lhe. Tudo o que tenho ali foi ele que me deu. Digo aos meus filhos: “Está escondido em tal parte. Se acontecer alguma coisa à mãe, dividam por todos”. O Ronaldo oferece-me jóias de muito valor. Digo às minhas filhas: “Já têm a vida organizada. Se eu morrer, dêem aos vossos filhos. Não é para vocês!”. Já tenho tudo destinado.

 

Porque é que fala tanto da morte? Está a dias de fazer 60 anos.

Eu estava com aquela coisa que aos 37 morria. Ultrapassei. Faço 60. Agora vive-se um dia de cada vez.

 

Já lutou contra um cancro da mama. Teve muito medo de morrer?

Tive. Já era uma mulher feliz. Foi em Inglaterra que o descobri, fui operada na Madeira e vim fazer o tratamento ao Porto. “Meu Deus, tenho tudo agora. Será que Nosso Senhor se vai lembrar de mim e vou embora?”

 

Era muito injusto.

Pois era. Mas graças a Deus estou aqui. O Ronaldo diz que aguento até aos 90!

 

O que é que hoje lhe dá mais felicidade?

Os netos. Os filhos, bem ou mal, criei-os.

 

Acha que criou bem ou mal?

Criei bem. Porque lutei pelos meus filhos. Trabalhava as minhas horas de trabalho, chegava a casa e ainda ia a casa dos vizinhos passar a ferro, lavar quintais. Não era dinheiro o que me davam. Eram restos de comer deles. Sobras. Um quarto de quilo de massa. Duas ou três batatas. Umas cenouras. Para mim, tinha valor. Lutei para que nunca faltasse nada aos meus filhos. E para que eles nunca tirassem nada a ninguém. Os meus filhos às vezes iam para as fazendas roubar fruta. Também cheguei a fazer isso. Mas chamava-lhes a atenção [voz ríspida]: “O teu pai não tem fazenda!” Considerava um roubo ir a casa de uma pessoa roubar fruta.  

 

Está a dizer que se esforçou pelos seus filhos e lhes deu valores.

Sim. A coisa que eu mais queria era que estudassem. Essa era a herança que eu podia deixar – eles terem estudos. Qualquer um deles andou até ao nono ano. Não quiseram mais. Os dois mais velhos quiseram trabalhar porque eu não tinha televisão. Queriam ter melhor vida e ajudar-me a comprar coisas melhores para casa. Por isso considero-me uma mãe de coragem de lutadora.

 

O Ronaldo ainda passou por essas dificuldades?

Não passou tanto. Quando nasceu, as coisas já estavam melhor.

 

O seu pai e a sua madrasta ainda são vivos. Emigraram para a Austrália. Os seus filhos, o Ronaldo, perdoam-lhe o mal que (em especial a sua madrasta) lhe fizeram?

Perdoam! Ai, ele tem muita consideração pelos avós. Até eu, não tenho raiva à minha madrasta. Coitadinha. Hoje sou mulher: também lhe devo a ela. Quando saí do orfanato tinha onze anos. Além de ser maltratada, transmitiu-me muita coisa.

Quando dei a entrevista ao Manuel [Luís] Goucha e à Júlia [Pinheiro], o meu pai viu lá. “O pai gostou?” “Filha, estás tão bonita.” “O pai desculpe de eu ir buscar o passado.” “Não levo a mal porque aquilo que disseste é verdadeiro.”

Um dia disse à minha madrasta: “A mãe era muito má.” “Eu sei. Mas nunca me levantaste a mão. Nunca me faltaste ao respeito. E os meus próprios filhos já me faltaram ao respeito.” Para mim é um orgulho muito grande ela dizer isto.

 

O dia mais feliz da sua vida, qual foi?

Quando fui mãe. Todas as vezes. Falar a verdade: engravidei [quatro vezes] e nunca por vontade. Mas depois de dar à luz era a maior alegria. Quando vi o meu filho na selecção. Tocar o hino e vê-lo no meio daqueles jogadores. (Eu gostava, gosto do Luís Figo.) E o dia em que nasceram os netos.  

 

Conta no livro que pensou abortar quando estava grávida do Ronaldo. É muito duro para um filho ouvir isto.

Ele acha graça! Com o passar do tempo, viu o pai que tinha. Eu era muito maltratada. (Ele já morreu, não quero falar.) Quis abortar. Ele hoje diz, a brincar: “Já viste, mãe, tu quiseste abortar e eu agora é que os sustento a todos”.

 

Disse que isto tudo parece um sonho. Pesadelos, tem?

Não. Deito-me na minha cama tranquila. Se tiver de fazer bem, faço. Se tiver de dizer não, digo. Recebo muitas cartas a pedir ajuda. Quando vou à Madeira, vão muitas vezes a minha casa. Há pessoas que me fizeram mal que vêm à minha beira, pedir. Não esqueço. Digo que não. Para sentirem. Quando precisei viraram-me as costas. Deus não me castiga por causa disto.

 

Vou contar-lhe o começo desta entrevista. Foi em Junho. Em Nova Iorque, um taxista contou-me que o seu filho tinha pago a operação a uma criança. Que tinha bom coração. E pensei na mãe que o tinha educado. Foi então que pedi para a entrevistar.

Ele tem bom coração. Quando foi para Manchester, saía em muitas revistas que fazia isto e aquilo. Às vezes era mentira. Ganhou muito dinheiro em processos. Dizia: “Não quero este dinheiro. Pegue nele e faça o quiser.” Dei-o a instituições.

 

Quais são os maiores defeitos do seu filho? Só temos falado das qualidades.

O maior defeito dele é não gostar de perder.

 

Porque é que isso é um defeito?

Tem de compreender que não pode ganhar sempre. Estou dizendo uma coisa, e sei que tenho razão, e ele entende que é como ele está a dizer: teima! Tem que saber perder dentro e fora do campo. Era muito teimoso, muito teimoso.

 

E vaidoso?, que é aquilo de que as pessoas o acusam.

Vaidoso? Gosta de se arranjar. Se tem possibilidades de ter tudo de bom, porque é que não há-de ter?

 

Não é vaidoso em relação à imagem. É a maneira como no campo...

Sente orgulho quando marca. O Ronaldo não é essa coisa que dizem. O Ronaldo é muito humilde. Sente vaidade de mostrar aquilo que sabe. E que consegue fazer melhor do que fez.

 

E os seus defeitos, são quais?

Sou também muito teimosa. Sou amiga do meu amigo, mas quem me magoar no dedo mindinho que saiba que me magoa no resto [mostra a mão toda]. Perdoo. Mas não sou a pessoa que era dantes.

 

Quais são os seus medos?

O meu medo é morrer e deixar os que mais amo na vida.

 

O Natal, como é que vai ser? Imagino que vá para a cozinha...

Vou! E vão as filhas. Não passo o Natal com o Ronaldo. Ele vai para o Dubai, passá-lo com a namorada e o filho. Ele disse-me para ir, mas não vou. Quero passar o Natal na minha terra. O frio lembra-me o Natal. No Dubai está quente. Já estive lá. Gostei. O fim do ano também passo na Madeira. Depois então vou para Madrid, com ele. Faço os anos na Madeira.

 

Grande festa?

Ele já organizou a minha festa. É surpresa mas eu já sei. Vai ser num barco, em alto mar.

 

Chega aos 60...

Espero chegar. Como diz o outro, para morrer basta estar vivo.    

 

Chega aos 60 uma mulher feliz?

Sim, sim.

 

 

Publicado originalmente no Público em 2014

Dinis Machado (s/ futebol)

16.02.25

«Teve uma infância estranha, disse Austin. Em última análise, todas as infâncias o são, disse Mister Deluxe».

O que diz Molero, Dinis Machado

 

- Descobri o futebol na rua, a jogar à bola na rua. Descobri um universo espantoso: o do prazer de jogar futebol. A revelação é em miúdo pequeno. Com as bolas de trapo, e a roubar as meias à mãe; não era fácil comprar uma bola a sério, custava dinheiro, e os polícias vigiavam-nos nas esquinas. Era mais fácil fazer com trapos e meias.

 

- O Bairro Alto é muito sinuoso.

 

- Jogávamos às vezes no Largo do Camões, embora aí houvesse uma vastidão enorme para o olhar da polícia. Jogávamos nas ruas mais apertadas, onde havia poucos passantes. Quando comecei a ser mais crescido, entrei em equipas juvenis, ou do bairro ou da escola.

 

- O futebol jogado numa rua íngreme e estreita apela a um confronto físico. Circuncrito àquele espaço, àqueles corpos, àquela bola, e não tanto a tácticas de marcação.

 

- Não havia tácticas. Desenvolvia-se a habilidade natural nesses jogos de rua: um miúdo com habilidade natural conseguia levar a bola, fintar os outros.

 

[Dulce, a mulher de Dinis: A baliza era entre passeios.]

 

- A baliza era numa esquina da rua. A atracção do futebol para o miúdo era o ter a bola nos pés. O grande prazer do futebol é jogar. O lado lúdico do futebol é esse prazer de estar em contacto com a bola. Até se pode dizer que o miúdo que está a jogar futebol, enquanto não tem a bola, não é bem ele. Só é ele, encestado de paixão, na posse da bola. É ele, então, que define as regras do jogo: tem a bola.

 

- Isso é ter domínio.

 

- Pois. É sempre o domínio do homem sobre as coisas ou do homem sobre os outros homens. Nos miúdos é o ter a bola, poder driblar quem vier. Dizíamos, «Eh pá, vê lá se passas, que eu paguei o mesmo que tu pela bola de borracha». Não se gosta de estar à margem. No futebol profissional, tenho a impressão que este prazer básico desaparece. A exigência é tão grande, que o jogador não tem a alegria solta do miúdo.

 

- A responsabilidade impõe-se ao prazer. Responsabilidade equivale a crescer, a ser adulto. Contrasta com a noção de correr, livre, com a bola nos pés.

 

- Alguns dos melhores jogadores do mundo eram quase inocentes a jogar a bola. Quase não precisavam de usar os recursos estratégicos da equipa, porque sozinhos eram um jogo dentro do jogo. Maradona, Pelé, Eusébio, os Cinco Violinos do Sporting. Jogadores de uma qualidade rara, sobressaíam entre os outros. O futebol às vezes têm momentos chatíssimos!, 20 minutos em que não interessa na-da, na-da, 20 minutos e não há uma jogada decente, «Os gajos não chutam à baliza nem nada...». E de repente...

 

- A vida faz-se numa sucessão de repentes.

 

- São os picos da vaga. A coisa é lisa, mas de repente a lisura desaparece. O jogo torna-se fascinante por causa da alteração momentânea que um jogador promove: arranca e vai, como o touro vai para o toureiro.

 

«São inesgotáveis os recursos do acaso...»

 

- Mas afinal, o que é o futebol?

 

- Hum. Não deixarmos o outro marcar; e se não deixarmos o outro marcar, talvez ganhemos se marcarmos. É um jogo de probabilidades. Como dizia um ilustre filósofo ou político da nossa praça, e o Bobby Robson também, «O futebol não é uma questão de vida ou de morte: é mais do que isso!».

 

- A frase é do Bobby Robson?

 

- Ou ouviu-a a alguém; a frase parece de alguém com mais finesse... Mas está certo, está certo. Tem um lado imprevisível que não permite saber o que vai acontecer no minuto seguinte. O futebol nunca está feito. Está feito o programa dos Monty Python, está feito o «Dez Mandamentos», está feita a peça do Pinter; o programa do que se vai fazer está já completo. No futebol não. Está-se a ganhar por dois a zero, faltam cinco minutos, tem-se o jogo na mão, e perde-se por três a dois.

 

- É a força do acaso?

 

- O lado imprevisível é imenso. Esse lado falível, chamo-lhe mesmo mortal...

 

- Mortal porque falível?, porque está à mercê do destino?

 

- Mas não é só isso. Normalmente os melhores ganham...

 

«Zuca é aquele que queremos ser ou que julgamos que queremos ser».

«Toda essa curiosa nomenclatura, disse Mister DeLuxe, (...) tem que ver, suponho, com os mitos locais?»

 

- Eu e muita rapaziada do Bairro Alto fomos para o Sporting. Agora não é assim, mas antigamente o ciclismo era talvez mais popular, por causa dos relatos radiofónicos, que o próprio futebol. O Benfica tinha um ciclista que ganhava a Volta a Portugal, um ciclista cheio de força chamado José Maria Nicolau. Tinha eu para aí três anos, quatro anos, e ouvia falar: «José Maria Nicolau ganhou, com a camisola do Benfica, a Volta a Portugal em bicicleta». No ano seguinte, um gajo de Torres Vedras, que veio morar para o Bairro Alto, entrou no Lisboa Clube Rio de Janeiro, (o clube do Bairro Alto). Vestiu a camisola, foi à Volta e ganhou a Volta contra o José Maria Nicolau. O Sporting foi logo buscá-lo. A miudagem do Bairro Alto passou a ter atracção pelo Sporting por causa do Alfredo Trindade. É uma das razões.

 

«Molero diz aqui, explicou Austin, que sorriu ao passar os dedos pelo elo da cadeia, que tudo se conjuga, bate certo»

 

[Dulce - O pai dele e o irmão eram do Benfica, e o pai fez-lhe um assédio...]

 

- O meu pai queria que eu fosse do Benfica. Mas a minha malta de rua tinha já costela sportinguista. É uma questão de revolução sobre o que está ditado. E há o lado político. O Benfica teve sempre a tentação de domínio dos colonos, da massa popular; e nesse fermento crescia também a Oposição! E quem era a Oposição? O Sportinguista. Há aqui uma questão de ordem política, tem de se ligar tudo a tudo, ó Anabela. É que o Estado Novo tinha uma gajo amigo do Salazar, o Góis Mota, que combatia a ideia dos vermelhos, por causa da política. Nos jornais nunca aparecia o termo Vermelhos, aparecia sempre Encarnados.

 

- Insuflou o Sporting de força patriótica.

 

- O Sporting nunca foi tão popular como o Benfica. O Góis Mota fez um discurso na Assembleia do Sporting a dizer que, repara nisto, discurso político, «O Sporting é a primeira metade da bandeira de Portugal... E o Benfica respondeu: «O Benfica é a segunda metade, mas é a maior!»

Ahahahahhahhahahha

Então o Sporting, empurrado pelo Góis Mota e pelo Estado Novo... Porque era, ainda por cima, «de Portugal, Sporting Clube de Portugal»! Os gajos puxavam pelo Sporting, que era de Portugal, uno e indivisível, não era só de Lisboa, como o «Sport Lisboa e Benfica». O Sporting fez uma equipa extraordinária, os Cinco Violinos, a primeira grande equipa do futebol português. Eu tinha para aí 15 ou 17 anos.

 

«As flores nascem do estrume, diz Molero»

 

- Que explicação dá ao facto de os grandes jogadores serem da classe baixa?

 

- São os que jogam na rua e nas praias. Um miúdo pobre não tem as regras que tem um miúdo disciplinado da burguesia. Um miúdo pobre é um miúdo de sítios livres: baldios, praias, sítios desertos, que são as zonas de desenvolvimento do futebol.

 

- A necessidade aguça o engenho?

 

- Também. E liberdade natural. Vai para uma escola, um instituto, e tem regras; só tem meia hora para o futebol se quer praticar o futebol. Na classe média, começa a crescer e tem logo regras de convivência e de comportamento social. O futebol só explode em todo o esplendor com toda a liberdade: jogar a toda a hora, em qualquer terreno, em qualquer circunstância, e começa a haver aquele entendimento muito particular entre o miúdo e a bola.

 

- Quando falava do engenho, pensava mesmo no domínio sobre a bola.

 

- Pois. A bola deve ser nossa.

 

- E há o sentimento da vitória: somos bons se ganharmos.

 

- Mais do que em qualquer outro lado, o futebol não admite a derrota. Não se pode admitir jogar para perder. Isso já vem no leite materno: um gajo quer logo ganhar. Quer ser melhor, quer conseguir o objecto que o outro não tem, aquelas coisas assim. O miúdo vai amassando dia a dia, hora a hora, minuto a minuto, esse espírito. O prazer do golo é outra característica do futebol, que não tem igual em nenhum outro espectáculo. Estás a ver um filme e pode ter picos, não é? Mas o pico do golo... Este pico de alegria para quem marca e de tristeza para quem sofre, não tem paralelo com nenhum outro. Há uma massa de gente que está à espera daquele golo, e há uma massa de gente que não. Dá-se um choque de paixões. O que é curioso no futebol é que dá para gregos e troianos. Dá para os finórios que lêem Borges e dá para a malta da rua. Ah, o jogo tem muito movimento, movimento. Tirando as partes gagas em que os gajos estão a estudar e passam a bola mal e tal, tem coisas lindas, passes lindos, pá.

 

- Um bailado.

 

- Mas a Margot Fonteyn, regra geral, não falha o movimento. O Eusébio pode ter azar e chutar por cima da trave. Não gosto muito de ballet... O futebol tem esse apuro físico, também; mas, além disso, é preciso meter a bola na baliza.

 

«Se você procurar bem na sua infância, Austin, há-de encontrar nela um gato sarnento que lhe roçou o lombo nas pernas cinquenta ou sessenta vezes, e isto, segundo Molero, marcou a sua vida. Se não encontrar um gato sarnento encontra outra coisa qualquer».

 

- Queria ser jogador de futebol?

 

- Queria, queria. Não vejo a minha infância sem o futebol. Foi o grande prazer da minha infância, o futebol. Como é que se pode passar uma infância, que a vida é uma chatice, se não houver uma bola, pá? O Fellini e o Sartre. O Sartre ainda fez boxe... Mas o Sartre e o Bergman não falavam de futebol, isso é que me surpreendia. Em Portugal já se jogava bastante futebol. Talvez pela relação com o mar, os miúdos jogarem nas praias, e entreterem-se os pescadores, até. Pode vir daí. Eu, a crescer, meti-me em grupos, fazíamos equipas, ou da escola ou do bairro; alugávamos as camisolas e os calções, alugávamos um campo, e jogávamos jogos em campos oficiais.

 

- Calçados?

 

- Jogávamos com todo o equipamento. Em miúdos, era descalços ou com sapatilhas. Eu rebentei sapatos, a minha mãe dava-me sapatos velhos, «Vais para a rua, calça aqueles, para não estragares os sapatos melhores». Até se joga melhor com sapatos velhos que com sapatos novos, muito melhor... E jogávamos futebol na areia, o futebol mais belo. Íamos para a Caparica.

 

- Iam como?

 

- De barco e de camionete. Íamos de barco do Cais do Sodré, e do outro lado de camionete para a Caparica. Sempre metidos numas enormes bichas, pá!, milhares de pessoas que iam para a praia e nós íamos para jogar à bola. Jogávamos o dia todo!, o dia todo! Escolhíamos, de preferência, a areia um pouco molhada, dura; quando a maré baixa fica aquela capa húmida, e segura-se melhor a bola. Na areia solta é muito cansativo, as pernas e o coração, puxa muito.

 

«Coração, bússola doida...»

 

[Dulce mostra a única foto onde Dinis aparece integrado numa equipa]

 

- Qual é que eu sou?, é preciso dizer que tinha cabelo, era um miúdo bem giro, hã... Dulce dás-me um bocadinho de café, se fazes favor?

 

- Quando queria ser jogador, era porquê? Pensava no dinheiro?

 

- Nunca na minha vida pensei no dinheiro. A certa altura preocupamo-nos com o dinheiro da vida, as contas aparecem. Mas no futebol, nem ao de leve. Até porque desconfiava que não seria tão bom ser jogador de um clube como jogar à bola na praia ou na rua, os treinadores e tal, a ditadura do balneário. É a disciplina, lá está, tira o prazer da anarquia do futebol. E havia as equipas sarrafeiras, as equipas que davam muito no osso.

 

«Ó camone, porque é que não vais jogar à porrada para as tuas streets?»

 

- No futebol mais popular, havia sempre pancadaria nas bancadas.

 

- Jogo de bairro: «Eh pá, esses gajos são uns sarrafeiros, são os gajos de baixar o pau..». Eu era o gajo que metia os golos, era avançado centro. Havia esse ódio aos gajos que jogavam bem...

 

- Esse ódio, é inveja, é despeito?

 

- Tem sempre que ver com inveja: o outro tem qualquer coisa que nós não temos e gostaríamos de ter. Se é uma coisa que não gostaríamos de ter, não tem importância, mas se gostaríamos e não temos...

 

«Regista tudo e vai-te embora, a tua mão há-de escrever depois, maquinalmente, o texto premonitório que deixarás para a posteridade, o texto será um monólogo do guarda da última fronteira»

 

- Quando é que começou a trabalhar como jornalista desportivo?

 

- Foi para aí com 17 anos.

 

- Foi a sua profissão de base.

 

- Foi, foi, 20 anos. O emprego. Fiz um artigo teórico sobre o futebol. O Fernando Ferreira diz ao meu pai «O seu rapaz escreve bem, mas isto é o Record, um jornal popular; o artigo vai publicar-se, mas ele que não mande mais artigos destes». O Record era um jornal de malta que quase não sabia ler.

 

- Como é que se chamava o artigo?

 

- Já tinha um bocado de literatura. «Ó Dinis, você quer fazer a segunda divisão para nós? Você é novo, depois vai à primeira...». Durante dois ou três anos fiz segunda divisão: o Chelas, o Sacavenense, o Arroios, esses sítios.

 

- E as prosas?

 

- A segunda divisão não tinha prosa; tinha as equipas, os golos, e de vez em quando uma frase de um jogador. A primeira é que tinha mais desenvolvimento. Depois fui para o Diário Ilustrado. A malta da Bola ia ao restaurante do meu pai [Farta Brutos], estive quase a entrar na Bola; não entrei porque o Diário Ilustrado me acenou. Também estive no Diário de Lisboa. Era tudo muito pequeno. É quase uma história sem história, andar nos jornais desportivos, a fazer Voltas a Portugal em bicicleta, a fazer jogos de futebol.

 

«Isso da palavra, se estou a perceber, disse Mister DeLuxe...»

 

- A malta inventa cada coisa... Ia ao restaurante do meu pai um engenheiro, um gajo muito porreiro, fanático do F.C.Porto. Uma vez contou:

- «Aqui há dias, estava a chover, mas fui ver o jogo a Guimarães. E, a certa altura, como é meu timbre, «Porto, vamos embora, Porto», animei o clube sozinho. E há um gajo que diz assim:

- Ó meu amigo, e se você se calasse!

- Calar-me? Não tem nada a ver com isso!

- Ó amigo, já lhe disse para você se calar. Porque se você não se cala, sabe o que é que eu lhe faço?

O engenheiro tinha um chapéu na mão.

- Sabe o que faço? Tiro-lhe o chapéu da mão, enfio-lhe no cu, e depois abro-o!»

Hiiiiii. O requinte é que é do caraças! «E depois abro-o».

 

- No restaurante do seu pai, as conversas eram sobre futebol?

 

- E sobre política. Política da surda. Gajos numa mesa a fazer o reviralho, gajos na outra da extrema direita. Futebol é que era mais aberto. O meu pai era árbitro, os gajos da Bola iam lá e os jogadores também. Mas o futebol em conversa... As conversas são um bocado chochas, dizem-se vulgaridades. O génio da bola? Nem sabe explicar o génio que tem.

 

- Todavia, poucos temas serão tão exaltantes como o futebol. Talvez a religião.

 

- O futebol é uma religião. Toma o lugar da religião. O futebol adquire umas proporções transfiguradores porque a religião já não responde. «Deus já não existe». Ou então, como diz a malta popular, «Isso de Deus é uma aldrabice». Eles não leram Nitzsche, mas perceberam por si próprios, perceberam as igrejas e o Vaticano e tal. O futebol é uma forma de auto-superação. Pertencer a um clube: lado religioso. Não se discute a camisola do clube: aquilo é sagrado. O nosso clube tem sempre razão: o lado fanático e cego dos fundamentalismos. O futebol é isso.

 

«O que poderá levar um homem a destravar uma cadeira de rodas?, perguntou Mister DeLuxe. A monotonia, a solidão, os sonhos espremidos até ao osso, o falhado desejo louco de correr até o coração saltar pela boca»

 

- O meu irmão morreu em situação dramática, auto-abandonado: deixou de tomar os remédios, deixou de ir ao hospital, não abria a porta a ninguém. Ao fim de 15 dias, o merceeiro telefonou-me e fui lá. Chegou ao Hospital e morreu. E diz que o meu irmão perguntou ao Mário Correia, que estava ao pé dele: «Qual foi o resultado?». Tinha sido o Benfica-Porto. Perguntou o resultado e logo a seguir morreu. ‘Tás a ver isto? Dá bem ideia da ocupação mental.

 

- É auto-superação: projecta o melhor e o pior de si naquele objecto.

 

- O futebol vai ser cada vez mais forte até se esvaziar como um balão. É um bocado como o sovietismo. Não tem nada lá dentro. Há uma coisa que é verdadeira: é o prazer do miúdo com aquilo que descobre. Não é repetível esse prazer livre do pássaro da infância. Acho que era o Chaplin que dizia... Um gajo perde a inocência porque quer saber mais, e depois passa o resto do tempo a tentar recuperá-la. Quando a bola vem no ar, vem no ar, e a gente consegue acertar-lhe com o peito do pé... É uma coisa extraordinária... Como é possível, uma bola vir no ar, um gajo mete-lhe o pé, pá!, e vai a bola para li, um gajo adivinha o sítio... Se calhar não tive na vida repetição de coisa que se assemelhasse a isso. É muito fibroso, muito fibroso... O futebol permite a gajos de 30 anos uma alegria de menino quando marcam o golo.

 

- É a recuperação de um tempo perdido?

 

- É isso.

 

«Ó país de cristal, que longe eu estou, dava um ano de ordenado por um momento da minha inocência perdida». (Molero, a páginas zero)

 

 

Publicado originalmente na revista Egoísta em 2004

Dinis Machado morreu em 2008

 

 

 

Fla-Flu no Maracanã, c/ Nelson Rodrigues

16.02.25

No último domingo de Agosto [de 2008], fui ao Maracanã ver o Fla-Flu. Na verdade, fui à bola com Nelson Rodrigues – que era tudo o que me interessava. Porquê? Porque o Nelson Rodrigues escreveu coisas deste calibre: “Pelé põe-se por cima de tudo e de todos. E acaba intimidando a própria bola, que vem aos seus pés com uma lambida docilidade de cadelinha”. “Pelé podia virar-se para Michelangelo, Homero ou Dante e cumprimentá-los com íntima efusão: “Como vai, colega?”. Ainda sobre Pelé: “Vá jogar assim no diabo que o carregue”. Cinquenta anos depois de Nelson ter eleito Pelé o seu personagem do ano, eu peguei no pesado livro de crónicas e sentei-me na bancada. A vibrar com o Nelson, a sonhar ver um Pelé.

Primeira coisa: por quem torcer? O futebol não tem graça se não nos fundirmos com o “time”, com a “torcida”. Para mim, o futebol não tem graça se não olhar para a cara das pessoas, para ver como se transformam em animais. Para assistir aos “espasmos colectivos que só o Tolstoi de “Guerra de Paz” ousaria descrever”. Eu preciso de detectar as “náuseas de pavor homérico”. De perceber como “sob o estímulo da pusilanimidade, tubarões e pé-rapados largam a mesma baba, elástica e bovina”. Perguntaram-me de quem eu era – é-se de alguma coisa, e o sentimento de pertença é vigoroso, exclusivista, definitivo. Mário Filho, irmão do Nelson, jornalista desportivo que deu o primeiro nome ao estádio do Maracanã, dizia que se podia mudar de país, de mulher, de emprego; menos de clube de futebol. Eu respondi: “Sou Flu”. Serei redundante se disser que torci pelo clube do Nelson Rodrigues.

Estava desde logo em desvantagem. Porque o Flu estava no fundo da tabela (no momento em que escrevo, está em penúltimo lugar…), e porque a torcida do Fla é a maior do planeta. Mas o futebol interessava-me muito pouco; para ser franca: não me interessava absolutamente nada. Desconhecia em absoluto o nome dos jogadores, mas fiquei enfeitiçada com as categorias em que se subdividem: volantes são o quê?, zagueiros são os que fazem ziguezague pelo campo?, goleiros são guarda-redes – essa até eu entendo. Desconhecia as canções, mas fiz um esforço para aprender: “Eu canto ‘Nense quando o time está bem/ eu canto ‘Nense quando o time está mal/ um gol sofrido não vai me abalar/ não vou parar de cantar”. A dos outros era mais enfática e exortava à vitória: “Somos Flamengo/ Vamos ser campeão/ Vamos Flamengo/Amor e paixão”.

Desconhecia os insultos, mas rapidamente fiquei inteirada: vai tomar no cu é forte e é capaz de ser equivalente ao nosso filho da puta. Não é que não se use o filho da puta, mas essa não é uma fórmula de insulto preferencial.

Uma mulata que estava atrás de mim quase partiu as cordas vocais de tanto berrar. Ainda a estou a ouvir a pronunciar caralho, sílaba após sílaba, como se a estivessem a matar e ela cuspisse nos seus assassinos. Chamar-lhe histérica seria pouco. Estava endemoninhada. E nem o exorcismo do golo ou a sensualidade dos jogadores a acalmou. Fazia de caralho um sufixo, para gritar coisas tão simples quanto: solta, corre, chuta. Uma menina fina confidenciou-me em surdina: “Estava a pensar dar-lhe qualquer coisa para dormir… um pouco de veneno mesmo!”. Não era o facto de debitar o palavrão de forma incontinente que transtornava a bancada. Era porque a criatura impedia que cada um dissesse alto o seu palavrão – e que se ouvisse. E o palavrão tem um efeito libertador. Uma catarse que essa mulata não podia impedir. A outra razão, talvez principal, para que a bancada inteira lhe rosnasse, era a mulata torcer pelo Fla numa zona ocupada pelo Flu.

Para quem não sabe, e eu não sabia, “nenhum clássico se compara, em alma, chama, personalidade, ao Fla-Flu”. Era assim em 1958, e os adeptos do Benfica-Sporting deste fim de semana devem dizer o mesmo. Na verdade, equivalem-se: o Flamengo, como o Benfica, é o clube popular, sanguíneo. O Fluminense, como o Sporting, é o clube elitista, fleumático – se é que o adjectivo pode ser usado quando se fala de futebol; é aquele que tem classes AB, como as estratificam na televisão. É o clube dos intelectuais, que dominam a verve e que são capazes das maiores grosserias. Muito mais aterrador do que o caralho da mulata foi ouvir a claque gritar, a um minuto do fim, com vantagem no marcador: “Favela, favela, silêncio na favela!”. Um australopiteco levantou-se ainda para a última marretada: “Vai passar fome!”. Vermelho, ufano, fascista. Uma pessoa engole em seco e tem vergonha de torcer pelo Flu, apesar do Nelson… E não consegue não aplaudir quando “o Flamengo persegue a bola com fanática disposição” e marca golo logo a seguir. A justiça (social) divina, vinda do Cristo Redentor, que se via de todo o lado, ou dos Céus mesmo, repôs a igualdade. (Repôr a igualdade é tudo o que eu sei dizer em futebolês).

Nelson tinha simpatia pelo Flamengo. É muito estranho constatar isto. Não se imagina um adepto do Benfica a ter simpatia pelo Sporting. Conheço um troglodita que diz que não quer que o Sporting ganhe, quer é que o Benfica perca… Mas é normal que no futebol todos se transformem um pouco em trogloditas e digam idiotices chapadas. Quanto mais trágicas, espasmódicas, um pouco pulhas mesmo, as coisas que se dizem, tanto melhor. Menos saem cá fora, no emprego e na família. E se vamos ver o espectáculo, ao menos que ele contenha pathos

Mas Nelson Rodrigues, além de escritor genial, tinha gestos magnânimos. Poucos, mas tinha. E tinha simpatia pelo adversário. “A raiva dos 22 homens deu um colorido muito especial à batalha”. Oh, que saudades dos tempos em que o relvado era um campo de batalha, em que se jogava com raiva… Nunca vi o Cristiano Ronaldo jogar com raiva, mas posso estar a precisar de ir ao oftalmologista. Vi-o jogar com brio, com peneiras, com empenho. Mas nunca com raiva. Mourinho, que é tu cá tu lá com a raiva, sabe bem da importância de puxar pela besta que há em cada jogador. E pela do torcedor. É por isso que o Mourinho é o Mourinho. (Não levem a sério que eu nunca vi um jogo do Mourinho, mas é o que me parece numa análise comportamental de trazer por casa).

Como o Nelson, a mim interessam-me mais os estados de alma do que a condição física. “Uma reles distensão muscular desencadeia manchetes. Mas nenhum jornal ou locutor jamais se ocupou de uma dor-de-cotovelo que viesse a acometer um jogador e a incapacitá-lo para atirar um vago arremesso lateral. (…) Estão a postos os jogadores, o técnico e o massagista. Mas quem ganha e perde as partidas é a alma. Teríamos sido campeões do mundo, naquele momento, se o escrete houvesse frequentado, previamente uns cinco anos, o seu psicanalista”. Ou seja, senhores técnicos do Benfica e do Sporting (não tenho ideia quem sejam): ponham os rapazes no divã que é tão importante quanto a marquesa e o relvado. Os rapazes podem estar machucados, mas é preciso saber se estão magoados.

No Maracanã, alguns jogadores saíram machucados, num carrinho que parece um papa-móvel. Eu gostava mais quando, na minha aldeia, se espatifavam todos no solteiros contra casados e iam de maca, a verter sangue, para os balneários. Ninguém diz que um jogador está magoado – porque isso seria dizer que ele tem os sentimentos feridos. Nem tão pouco aleijado – porque isso seria dizer que estava incapacitado (manco, estropiado, perneta, coisas assim).

Eu saí a cantar o “Cant take my eyes off you”, que o Flamengo adaptou. E cheia de sede. Por uma razão que não consigo descortinar, as mulheres não são obrigadas a passar pelo detector de metais – onde já se viu uma mulher usar arma de fogo??? – mas não podem levar para o interior do recinto uma garrafinha de água. Saí desiludida por não ter visto um jogador como aqueles que Nelson descreve: “Quando ele apanha a bola, e dribla um adversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento”. Me desculpem, pô, depois de uma frase dessas não consigo escrever mais nada…

Apesar disso, consigo seguir o coração: desci as escadas e fui posar junto ao busto do irmão de Nelson, Mário Filho. Muito perto estavam as pegadas de Pelé e Garrincha. Muito perto estavam os milhares de pessoas que foram à guerra (uma guerrinha…) e voltaram. Extenuados. Felizes. Pais e filhos. Maridos e mulheres. Amigos e amigos. Muitos homens. Muitos mais homens que mulheres. Muita “camiseta” do Fla – eles são mais do que as mães. Os candidatos às eleições municipais aproveitaram para encher o ar com a sua música estridente. Silenciou-se a bateria do samba. Na verdade, o que ali se passou foi uma dança. Tribal.

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2008. 

 

 

 

 

 

Maria Teresa Horta

04.02.25

Portugal ainda é um país machista? É seguramente menos do que há 40 anos. É-o, em todo o caso. Dou-me conta disso se penso que a maior parte dos que estão a ler estas palavras – os leitores do Jornal de Negócios – são homens. Se penso que a maior parte dos que fazem negócios em Portugal são homens. Se penso que na lista dos mais poderosos da economia portuguesa, que este jornal elabora anualmente, as mulheres têm uma expressão residual. E antes que desandem e pensem que acordei feminista demais para vosso gosto, gostaria de dizer que, sim, é verdade que a directora deste jornal é uma mulher, a editora deste suplemento é uma mulher, esta que vos escreve é uma mulher. E sabemos que uma das pessoas mais poderosas em Portugal, a que ocupa o Ministério das Finanças, é uma mulher. Mas a pergunta que faço, que Maria Teresa Horta faz na entrevista, é a seguinte: e isto é assim em Trás-os-Montes e no Algarve?, está generalizado? Nenhuma carreira – nenhum projecto de felicidade – ficou pelo caminho para que estes homens (os leitores, os que fazem negócios, os poderosos) chegassem onde chegaram?

O mote da entrevista é outro, ainda que atravessado por este. É consensual que uma das mudanças mais contrastantes no nosso tecido social diz respeito ao papel da mulher. Hoje ninguém discute que uma mulher tenha formação escolar, tenha uma carreira (e faça de supermulher). Ainda se lembram – ou sabem – do tempo em que a mulher era uma sombra? Não é uma anedota, houve mesmo um tempo, e não é longínquo, em que ela precisava da autorização do marido para se ausentar. E não, não vos peço que levem o jornal para casa, para que as vossas mulheres ou as vossas filhas o leiam. Isto é evidentemente dirigido a homens. Melhor: a pessoas. Homens e mulheres. Porque aqui se fala de quem somos, de sociedade, de política, das condições que nos permitem ser isto e aquilo. Ou seja, de liberdade.

A poetisa e escritora Maria Teresa Horta destaca-se há muito na luta pelos direitos das mulheres. O seu discurso político é empenhado, categórico, sem virar a cara para o lado, sem espaço para a condescendência. Zero de atitude compromissória – essa coisa que abunda. A ela não a apanham a dizer: como passa vossa excelência? – se do outro lado estiver um membro deste Governo, ou o presidente da República. Zero de sorrisos. Recusou em 2011 receber de Passos Coelho o prémio D. Dinis, como é sabido. Zero de arrependimento.

Que é feito do sonho de Abril? 40 anos depois, olhamos para dentro de casa, e não só.

 

O que é que o 25 de Abril fez à sua vida?

Aquilo que fez à vida de todos os portugueses: virou-a dos pés para a cabeça. Viver em liberdade e ser uma festa completa, desde que se acordava e enquanto se dormia... É uma época tão jubilosa, de tanto entusiasmo, tanta esperança. Tanta crença no futuro. Tudo era cinzento e passou a ser rosa acre.

 

Rosa acre? Porquê?

Porque é a cor mais intensa. Era mais a rosa acre do que a rosa damascena. Quando me lembro do 25 de Abril, o que sinto é essa festa. Dava prazer ir para a rua em liberdade.

 

Com o que é que sonhou? Três coisas em relação às quais pensou: isto agora vai ser possível.

Agora vai ser possível fazer deste país outro país. (Era um país amordaçado, triste.) A mulher vai mudar a sua vida. E nós, jornalistas, não precisamos de ir mais à censura.

 

Como jornalista, lidava com a censura todos os dias.

Sempre trabalhei em jornais diários. Aquela coisa de o coronel cortar e de às vezes ainda termos que falar ao coronel porque queríamos que voltasse atrás... Era uma violência. Não se podia pôr uma palavra que não passasse na censura. Fechavam o jornal. Era um atentado diário. À integridade, à autenticidade. Eu trabalhava enquanto jornalista cultural, fazia entrevistas, aquilo que cortavam tinha a ver com literatura. E cortavam tanto quanto em artigos políticos.

 

Eram consideradas ideias subversivas e autores subversivos?

Sim. Quanto mais ignorante se fosse, melhor. Toda a gente sabe que quanto mais conhecimento, mais difícil é dominar e calar uma pessoa. E não havia censura prévia nos livros porque no início ligavam pouco à cultura, não se tinham apercebido do perigo. Nessa altura, estava com a Maria Isabel Barreno e a Maria Velho da Costa em tribunal.

 

O processo das chamadas Três Marias tinha rebentado em 71, depois de escreverem as Novas Cartas Portuguesas. Esperavam ir presas?

Claro. Não tínhamos ido presas porque tínhamos pago caução. Só faltava o juiz dar a sentença, estava marcado [o anúncio] para Maio de 74. Ele tinha ordem para nos prender. Mas havia em todo o mundo ocidental uma pressão enorme das feministas, e não só. Jornalistas, pensadores, estiveram connosco. Simone de Beauvoir, [Jean Paul] Sartre, Marguerite Duras, Christiane Rochefort.

 

Uma das coisas que mais mudaram nestes anos diz respeito ao papel da mulher na sociedade. Concorda?

O 25 de Abril foi maravilhoso para toda a gente, especialmente para as mulheres. As mulheres nem sabiam que tinham direito a ter voz. Eram a sombra do homem. As mulheres não tinham sexualidade, não tinham direitos, não tinham qualquer espécie de relevância na sociedade portuguesa. Todo o código de família – que depois foi mudado pelo Salgado Zenha – era uma coisa aterradora. O direito que tinha era dar opinião.

 

Estava escrito?

Estava. A mulher não podia sair do país sem o homem lhe dar autorização. Se o filho dos dois [quisesse sair], ele é que tinha que dar autorização. Porque ele é que mandava nos filhos. A mulher tinha o direito de discordar.

 

No espaço público, que direitos tinha? Tinha direito a votar?

Não. Só tinha direito a votar se fosse chefe de família, coisa que nenhuma mulher era, a não ser que fosse viúva. Ou então se tivesse um curso superior, o que nessa altura era bastante raro.

 

Quando é que as mulheres começam a votar?

Só depois do 25 de Abril. Nunca votei antes. Não acabei o meu curso. Voto com a maior das alegrias!, continua a ser uma festa tão grande. Foi uma luta minha. Luta que até hoje se mantém. Deram-se tantos passos atrás depois do 25 de Abril que já nem reconheço o 25 de Abril.

 

Desvirtuou-se assim tanto?

Sim, muitíssimo. Estão a tentar dar cabo de tudo o que conquistámos.

 

Concretize.

O Sistema Nacional de Saúde é uma macaqueação daquilo que tínhamos imaginado e daquilo que chegou a ser. Os direitos dos trabalhadores não têm nada a ver com aquilo que se tinha conquistado no 25 de Abril. A escola pública, que era um ideal e uma realização da Primeira República..., estão a fechar dia após dia. Já estão a dar dinheiro às escolas particulares. Nas aldeias tiram tudo, o correio. Coitadinhos dos velhinhos que têm de andar quilómetros para receber as pensões [na estação dos CTT mais próxima].

 

Quando é que o sonho se desvirtuou?

O sonho hoje é mesmo só sonho. Mantém-se a liberdade de ir para a rua manifestar. Mas pergunto-me se as pessoas não começam a ter medo. Essa é uma das coisas em que se recuou – o medo. Um medo que conhecia desde criança. Nasci no fascismo, vivi 30 e tal anos no fascismo. Sempre conheci esse abocanhar do medo em todas as pessoas que ia conhecendo. Falávamos ao telefone e sabíamos que estava a ser escutado. Houve uma altura em que a PIDE me bateu à porta, durante uns três meses, todas as semanas. Às seis da manhã. Ainda acordo de noite a ouvir baterem à porta.

 

As pessoas têm medo de que represálias?

De perder o emprego, é óbvio. As pessoas têm medo de dar a sua opinião porque têm medo de ficar desempregadas. Hoje em dia pode-se ir para a rua? Pode. E depois, como é, não há filmes? Eles não vão ver quem está? Essas pessoas são as primeiras a ficar desempregadas. As pessoas aceitam tudo, têm que viver. Quando temos um primeiro ministro que diz: “Não pode encarar o desemprego como uma tragédia, tem que encarar como um mudar de vida”, então, ele que mude. Vai para o desemprego e muda de vida.

 

Quando é que o sonho começou a ser desvirtuado? A crise dos últimos anos tem sido muito aguda. Mas é de agora?

Tem vindo a pouco e pouco a ser desvirtuado aqui ou ali. O grande declive tem sido nestes últimos anos.

 

Com uma marca ideológica?

Claro. Aquilo que estão a fazer, fazem porque queriam fazer. Estão a dar cabo deste país. Estão a abolir tudo o que era 25 de Abril. Como é possível que se acabem com feriados sendo um deles o 5 de Outubro? A República não é importante?

O 25 de Abril foi realmente um sonho e como tal era muito difícil que se mantivesse intacto. Aquele 1º de Maio foi uma coisa única em todo o mundo. Vir o povo todo para a rua, os políticos, todos de braço dado nas manifestações. É uma festa tão grande que alguma coisa teria de ser perdida. Uma coisa é o sonho, outra coisa é a realidade, e outra coisa ainda é o desmantelamento.

 

Passámos por uma fase intermédia? Isso corresponde também aos anos em que as pessoas se distanciaram da política? Há muito que as taxas de abstenção são altas. As pessoas não têm uma actividade cívica empenhada.

Levámos 50 anos a desaprender o interessarmo-nos pela política. A prática quotidiana do fascismo era essa: não podíamos nada. Não tínhamos que dar a nossa opinião. Íamos presos, éramos perseguidos, entravam-nos em casa. Quando nos sentávamos num café púnhamos a mão debaixo da mesa para ver se havia um microfone.

 

Depois da revolução, as novas gerações encontraram um país onde o essencial estava adquirido. Entretanto os mais velhos tinham desaprendido de intervir porque aquilo por que haviam lutado estava satisfeito.

Os mais novos encontraram uma sociedade aberta, ninguém os impedia de nada, era tudo possível. Podiam falar à vontade. Basta olhar os olhos dos jovens que estão em cursos de Comunicação Social. Quando se diz que cada texto, cada letra, tinha de ir à censura...

 

Qual é a reacção?

O que se vê nos olhos é incredulidade. Julgam que somos loucos. Como é que era então possível fazer um jornal diário? Era um horror, mas era possível.

Quando vou ao Brasil, depois do 25 de Abril, e ainda encontro uma ditadura [a ditadura militar terminou em 1985], sou convidada para uma rádio. Senta-se o jornalista à minha esquerda e à direita um senhor. Era um censor. Disse: “Isto nem no fascismo em Portugal”. Nenhum escritor se sentaria ao pé de um censor. Tem tão pouca consideração por si próprio um escritor que se senta ao lado de um censor... Ainda hoje não me sento ao lado de ninguém que esteja ligado à extrema-direita, que esteja ligado ao fascismo ou à censura.

 

Em 2011 recusou receber o prémio D. Dinis das mãos do primeiro ministro, Passos Coelho.

E este ano não aceitaria de ninguém deste Governo nem do Presidente da República, que é conivente com eles. Nem uma códea de pão, quanto mais um prémio. Não preciso de prémios, preciso de ter respeito por mim. Não posso ir para a rua gritar contra eles e depois, porque é um prémio, dar um sorriso e apertar a mão. Não posso! É uma questão de coerência. E de auto-estima. Não recebo nada desses senhores.

 

Qual foi a reacção que encontrou na rua, no seu bairro, nas pessoas à sua volta, depois dessa atitude?

Muito boa. No Facebook, centenas de pessoas muito animadas dizendo: “Ainda bem que há pessoas que continuam a ter dignidade, a agir conforme as suas ideias”. Mas houve uma mulher que pôs assim na minha página oficial: “Que pena, eu que a admirava tanto e a amava, agora desprezo-a”. Isto é muito português – os extremos. Mas achei muita graça. E gostava de conhecer a senhora. Eu desprezava-me a mim se tivesse aceitado o prémio.

 

Sabe que todos os idílios têm um período de corrupção inevitável. Imaginou este grau de corrupção do sonho?

Nunca pensei no 25 de Abril que isto pudesse acontecer. (Aquele Manifesto dos 74, eu assinei, queria assinar. Manifestos era o que fazíamos durante o fascismo, e era perigoso. E agora, qual é o passo seguinte, é ter medo de assinar?) Percebi que se estavam a dar passos atrás depois de 75, depois de [25 de] Novembro.

 

É militante de algum partido?

Não. Mas fui militante do Partido Comunista durante 14 anos. Antes do 25 de Abril, trabalhei com o PCP na clandestinidade, pertencia ao grupo de pessoas que davam apoio aos presos políticos. Com 19, 20 anos quis entrar no partido e a resposta foi que era muito nova.

 

Muito nova? Era uma resistência à sua origem de classe? É oriunda de uma família aristocrata. A Marquesa de Alorna, cuja biografia escreveu, As Luzes de Leonor, é sua antepassada.

Penso que a desconfiança era em relação à minha poesia. A poesia erótica ainda é uma coutada dentro da literatura a que as mulheres dificilmente têm acesso. Senti durante anos que havia um terreno movediço debaixo dos meus pés em cada livro que publicava. Depois do 25 de Novembro sou aceite no PC em duas semanas. Aí já havia uma abertura que tinha a ver com a democracia.

 

Se entrou para o PCP depois do 25 de Novembro, significa que sentiu que o PCP estava a perder terreno e que esse era o momento de dar força ao partido. Aquilo que preferia era que o PCP tivesse ganho o PREC, e não o PS?

Na altura, sim.

 

E hoje?

Saí do partido, não me puseram fora. Hoje continuo a achar que a democracia só existe por causa do Partido Comunista.

 

Contrariava a ideia de que o 25 de Novembro punha termo ao que podia ser uma ditadura vermelha?

Nunca acreditei nisso.

 

Saiu depois de 1989, depois do desmoronamento do muro e do mundo soviético.

Sim. Era chefe de redacção da revista Mulheres, editada pela Caminho, que era do partido [PC], e foi muito complicado. Eu faço muitas perguntas, quero ouvir respostas.

 

É um grande título: nada foi fácil porque faço muitas perguntas.

Sou uma perguntadora. Sou uma sonhadora da liberdade. Exijo muito da liberdade. E sou muito agradecida ao Partido Comunista. Não tinha havido militares de Abril se não tivesse havido um trabalho por trás.

 

Voltemos à dimensão política que a sua obra tem e nas suas repercussões. A publicação das Novas Cartas Portuguesas teve consequências (já falámos disso). Esta recusa de receber o prémio D. Dinis das mãos de Passos, o que aconteceria se ela tivesse lugar no antigo regime?

Não sei. Naquela altura não me vinham prender por isto, mas ficaria com mais uma pedra na minha vida. O que já acontecia comigo..., com as Novas Cartas Portuguesas, com o Minha Senhora de Mim [livro de poesia, 1967]... Quando publiquei o Minha Senhora de Mim, a minha editora, Snu Abecassis, foi chamada ao Moreira Baptista, que lhe disse: “Proibi o livro desta senhora. Se volta a publicar, o que seja, dela, fecho-lhe a casa”.

 

Snu tinha fundado a Dom Quixote dois anos antes, em 1965.

Sabia que não havia nenhum editor que me pudesse publicar. Como escritora estava arrumada. O que é que podiam fazer mais se me recusasse a receber um prémio das mãos do Marcelo Caetano? Nada mais do que me estava a acontecer.

 

No caso da recusa de 2011, quais foram as consequências?

Até agora nenhumas. Porque não dependo deles. Tenho uma reforma à qual tiram dinheiro, como acontece com milhares de pessoas nas mesmas condições. E porque vivemos em liberdade, e nessa altura vivíamos em fascismo.

 

Falemos novamente das grandes mudanças na vida das mulheres, daquilo que começou por apontar como um dos sonhos do 25 de Abril.

Pensei que a mulher pudesse, em Portugal, ter o estatuto que agora tem: um ser humano com plenos direitos. A Constituição reconhece a igualdade entre o homem e a mulher. Mas isso corresponde à verdade? Não.

 

Temos uma base legal que nos protege mas a realidade não corresponde, é isso? Porquê?

Porque, mesmo que se faça uma revolução, como se fez em Portugal, a mudança de mentalidades é muito lenta.

 

Aqueles que nasceram na década de 70, nasceram com um novo país. A sua mentalidade ainda tem muito desse passado penalizador das mulheres?

Tem. São filhos desse passado, os pais continuam a ser pessoas que viveram nesse passado. E as mentalidades têm séculos. Os homens continuam a matar as mulheres neste país. As mulheres têm o mesmo trabalho que os homens e têm salário desigual. As mulheres não estão à cabeça das empresas, dos jornais, no Governo.

 

Neste momento o Jornal de Negócios e o Público têm duas mulheres directoras, Helena Garrido e Bárbara Reis.

Isso só, muda?

 

Já é uma mudança. E são dois jornais de referência.

A cultura, a leitura, levam as pessoas a mudar. O próprio jornalismo leva as pessoas a mudar. A minha pergunta é se encontra isso no país inteiro. Se encontra essa mudança em Trás-os-Montes, no Algarve. Olha para o Governo e é um desastre de mulheres.

 

Mas olhamos para as universidades e são mais as mulheres do que os homens.

Isso é diferente. E as meninas são sempre as melhores das turmas. Depois, saem da universidade, e são elas as primeiras a ser empregadas? Não, não são.

 

A equação das mulheres que têm agora 30, 40 anos é a conciliação da família e da carreira? Isto não era posto assim há uns anos, era evidente que primeiro estava a família.

O que está viciado é já a pergunta. Por que é que não se faz essa pergunta aos homens? A mulher é que continua a ter que optar entre a sua vida profissional e a sua carreira. Todos temos na cabeça que para a mulher a família é a coisa mais importante.

 

E isso é válido para todas as gerações?

É. Mesmo para as mais novinhas. As mulheres continuam a cumprir aquela frase portuguesa que ainda não encontrei em mais sítio nenhum: “São mais que as mães”. Não há mães sem pais.

 

O que essa frase quer dizer é que, na cabeça das pessoas...

... a primeira função da mulher continua a ser família. “O meu marido ajuda-me muito”. Ajuda? Onde é que está escrito que quem faz o trabalho doméstico são as mulheres? Enquanto se achar que o homem ajuda, e que já é maravilhoso [que ajude no trabalho doméstico]… Enquanto se disser que os homens já tomam conta dos filhos... E depois, não são filhos deles?

E neste momento estamos a regredir. Os passos que demos para diante, mais de metade já demos para trás.

 

Regredimos no sentido em que as mulheres são as mais penalizadas? São consideradas o elemento mais frágil. Se a criança fica doente, é preciso ficar em casa a tomar conta. Normalmente é a mãe.

Com certeza. Ela é aquela de quem os patrões prescindem mais facilmente. Esse peso continua a existir em cima da mulher. Por isso fazem perguntas que não fazem aos homens. “É casada?, pensa ter filhos?”. Uma amiga da minha nora foi a uma entrevista de emprego; quiseram ver a carteira, se estava arrumada. Alguém pede a um homem para ver a arrumação da mala do carro, o que tem nos bolsos?

 

Fomos engolidos pelo critério economicista? E aí não somos só nós, Portugal. E não são apenas as mulheres, ainda que estas possam estar no ponto mais vulnerável da cadeia. Estamos numa espécie de disfuncional mundial.

Sim. Quando me vêm perguntar se ainda sou feminista, se ainda há necessidade... Nem respondo. As pessoas acham que já fizemos imenso. Votamos, não apanhamos todos os dias. E a sexualidade, acha que as mulheres são tão felizes assim na sua sexualidade? Ainda há montes de preconceitos em relação às mulheres.

 

A maneira como a sexualidade ocupa o espaço público nos últimos 40 anos mudou muito.

Antes do 25 de Abril, a mulher não tinha sexualidade. Agora tem.

 

Vulgarizaram-se as relações sexuais antes do casamento. A publicidade, a televisão são muito explícitas nas mensagens de conteúdo sexual.

A publicidade é péssima, andou quilómetros para trás. Uma pessoa vê coisas na televisão hoje que não se viam antes do 25 de Abril.

 

Lembra-se daquele título do Jornal de Notícias, o ano passado: “Ministra foi mostrar o buraco”? Referia-se a Maria Luís Albuquerque e à situação das finanças do país.

Isso não se diz de um homem.

 

Talvez os autores percebessem o que fizeram se aplicassem a expressão à sua mãe ou às suas filhas.

Aí, sim. As mulheres são sempre respeitadas particularmente. A mãe e a filha são sagradas. E des-sexualizadas. Fiz um livro chamado A Mulher na Literatura Portuguesa. Um escritor tinha escrito um texto sobre a mãe e dizia que a mãe não tinha corpo e não tinha cheiro. As coisas que a mãe tem mais! Ainda hoje me lembro do cheiro da minha mãe.

 

Como é que o descreveria?

Louro. De uma pele branca. Foi até aos 90 anos linda de morrer. A minha mãe era parecida com uma árvore.

 

Que palavras imagina que os seus netos, o seu filho e o seu marido diriam imediatamente de si, como disse da sua mãe que era parecida com uma árvore?

Cada um diria a sua coisa. O meu filho, não faço ideia. O meu filho é da condição do sonho, dos anjos. Está lá por cima. Os meus netos são muito diferentes. Pensavam em poesia. O Tiago diria: “A minha avó é poesia”. O Bernardo [falaria de ] determinação. É a imagem que têm de mim. E o Luís [marido], também.

 

É um casamento longo.

O que é que pensa um homem apaixonado há 50 anos por uma mulher que também está apaixonada por ele há 50 anos? Todos os dias faço poesia de amor por ele. Há dois dias ele disse uma coisa a que achei muita graça: “Pára de bulir, só um bocadinho”. É uma palavra linda. É a ideia que as pessoas, as minhas amigas, têm de mim. A permanente agitação, a permanente desobediência.

 

É o seu carácter insubmisso.

E sou muito determinada. Quando me proíbem, incandesço.

 

 

Publicado originalmente no Jornal de Negócios em 2014

 

Ana Vicente e Filipa Lowndes Vicente

04.02.25

O feminismo é a conversa chata das mulheres? Ana Vicente, nascida em 1943, diz que chata é a situação. A situação de discriminação. E não, não é verdade que o feminismo seja o oposto de machismo ou que as discussões de género não façam sentido em 2013. A sua filha, Filipa Lowndes Vicente, nascida em 1972 e educada numa casa feminista, só reparou tarde na “desproporção entre mulheres e homens artistas nas narrativas históricas ou na cena artística contemporânea”. O livro A Arte sem História condensa uma investigação sobre o tema. 

Filipa usa o apelido da mãe e da avó, Lowndes, e o do pai. Não adoptou o nome do marido, Diogo Ramada Curto. É historiadora. Ana usa o apelido do marido, Vicente. Casou-se num tempo em que era assim. Foi presidente da Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres. Ambas têm vários livros publicados.

Têm uma relação terna, cúmplice, de admiração recíproca. Comovente. Mãe e filha passaram uma tarde a falar dos seus assuntos, a gizar a genealogia da família (sobretudo o ramo inglês e materno), a questionar, a esbarrar em contradições. O encontro foi na casa de Filipa, uma coleccionadora, como o pai. Uma casa de livros e imagens. As duas filhas pequenas não estavam e a sua presença não era visível. Não era uma daquelas casas inundadas de brinquedos ou objectos de criança que logo deixam perceber quem manda naquele espaço. De que precisa uma mulher para criar, escrever, pensar, ser ela mesma, seguir o seu caminho? Foi o ponto de partida para a conversa.     

  

Começo pelo título de uma obra fundamental do feminismo, Um Quarto que Seja Seu, de Virginia Woolf, para vos perguntar como era o vosso quarto. Pode ser o quarto da infância ou aquele que, pela primeira vez, consideraram o vosso quarto.

Ana Vicente – Partilhava um quarto com a minha irmã, com quem me dou lindamente. Mas a certa altura disse aos meus pais: “Eu quero um quarto só para mim”. Tinha 10, 11, 12 anos. Queria o meu espaço exclusivo. Fui ocupar um quarto que era das visitas. Tinha a sorte de viver numa casa com vários quartos, no Monte Estoril. Dispúnhamos de espaço, de jardim. Depois de casar também tive sempre o meu escritório.

 

Antes de falarmos desse segundo espaço, detenhamo-nos aqui: era de um tempo, e de uma classe social, as meninas partilharem o espaço com as irmãs, apesar de haver mais quartos disponíveis na casa.

Ana – Não sei porque é que nos puseram no mesmo espaço. Era como se as visitas fossem mais importantes [e fosse preciso guardar um espaço para elas]. A minha mãe era inglesa, recebia muito, amigos e familiares vindos do estrangeiro. Mas ainda havia mais um quarto disponível... Tinha um irmão, que infelizmente já morreu; tinha o quarto dele, e as meninas partilhavam um quarto grande.

Filipa – Passava muitos fins de semana com a minha avó, e havia sempre visitas. Amigas da avó que passavam lá três meses. Tinham de ter o seu espaço, não podiam dormir no sofá da sala.

Ana – Tinha uma amiga que estava a hesitar entrar ou não para o carmelo. Esteve seis meses lá em casa [a pensar]. Por acaso entrou, e ainda lá está. 

 

Era uma maneira de desindividualizar a mulher (não lhe atribuindo um espaço próprio)?

Ana – Acho que não. Se fossem dois rapazes e uma rapariga, os rapazes partilhariam o quarto.

Filipa – No caso da casa da minha avó, acho que não. E em casa, o seu espaço de trabalho era muito importante.

Ana – A minha mãe tinha o escritório dela, o meu pai tinha o escritório dele. Ambos eram jornalistas.

 

Filipa, o seu quarto.

Filipa – Para uma pessoa, para uma mulher poder criar tem de ter aquilo que a Virginia Woolf enumerou: um espaço, condições económicas para ter tempo, tempo. Sarah Afonso [mulher de Almada Negreiros] disse que deixou de pintar porque não tinha um quarto. Foram fundamentais para mim os muitos quartos onde vivi, e que eram individuais (excepto aquele que partilhei com o meu irmão até aos 10 anos, quando fomos viver para Madrid).

 

É um pequeno mundo que ali está circunscrito?

Filipa – Sim. Não podia ser um espaço neutro. Cada vez que chegava a um quarto, mesmo que ficasse lá um mês, tinha que o encher de mim própria.

 

Falaram as duas da importância de ter um espaço próprio, mas não o descreveram.

Filipa – O meu espaço tem livros, imagens. É importante ter as paredes cheias. Nos quartos onde não podia pendurar quadros, tinha posters. Posters de exposições, de artistas. Um que esteve anos e anos comigo: “O Sonho de São José”, da Paula Rego (com uma menina a pintar um senhor velho). “Lisbon in London” do Daniel Blaufuks (as minhas cidades afectivas são Londres e Lisboa). Um do Kandinsky.

Ana – Eu tenho uma relação muito distante com os objectos. Esqueço-me! Os objectos existem para mim quando estão na minha presença. Claro que personalizava o espaço. Sempre tive música no quarto. (Antes de fazer a quarta classe, os meus pais perguntaram-me que presente queria se passasse; escolhi uma telefonia.) Agora, naquele que é, e será, o meu último escritório, tenho imagens. Desenhos feitos pelos meus netos, imagens da minha avó, da minha bisavó, coisas relacionadas com a família.

Filipa – Quando voltámos para Lisboa, e fomos para a casa onde vivi até aos 22 anos, a mãe tinha o seu escritório, o pai tinha o seu, eu tinha um quarto, o [meu irmão] António tinha o seu. Jantávamos juntos, mas depois cada um ia para o seu espaço. Não íamos ver televisão. Nós víamos televisão nas eleições...

 

Podem evocar a sua mãe/a sua avó? Foi fundamental no modo como aprenderam a ser mulheres. E sendo a mesma pessoa, o retrato da Filipa e o da Ana não serão coincidentes.

Ana – Nem toda a gente acha que a mãe é uma pessoa especial. Os psicanalistas explicam que há filhas que fazem os possíveis para ser o mais distantes e diferentes da mãe, de tal modo odeiam a mãe. Eu não tive esse percurso. Tive a sorte de ter uma mãe especial, e um pai também especial (sobre os quais publiquei um livro, Arcádia: Notícia de uma Família Anglo-Portuguesa). A minha mãe era uma inglesa casada com um português – com tudo o que isso implica. Adoptou o país. Mesmo depois de viúva, ficou cá, apesar de ir a Inglaterra de dois em dois anos!, o que já era considerado extraordinário.

 

Como é a história de amor deles?

Ana – Não se conheceram em Londres, onde o meu pai viveu. O meu avô tinha estudado e trabalhado em Inglaterra; e de tal modo adorava a cultura inglesa que mandava os filhos (isto no princípio do século XX) para colégios internos em Inglaterra, aos sete, oito anos. Foram os rapazes e as raparigas; só não foi a mais nova porque entretanto houve a grande depressão e já não havia dinheiro. O meu pai ficou em Inglaterra até 32. Mas vivia num mundo distinto do da minha mãe, e nunca se cruzaram.

A minha mãe veio passar umas férias a Portugal em 1938. Com o pai, que era jornalista do Times. A minha avó, que era escritora, estava a acabar um livro e não veio.

 

Antes de casar, a sua mãe trabalhava?

Ana – Tinha um loja de antiguidades e fazia trabalho social. Era uma católica convicta. Nas férias em Portugal conheceu o meu pai através de um primo inglês. Foi o meu pai que os levou a passear. Apaixonaram-se em 15 dias! Como o mundo mudou... A minha mãe voltou para Inglaterra de barco e começaram a namorar por carta. (Ainda as tenho.

 

Que é que sentiu quando as leu?

Ana – Gostei muito de ver que eram duas almas que se encontravam.) Casaram em Londres dois meses e meio depois. A minha mãe tinha 30, 31 anos, o meu pai 39.

 

Tinha um discurso feminista?

Ana –Nunca me disse: “Eu sou feminista”. Mas actuava como tal. Hoje há mulheres que dizem: “Não sou feminista”. E contudo são. Ou seja, assumem a sua autonomia, individualidade, identidade. Assumem o seu direito a fazer o seu percurso.

 

Foi educada para ter um percurso autónomo, individual, assumindo o direito a fazer o seu percurso?

Ana – É curioso. Os meus pais acharam que eu ia casar, que não ia ter uma carreira profissional. Ou que, se ia ter, ia ser uma coisa vaga. Aprendi a dactilografar. Mas ao meu irmão disseram: “Tens que ir para a universidade” .

 

Como é que a Filipa olhava para o mundo da avó, para a avó?

Filipa – Era um outro mundo. Uma casa com jardim. Em Lisboa, com os meus pais, vivia num andar. A avó estava sempre a trabalhar. Quando meu avô morreu, o jornal (Anglo-Portuguese News) passou a ser feito lá em casa. Havia jornais por todo o lado. E cães, cães-salsicha. A avó não era de abraços. Mas lembro-me de poder dormir na cama dela.

Ana – Ah, quando eu não estava... [riso]

Filipa – Associo à minha avó a não-preocupação com o que os outros pensam. Penso nisto quando a minha filha mais velha, que tem 10 anos, se preocupa comigo: “Ai mãe, não se vista assim”.

Ana – Não havia o “parece mal”.

 

Mas isso é marca de ser estrangeirada.

Filipa – É verdade. Só muito mais tarde conheci esse mundo do “parece mal” e do “deve ser assim”. Portanto era um mundo muito aberto e diverso.

 

A vida da sua avó mudou muito depois de enviuvar?

Filipa – Não. Continuou com uma vida social e profissional intensa.

Ana – Começou a viajar. Como o meu pai era doente e muito dependente dela...

 

Dependente em que sentido?

Ana – Emocionalmente e até fisicamente. Não conduzia. Não podia usar muito os olhos e era jornalista. Durante anos, a seguir ao jantar, a minha mãe lia-lhe livros.

 

Na maioria das famílias portuguesas a dependência era inversa. Era a mulher que dependia do marido. E nisso há para si toda a uma aprendizagem do que são as relações conjugais, do que é uma relação homem-mulher, do que é permitido à mulher, do que ser mulher representa.

Ana – Não tinha nada a ver [o que se passava em minha casa] com essa imagem. Sempre trabalhei, antes e depois do casamento, e a partir de certa altura comecei a viajar. O meu marido sempre me encorajou na minha carreira. A minha mãe dizia-me: “Como é que o teu marido, que ainda por cima é português... O teu pai teria ficado incomodado se eu viajasse tanto como tu”.

 

Queria chegar a essa contradição, entre um espírito livre, avant-garde,  e depois, por exemplo, não esperar um destino académico da filha, ou estranhar que viaje tanto. É uma forma de esperar que a realização passe pela via da família, e não pela do trabalho.   

Ana – Sim, esperavam que eu fosse secretária, até casar. Depois, passaria ao papel de esposa.

Filipa – Penso que era a força de certos preconceitos sociais, [que se impunham]. Porque a própria avó já tinha crescido com uma mãe e uma avó que trabalharam toda a vida.

Ana – Quando publiquei o meu primeiro livro – tarde, em 1987 – Mulheres em Discurso, a minha mãe escreveu-me uma carta: “Que feliz que eu estou porque estás a seguir a tradição familiar”. Eu colaborava com eles para o jornal, corrigia provas, escrevia artigos, cheguei a ser secretária do meu pai (foi assim que comecei a minha carreira, aos 17 anos [riso]).

Filipa – Nem sabia que a avó lhe tinha escrito essa carta.

 

O facto de ter casado com um português, e de ter vivido em Portugal, aos olhos da sua mãe confinou-a ao que era o desígnio das mulheres portuguesas?  

Ana – Absolutamente, sim. Quando pela primeira vez fui a uma casa de fados, para minha grande fúria, a minha mãe foi, também. Para ser chaperon. Não queria que eu chocasse com as convenções portuguesas.

Filipa – Ela tinha interiorizado essas convenções, também.

 

Quando ouve isto, parece um mundo longínquo. E era apenas o mundo da sua mãe. O que mudou nos comportamentos sociais no espaço de uma geração...

Filipa – Eu tinha todos os mundos abertos. Estudar e ir para a universidade era completamente natural. Não havia nenhuma diferença entre a minha educação e a do meu irmão. Lembro-me de pedir no Natal um comboio eléctrico e não havia comentários acerca daquilo que uma rapariga ou um rapaz deviam fazer.

 

Partilharam o mesmo quarto até aos 10 anos...

Ana – Mas isso foi falta de espaço (e excesso de colecções do teu pai!).

Filipa – Tenho pensado neste assunto, por causa do livro (A Arte sem História) e por causa das minhas filhas. Uma pessoa só é, e só sente que há um caminho, se outras pessoas o trilharam. Mas o género continua a marcar muito. Por exemplo, olhe para o espaço que é ocupado pelos homens e pelas mulheres na comunicação social. Nas televisões, quem é que é chamado a comentar a crise? As redacções estão cheias de mulheres, mas as colunas de opinião (no Expresso, na Visão, no Público) são sobretudo de homens. Qual é a mensagem que está a ser transmitida às minhas filhas?

Ana – E aos meus netos? O meu filho só tem filhos.

 

Qual é que pensa que é a mensagem?

Filipa – Os homens falam de assuntos importantes. A geração dos 60 anos foi substituída pela dos 40 e 50, mas não há uma consciência de género, um questionamento das coisas. O mesmo digo em relação à academia. Organizam-se conferências e convidam-se 30 homens.

Ana – A maioria dos doutorados em Portugal são doutoradas. A desculpa de que não há mulheres não serve.

 

Isso leva-nos a um dos pontos centrais da entrevista: a discussão das questões de género e ao feminismo. Em 2013 achamos que tudo está adquirido.

Ana – E não é verdade. Ainda esta semanas duas mulheres foram assassinadas pelos maridos. A violência, que assume muitas formas – a prostituição, a violência doméstica, os assassinatos –, [mostra que nem tudo está adquirido].

Filipa – A exposição física do corpo das mulheres, a forma como os homens falam das mulheres, em todos os meios sociais e intelectuais...

 

Quando é que a sua vida foi marcada por ser mulher? No concreto, o que é que deixou de fazer por ser mulher?

Ana – Deixei de fazer coisas pela minha personalidade, e não pelo facto de ser mulher. Por não ser suficientemente aventureira, inovadora. Os meus pais nunca me impediram de viajar (e até aos 21 anos não podia sair do país sem autorização explícita do meu pai, reconhecida pelo notário). Aos 18 anos, depois de um colégio interno inglês, fui estudar sozinha para Paris. Mas essa pergunta é uma armadilha. Há muitas mulheres que dizem: “Eu cá nunca me senti discriminada, não há discriminação”.

Filipa – É importante não tomarmos o nosso exemplo individual. Não corresponde à generalidade. Em que é que o ser mulher marcou a minha vida? Marcou na rua. Quando voltei de Madrid com 14 anos ia sozinha para o Instituto Espanhol, que era longíssimo, e foi um choque a agressividade dos homens. A meterem-se. As coisas ordinárias que diziam. A ideia era: a rua não é minha. Vejo isso como uma agressão.

 

Alguma vez se vestiu de uma maneira diferente, limitou ou contrariou um gosto, por pensar que, vestindo certa roupa, ia ser objecto de olhares ou comentários desagradáveis?

Filipa – Sim. Lembro-me de pensar nisso na adolescência.

Ana – A mim os meus pais diziam-se: “Não podes voltar sozinha que é perigoso”.

Filipa – E não diziam isto ao meu tio Paulo.

Ana – Tu e o teu irmão sabem tratar da vossa vida autonomamente. O meu filho sabe tratar dos filhos...

Filipa – Muito mais, até, do que o nosso pai. As contradições: era a minha mãe [feminista] que tratava de mim, que me levava ao médico. Era para a Comissão da Condição Feminina que eu ia quando acabava as aulas. Não ia para o trabalho do meu pai. Mas isto já não aconteceu comigo, com o meu marido e com as minhas filhas. Não quer dizer que não aconteça com muitíssimos casais meus amigos. Conheço muitíssimas mulheres que se divorciaram porque bateram o pé e disseram: “Chega de ser eu a trabalhar fora, e a trabalhar muito mais em casa e a tomar conta das crianças”.

Ana – Eu assumi este duplo papel [de trabalhar fora e em casa, e tomar conta das crianças].

 

Diferentes focos de discriminação: o corpo da mulher, a sexualidade, a maternidade. O grande conflito continua a ser entre o espaço da família e o espaço social?

Filipa – Sim. Essa é a grande mudança que é preciso fazer no quotidiano. Há um grande desequilíbrio. Espera-se mais das mulheres (e só falando do nosso mundo português). Mesmo com maridos educados e quando ambos têm uma profissão igualmente exigente. Quando um dos elementos tem de dar mais um passo, os homens continuam a ter mais espaço para o fazer. Espera-se que as mulheres abdiquem disso [em prol da família]. Os homens não dizem nos trabalhos que têm de sair mais cedo porque têm de levar os filhos ao médico.

 

Se dizem, são desconsiderados pelos seus pares?

Filipa – São. Lembro-me de estar num jantar e de ouvir um advogado dizer que se alguma vez um dos advogados do seu escritório pedisse os 15 dias de paternidade [a que tem direito pelo nascimento da criança] o despediria imediatamente. Era um homem de 50 anos. Espera-se que as mulheres trabalhem menos, e que fiquem em casa a tomar conta dos filhos quando eles adoecem. Mas se os homens o fizessem mais, seria igual contratar um homem ou uma mulher. Faz-se como se as crianças não existissem. Marcam-se reuniões para as seis, sete da tarde. Porquê? Porque não têm de ir para casa, porque as mulheres já estão a assegurar essa parte (os banhos, os jantares).

 

Os homens olham para esta conversa como sendo “a conversa chata das mulheres?

Filipa – Esse é um dos estigmas do feminismo. É muito mais fácil dizer que uma coisa é chata do que mudar ou questionar as nossas formas de fazer as coisas.

Ana – A conversa é chata. A situação é chata!

 

Vamos à definição de feminismo – essa palavra tão chata...

Filipa – ... e assustadora.

Ana –  Não há um feminismo, há feminismos. É uma palavra que surgiu no século XIX. (Tenho uma bisavó, sobre a qual publiquei uma biografia, que era claramente feminista e nunca a palavra foi usada.) A minha definição é muito alargada. Significa um movimento social, talvez dos mais importantes do século XX, porque transformou, e está a transformar, as relações entre as pessoas de uma forma profunda. Os feminismos são uma caminhada importantíssima e baseada numa justiça que o ser humano busca desde sempre: a da igualdade. A de as pessoas serem consideradas porque são pessoas e não porque são mulheres ou homens.

 

Educou o seu filho para ser feminista?

Ana – Sim. Os homens podem ser feministas. Podem e devem ser se aspiram a um mundo melhor.

 

Um dos argumentos usados pelos detractores do feminismo é que são as mulheres que educam estes homens que ficam no trabalho até às nove ou que despedem outros porque eles usam a licença de paternidade.

Filipa – Usam esse argumento e isso é verdade. Há muitas mulheres que não são feministas e que educam os seus filhos para reproduzirem os modelos que elas próprias conheceram. É muito mais fácil reproduzir o que absorvemos. A vida torna-se mais complicada quando temos dúvidas em relação a tudo. O [filósofo e economista] John Stuart Mill tem uma frase muito curiosa, no século XIX: condenou o patriarcado e disse: “Não querem só que as mulheres sejam inferiores. Querem que elas estejam felizes sendo inferiores”. Eu quero ter um escravo, mas um escravo feliz. Não quero um escravo a chorar pelos cantos...

 

Que aceite a sua condição, e viva feliz nisso?

Filipa – Sim. Há muitas mulheres que têm medo do feminismo, que o associam a tudo aquilo a que eu não associo: que os homens não vão gostar delas por serem feministas. Na academia, os temas de mulheres continuam a ser malditos.

 

Malditos?

Filipa – Malditos e menorizados. Se perguntar, ninguém lhe diz isto. Mas é tão evidente... Como se esses temas as subalternizassem. Nas artes, a mesma coisa. Há mulheres que não querem ser associadas a exposições de mulheres porque temem que isso as secundarize. O cânone é sempre masculino. Quando as feministas nos anos 70 disseram: “Vamos descobrir as mulheres”, a atitude passou a ser: “Pronto, são assuntos de mulheres”. O Expresso está agora a escolher as pessoas mais influentes do século; em cada 25 pessoas há duas mulheres. Toda a História e a História de Arte que aprendi é feita por homens.

 

Como é que olham para a desconfiança que há em relação às feministas? É fácil rotulá-las, chamar-lhes lésbicas, histéricas, as que queimam sutiãs, as machonas (palavra tão pesada)...

Filipa – Exactamente, usam essa palavra para dizer que não são mulheres. Dizem que o feminismo é contraditório com feminilidade. Talvez por ter crescido numa casa feminista foi um choque para mim constatar que essa é a ideia que se tem dos feminismos. Para mim sempre foi uma palavra feliz, ligada aos direitos humanos. Feminismo não é o contrário de machismo.

Ana – “Ah, eu não sou nem feminista nem machista.” O machismo é uma coisa negativa que pretende que os homens sejam superiores às mulheres.

Filipa – O feminismo não diz que as mulheres são superiores. Mas este é o preconceito que lhe está associado. E mesmo aqueles que poderiam contestá-lo não o fazem porque não querem estar associados a este discurso.

 

Qual é a raiz deste anti-feminismo?

Ana – Há uns anos pediram-me para escrever sobre o tema e decidi investiga-lo. Concluí que há três grandes pilares: os políticos e os pensadores (no século XIX há textos inacreditáveis!, “as mulheres têm as cabeças mais pequenas”...), alguns sectores das religiões (as religiões monoteístas têm uma tradição de exclusão violenta das mulheres), e as mulheres. Mulheres que são activamente anti-feministas (educando os seus filhos no machismo, nomeadamente).

 

Gostava de voltar à vossa história familiar e a um dos pilares do anti-feminismo, a religião. A religião tem uma grande importância na vida da Ana. Na nossa tradição católica, há desigualdades evidentes. As mulheres continuam a não ser ordenadas.

Ana – Fui educada num catolicismo não-beato, com responsabilidade social; não quer dizer que fosse revolucionário. Com um grande cuidado catequético. Embora tenha estado num colégio em Inglaterra, mais anglicano do que o St. Julian’s School [em Carcavelos], onde estudei dos sete aos 15 anos. Quando fiz a primeira comunhão, tive aulas de Religião com uma freira. Aulas individuais. Mas questionei desde pequena (apesar de não ser discriminada por ser menina em casa) a desigualdade social das mulheres e dos homens. Dentro da igreja, só questionei mais tarde.

 

Que atitude tinha a sua mãe?

Ana – A minha mãe, apesar de achar que os padres deviam poder casar, que havia muitas coisas a mudar, a ordenação das mulheres... Não era que militasse contra, mas para ela era impensável. Tal como lhe custou a ela e ao meu pai as alterações litúrgicas, a perda do latim a seguir ao Vaticano II.

Filipa – As mudanças custam. Os seres humanos são muito conservadores.

Ana – Aos 22 anos entrei para a [cooperativa] PRAGMA. O presidente era o Nuno Teotónio Pereira. Era o grupo dos católicos progressistas. Mais tarde estive na criação do grupo reformista Nós Somos Igreja, que começou com uma petição enviada ao Papa João Paulo II; propunha a transformação de uma igreja rígida e estratificada numa comunidade de crentes aberta, em igualdade, a todas as pessoas. Dizem-nos: “Em 17 anos [de Nós Somos Igreja] não mudou nada”. Mas quando morreu João Paulo II os meios de comunicação social discutiam a ordenação das mulheres, a contracepção, o aborto, os padres celibatários...

Filipa – Antes das mudanças vem sempre isto: o debate.

 

Filipa, que importância teve a religião na sua vida?

Filipa – Tive uma formação católica, mas a religião não tem na minha vida a importância que tem na vida da minha mãe ou que teve na vida da minha avó. Tem o valor da atenção aos outros, está associada a uma forma de estar na vida. A minha mãe tem uma postura mais activa, no sentido em que diz: “Eu não concordo e quero mudar”. Eu não. Tenho uma relação difícil com o facto de as mulheres não poderem ser ordenadas, com a forma como a Igreja lida com a homossexualidade...

Ana – E com a sexualidade.   

 

Em especial com a sexualidade das mulheres?

Filipa – Sim, em tantas religiões. Afastei-me, em especial quando vivi em Itália, onde a religião católica é mais tradicional do que cá (não sei se é a proximidade com o Vaticano). A minha fé está “lá”, mas pouco vivida e pouco alimentada.

 

A história da pintura está cheia de pintura religiosa. Aí, a representação da mulher é sobretudo como a mãe.

Ana – Uma mãe virgem.

 

A mulher foi também pintada como musa. Quais são os modelos mais constantes?

Filipa – As mulheres são muito centrais e visíveis na representação, mas não enquanto criadoras. Têm um papel passivo.

 

Esta reflexão está no centro do seu livro A Arte Sem História – Mulheres e Cultura Artística (Séculos XVI – XX).

Filipa – São muitas vezes representações muito sexualizadas. São pintadas, esculpidas, filmadas por homens, pertencem ao espaço de criação dos homens, o olhar é o dos homens. As abordagens feministas da História de Arte vieram chamar a atenção para isso e deixam perceber a ausência das mulheres enquanto criadoras. Se elas não podiam frequentar um atelier de artista (a não ser quando eram filhas de artistas)...

 

Tem na parede uma imagem da pintora Sofonisba Anguissola. No seu livro fala dela e frisa que, quando fez um auto-retrato, na verdade retratou-se de uma maneira enviesada. Não era ela que se pintava, mas um homem que a pintava a ela.

Filipa – Gosto muito dessa pintora. O pai dela, por acaso, não era artista. Mas só tinha filhas e por isso investiu na educação delas. Há pintoras e músicas na família. Era muito comum no século XVI, em Itália, as mulheres representarem-se a si próprias. Porquê? Era o que podiam pintar. É mais fácil estar em casa e pintar-se a si própria do que ir para uma igreja pintar um altar, numa terra diferente. Isso implica mobilidade, autonomia, conviver com homens desconhecidos.

 

As mulheres são muitas vezes penalizadas socialmente, e muito pelas outras mulheres, quando assumem comportamentos alternativos. A que é mãe e continua a fazer uma vida de solteira, ou que está ausente, é considerada uma “má mãe”.

Filipa – Continua a ser muitíssimo verdade. O homem vai estudar, trabalhar, fazer o seu percurso para fora, e não é criticado como uma mulher é.

 

Outra ideia feita: a de que as mulheres são terríveis umas para as outras.        

Ana – A Maria de Lourdes Pintasilgo dizia que essa fama deriva disto: fomos educadas com a ideia de que temos que caçar o homem. Caçar um bom marido. E as outras mulheres podem ser rivais. Foi-nos incutida uma ideia de concorrência.

 

Começou por falar da competição que as filhas têm com as próprias mães. Num plano mais profundo, psicanalítico, pode passar por aí também esta rivalidade entre mulheres?

Ana – Não sei. Nem sei até que ponto isto é uma ideia feita...

Filipa – Estas coisas ouvem-se quando as mulheres estão a ocupar espaços que eram masculinos. Quando uma mulher, no local de trabalho, tem características negativas atribui-se isso a ser mulher. Ditadores: ninguém diz que são ditadores por serem homens. Se tem poder, seja a Thatcher seja a Merkel, ser mulher já entra [na apreciação]. Nem que seja para dizer que tem poder porque se aproximou das características masculinas. Num mundo onde não houvesse discriminação de género essas questões não se punham. 

Na minha experiência, no instituto de investigação onde trabalho, sinto que há uma enorme cumplicidade e solidariedade entre as mulheres. Tenho grandes amigas entre mulheres com quem também estou “a concorrer”.

Ana – Claro que há mulheres insuportáveis, como há homens insuportáveis. Há pessoas insuportáveis.

 

Maria de Lourdes Pintasilgo, Maria Helena Rocha Pereira, Isabel Magalhães Colaço: três mulheres que foram pioneiras em Portugal. Não por acaso, não casaram nem tiveram filhos.

Ana – A Leonor Beleza, com quem tive também o privilégio de trabalhar, foi a primeira mulher (e tem 62 ou 63 anos) que, ao sair da universidade, foi convidada para assistente. Isabel Magalhães Colaço teve de se doutorar antes de ser convidada. Portanto isto é tudo tão recente... Ajudou, com certeza, o facto de não terem filhos para chegar onde chegaram.

Filipa – Muitas destas mulheres artistas, no século XVI ou no século XX, foram mulheres que, ou estavam sozinhas, ou tinham maridos que o permitiram e as apoiaram. O homem que se tem ao lado é determinante.

 

O marido de Helena Almeida apoia-a e fotografa-a. O Alberto Luís dactilografava os manuscritos de Agustina.

Filipa – O Arpad e a Vieira da Silva são o exemplo de um casal em que um não anula o outro. Estas mulheres tiveram homens especiais, que não se sentiram ameaçados ou lhes deram espaço para crescerem enquanto criadoras.

Ana – Uma escritora portuguesa, de 50 e tal anos: um dos seus maridos não a deixava escrever. Divorciou-se. Noutros tempos talvez não pudesse fazê-lo e a sua voz apagar-se-ia. Aconteceu muito ao longo da História.

 

Voltemos ao vosso percurso pessoal, ao concreto, lugar onde estão tantas contradições. Foram viver para Madrid nos anos 70. Porquê?

Ana – O meu marido, que é professor universitário, foi convidado para conselheiro cultural da embaixada. Fui atrás dele. As crianças estavam numa idade ideal (sete e dez anos), ainda não se importavam de ser transplantadas de país. Em Madrid continuei os meus estudos universitários e comecei a escrever. Tive, como a Virginia Woolf, tempo e um quarto. Escrevi o meu primeiro livro porque o Estado português me deu essa oportunidade, atribuindo-me uma bolsa. Mulheres em Discurso foi o meu primeiro livro.

 

Já comentou com as suas filhas que as mulheres em Portugal, até 1969, precisavam da autorização dos maridos para viajar para o estrangeiro?

Filipa – Para elas é um mundo longínquo. Tento que tenham uma consciência feminista. Como tento que tenham uma consciência ecológica. Como tento que não tenham medo da crítica, de ser a voz dissonante num grupo. Como mãe, é muito importante transmitir a ideia de não-preconceito, de abertura aos outros seres humanos.

 

A Filipa viveu anos em Florença e em Londres. Essas mudanças foram uma escolha?, foi atrás do seu projecto de vida, ou foi atrás do seu marido?     

Filipa – É curiosa essa pergunta. A resposta é: as duas coisas. Quando fui bebé para Paris, era o projecto de vida dos meus pais. Com 10 anos, para Madrid, também era o projecto de vida dos meus pais.

Ana – Era o projecto de vida do pai.

Filipa – Quando voltei de Madrid, aos 14, decidi interiormente que queria viver fora. Quando comecei a fazer um doutoramento em Londres, aos 23, era um projecto individual. Quando conheci o meu marido estava há um ano em Londres; a última coisa que queria era um namorado em Portugal. Aliás, sempre achei que, se alguma vez me casasse, ia casar com um estrangeiro.

 

Porquê um estrangeiro?

Filipa – Porque, achava eu, me identifico muito mais com a forma de pensar. Foi tudo ao contrário. [riso das duas] Mas lembro-me de o meu pai ter esse medo! De que eu fosse abandonar o doutoramento para me casar! Nunca mo disse, mas eu percebi. Fiquei chocada com o facto de o meu próprio pai pensar isso de mim. Não me conhecia.

Ana – A Filipa fez questão em se doutorar antes de casar.

Filipa – A seguir tive uma bolsa de pós-doutoramento, que permite bastante mobilidade. O meu marido ganhou um concurso em Florença e fui atrás dele. Confrontei-me muitas vezes com essas contradições. Escrevi um livro, comecei outros dois. (Este livro das mulheres artistas também foi começado lá.) De repente estava eu ali, acabada de doutorar, com vontade de fazer coisas, e era “a esposa” do senhor professor.

 

Não havia mulheres na universidade?

Filipa – Era uma universidade tradicional, onde só se fazem doutoramentos, muito masculina. Que homens há dispostos a abdicar das suas carreiras para acompanhar a mulher que vai estudar? Obviamente há menos mulheres a candidatarem-se. Eu, a feminista, fui a um almoço de “spouses” [esposas]! Conheci tantas mulheres que abdicaram das suas carreiras para se adaptarem...

 

O que é que fez?

Filipa – A minha forma de subverter essa condição foi levando a sério o meu trabalho. Mas não foi fácil.

 

Já com crianças?

Filipa – Nasceram lá. Fiz questão que houvesse a tal partilha. Se eu parava de trabalhar para as ir buscar, exigi que o meu marido também o fizesse.    

Ana – Depois foste para Londres e ele foi atrás.

Filipa – Depois dos oito anos em Florença fomos, por causa de um projecto meu, para Londres, um ano.  

 

A Filipa não adoptou os apelidos do seu marido. Ponderou fazê-lo?

Ana – Eu adoptei! Se fosse hoje, não adoptava. Na altura era aquilo. Nem pensei. Penso que para o meu marido, não sendo ele machista, era importante adoptar o nome dele.

Filipa – Nunca me passou isso pela cabeça. Já tinha a minha identidade, não faria qualquer sentido. E para ele também não.

 

Profissionalmente assina Filipa Lowndes Vicente.

Filipa – Não por acaso, Lowndes é o apelido da minha mãe e da minha avó.

 

O livro A Arte Sem História é dedicado à sua mãe, “... sem a sua educação e inspiração feministas, este livro nunca teria sido escrito.” Já disse que o começou em Florença. Porque é que pegou nele novamente?

Filipa – A verdade é que foi o cancro da minha mãe que me deu o incentivo para acabar o livro. Tinha-o posto de lado para dar prioridade a outros projectos de investigação. A doença da minha mãe inverteu as prioridades. Sempre pensei dedicar-lho e queria que ela o tivesse nas mãos e pudesse ler as palavras que lhe dediquei. A doença tem-nos marcado e unido. Falamos mais sobre tudo, sem tabus. Ela resiste à doença e desafia-a, contra todas as regras – até nisso vai contra as regras. O livro é uma forma de falar do enorme amor e admiração que tenho pela minha mãe. Ainda maior, se possível, ao ver a serenidade e ao mesmo tempo a energia, o humor!, com que tem convivido com a doença.

Ana – Eu queria dizer que é um privilégio e uma benção ter a Filipa como filha. Tenho imenso orgulho pelo facto de ela ser a quinta geração em linha recta de mulheres da família que escrevem, e com uma qualidade e profundidade raras. Considero A Arte sem História uma peça pioneira que enriquece a produção dos estudos sobre as mulheres no nosso país. Quanto ao facto da minha doença ter estimulado a Filipa a terminar o livro, fiquei obviamente muito contente com a decisão dela.

 

Onde vai buscar esta coragem de que fala a sua filha para lidar com o doença?

Ana – Ter um cancro é uma experiência que muitíssimos doentes vêem como uma nova e não necessariamente terrível fase da vida. Pertenço a um grupo de auto e interajuda de doentes oncológicos e é frequente ouvir testemunhos agradecidos do género: “Foi esta doença que me fez mudar de trabalho, de marido, de país, de rumo de vida”. Tenho fé, mas sei que quem a não tem pode ter as mesmas experiências que eu: encarar a mortalidade mais ou menos próxima, ninguém sabe, com naturalidade, e desfrutar de novas amizades que se podem encontrar, inclusive, entre os profissionais de saúde que frequentemente nos circundam. A doença aproximou-me da minha família e das minhas amigas e amigos. A Filipa tem sido uma aliada extraordinária neste caminho.

 

 

 Publicado originalmente no Público em 2013

 

 

 

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