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Anabela Mota Ribeiro

Annie, Susana, Natalia, Tatiana: Read(S)

10.09.22

Esta manhã acordei e comecei um livro novo da Annie Ernaux. Gosto de reservar a primeira hora do dia para ler o que me apetece ler, aquilo que não está ligado ao meu trabalho, ainda que alimente e apareça sedimentado no meu trabalho.

Annie Ernaux é uma escritora francesa que nasceu na Normandia em 1940. Nas suas notas biográficas, sumárias, explica-se que cresceu numa família humilde. Os pais tinham um café. Ela fez o que se pode chamar de migração de classe por via dos estudos. Foi a primeira pessoa da família a frequentar o ensino superior. Em alguns dos seus livros, além desta geografia, e da evocação desse tempo, que é o da Segunda Guerra Mundial e do pós-Segunda Guerra, em que a escritora nasceu e cresceu, revela-se uma geografia mais circunscrita e um contexto histórico mais preciso. Tudo se passa entre as paredes do pequeno negócio dos pais, tudo se passa na relação com o que está fora, com as outras classes sociais, com um horizonte de futuro que não coincide com o dos pais e que é alterado pela instrução daquela filha única. No cerne dos livros: o desnível, o desencontro, a incomunicação que se estabelece entre a autora e a família. Sobretudo, no âmago do texto está aquilo que domina a nossa vida — a de todos — e de que é muito difícil falar: a vergonha, o medo, o desamparo, a solidão, o desejo.

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Estou a ler La Honte em francês (sou ainda de uma geração que aprendia francês na escola). A primeira frase diz assim: “O meu pai quis matar a minha mãe num domingo de Junho, no começo da tarde”. E depois: “Eu tinha ido à missa do meio dia menos um quarto, como habitualmente. Devia trazer bolos da pastelaria instalada na cidade comercial, um conjunto de edifícios provisórios edificados depois da Guerra...”. E prossegue, escrevendo com uma faca. A imagem da escrita como uma faca, e não só com uma faca, é da própria Annie Ernaux. Título de um livro de entrevistas: L´écriture comme un couteau.

Foi a minha amiga Susana Moreira Marques, que considero uma das melhores escritoras de língua portuguesa, que me deu o meu primeiro livro da Annie Ernaux. As duas escrevem num tom e num estilo que agora se denomina: auto-ficção. O substracto biográfico está em cada página, na experiência do quotidiano, que é a do sujeito, a da banalidade. É uma pulsão difícil de resumir numa palavra, mas que não é seguramente narcísica ou essencialmente narcísica. Tem que ver com a escrita como uma dobra, uma faculdade de nos vermos de fora, tornarmo-nos personagem de ficção, fingirmos uma dor que deveras sentimos. Estarmos no palco e na plateia, sermos singulares e universais.

Esta alusão a Fernando Pessoa e ao seu famoso poema Autopsicografia (parêntesis para recordar os primeiros versos: o poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente) resulta de ter lido a magnífica Biografia de Pessoa de Richard Zenith. Li como quem estuda as 1185 páginas deste projecto que demorou uma vida a ser feito. E, na vida de Pessoa, impressionou-me saber que os famosos heterónimos apareceram, com outra constituição, outra consistência, outro recorte, outro nome, nos anos de formação do poeta. O primeiro chamava-se Chevalier de Pas. Pessoa tinha cinco ou seis anos. Era um amigo imaginário. Pas, em francês, significa não e também passo. Os investigadores dividem-se quanto ao significado deste Pas. Um cavaleiro que anda ou um cavaleiro que diz, e através de quem se diz, não? O que nos interessa é a construção de uma persona imaginária. E um hábito do jovem Fernando: escrever cartas a si mesmo.

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Escrever cartas a si mesmo! Quem aqui já escreveu cartas a si mesmo? Não é escrever um diário. É escrever cartas, pô-las no correio, com selo, fantasiar uma surpresa quando se recebe e lê o conteúdo. Bem sei que isto é um tempo, e que agora não se escrevem cartas nem mandam telegramas. A troca epistolar faz-se num ápice, na superfície árida do ecrã. Ganhamos velocidade, imagem, instantaneidade. Também perdemos algumas coisas, como por exemplo a caligrafia, a rasura do texto, a hesitação plasmada na página.

Eu já escrevi cartas a mim mesma quando tinha treze anos. Não as tenho porque deito tudo fora, mas imagino que falasse das inquietações existenciais que nos afligem quando deixamos a infância e nos interrogamos: afinal, porque é que nasci?, qual é o meu lugar no mundo?, qual é o sentido de nascer para viver já morrendo um pouco? Afinal, quem é que eu sou? Essa interpelação que fazemos, e que é filosófica, é o caderno sobre o qual os escritores escrevem. Escrevemos cartas, diários, poemas, romances, ensaios: escrevemos para perguntar, manusear uma faca, com a perícia e o risco de uma faca, cortamo-nos e suturamos as feridas no gesto da imaginação e da memória. Escrever é isso. Ler também é isso. Indissociáveis como duas mãos.

Ainda que possamos ler sem escrever, não podemos escrever sem ler. E ler sem escrever desencadeia, de qualquer modo, uma conversa íntima. Não ficamos os mesmos quando, no silêncio e na intimidade da leitura, nos projectamos no que lemos. O diálogo pode assumir a forma da rejeição, mas ler é estar em relação. Para começar, connosco próprios.  

A Susana Moreira Marques escreveu, nos seus dois livros, sobre morte e maternidade. Gosto especialmente do segundo: Quanto tempo tem um dia – experiências de maternidade.

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Escrevi, durante a pandemia, um diário. Na verdade, um livro de auto-ficção que talvez seja publicado, talvez não. O que importa é que o escrevi. Foi uma âncora, um processo catártico, páginas de perplexidade, incómodo, também de algum amparo. 

A Annie Ernaux ajudou-me no segundo confinamento, como a Natalia Ginzburg me salvou no primeiro confinamento. Foram períodos de imenso sofrimento, foi uma experiência que ainda não sabemos dizer, que esfacelou as nossas vidas e cuja reconstrução vai demorar. Estamos nos escombros, ou, noutra imagem, naufragados. Fernando Pessoa escreveu, muito jovem, numa carta: “Sinto-me tão sozinho como um navio naufragado no mar”.

Natalia Ginzburg é uma escritora italiana que viveu entre 1916 e 1991. Eu tinha a sua obra magistral Léxico Familiar, que havia comprado no Brasil, sem ler. Encontrei-me com ela nos primeiros dias em que estivemos fechados em casa. Uma outra amiga escritora, judia como Natalia Ginzburg, a Tatiana Salem Levy, fez chegar a minha casa um outro livro, para saciar a minha necessidade de continuar a ler a escritora italiana. Nesse tempo, tudo estava fechado. Mas um amigo comum sobreviveu fazendo comida para fora, e foi com a comida dele que chegou até mim As Pequenas Virtudes. A força simbólica desta dupla entrega: alimento.

Por esse tempo, Tatiana partilhou comigo o seu livro Vista Chinesa, que só sairia meses mais tarde no Brasil, passado o sufoco maior da pandemia. Tenho bem presente o momento em que o li, porque foi a véspera da morte de uma querida amiga, a cientista Maria de Sousa. O romance é sobre uma violação, um estupro, eu não sabia que aquele corpo violentado não era o da Tatiana, mas o da amiga da Tatiana, a Joana. Era um corpo muito concreto e imaterial, porque, no corpo da Joana, estava o corpo da Tatiana, o corpo de todas nós, mulheres. Mas eu não sabia.

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Quando reli o livro, em papel, na sua edição portuguesa, um ano mais tarde, era outra, a vida era outra, a experiência de leitura foi naturalmente outra.

Ficou inseparável de Vista Chinesa o momento em que me debrucei sobre ele. A dor pela morte da Maria, a Tatiana, a Natalia Ginzburg. Formam uma constelação.   

Pequenas Virtudes faz-se de pequenos textos que não são bem contos, e que não importa arrumar numa categoria. São textos breves onde está a vida toda. Assim como a frase de arranque da Annie Ernaux nos dá a vida de uma menina de 12 anos, um texto como Os Sapatos Rotos dá-nos a importância metafórica de ter pés enxutos e quentes na infância, sapatos sólidos e sãos na família. São a estrutura que permite enfrentar os dias em que os sapatos ficam moles, informes, molhados pela chuva, destruídos pelo tempo da guerra.

Felizmente já estão traduzidos e editados em Portugal alguns livros das duas autoras de que tenho falado. O que comecei esta manhã, comprei-o em Paris, onde estive há dias. Fui a convite do Camões falar do Ensaio sobre a Cegueira de Saramago. Não esquecer: o prémio Nobel português comprou os primeiros livros aos 19 anos, com dinheiro emprestado. Fez-se, enquanto leitor e escritor, nas bibliotecas. 

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Tive a sorte de encontrar em França o último livro de Annie Ernaux, Le Jeune Homme, acabado de sair, e de esse livro ter uma relação com um outro livro dela, que li numa tradução brasileira, O Acontecimento. Sobre um aborto. Nas últimas páginas, sistematiza: “Eliminei a única culpa que senti a respeito desse acontecimento — que ele tenha acontecido comigo e que eu não tenha feito nada dele. Como um dom recebido e desperdiçado. [...] As coisas aconteceram comigo para que eu as conte. E o verdadeiro objetivo da minha vida talvez seja apenas este: que meu corpo, minhas sensações e meus pensamentos se tornem escrita, isto é, algo inteligível e geral, minha existência completamente dissolvida na cabeça e na vida dos outros”.  

A mesma ideia (e intenção ou propósito) é enunciada na epígrafe de Le Jeune Homme: “Se eu não escrevo, as coisas não chegaram ao seu termo...”.

Nestes livros, como em todos, fala-se da escrita como processo de maturação de um tempo, uma memória, uma identidade. Aquilo de que se fala aconteceu há muito, muito tempo. Porém, os rios comunicantes continuam a rumorejar.

Uma vez, ouvi a Tatiana Salem Levy, numa oficina, dizer a um grupo de jovens: vocês já viveram algo que é indispensável à escrita: uma infância. Dito de outro modo: vocês já têm um léxico familiar. Esse idioma que vem com a nossa biografia, o nosso modo de sentir e procurar, é sintetizado assim por Natalia Ginzburg: “Essas frases são o nosso latim, o vocabulário de nossos tempos idos é como os hieróglifos dos egípcios ou dos assírio-babilônicos, o testemunho de um núcleo vital que deixou de existir, mas que sobrevive em seus textos, salvos da fúria das águas, da corrupção do tempo. Essas frases são o fundamento da nossa unidade familiar, que subsistirá enquanto estivermos no mundo”.

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Partilhei convosco vozes, idiomas, amizades com as quais a minha vida se faz. Annie Ernaux e Natalia Ginzburg, Susana Moreira Marques e Tatiana Salem Levy, fiz a evocação de Fernando Pessoa e de José Saramago. Lê-los é uma interpelação, um espanto, um questionamento — e um impulso para a escrita. Incitam-me a escutar as minhas frases lapidares de um domingo de Junho, a linguagem que saiu incólume, ou até robustecida, e que é a do meu lugar de origem, o que ajuda a compreender, a não compreender, a estar, como estamos na vida, em curso.

 

Texto lido no ReadS, a 31 Maio 2022. 

O ReadS é um concurso de leitura e escrita para alunos do ensino superior promovido pelo Plano Nacional de Leitura. Laureana Barbosa, aluna de Línguas e Estudos Editoriais da Universidade de Aveiro, venceu a segunda edição com um texto a partir d' O Ano da Morte de Ricardo Reis, de Saramago. Começa assim: "O silêncio supera as raízes familiares". Parabéns a todos! Informação sobre o concurso em www.pnl2027.gov.pt