Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Anabela Mota Ribeiro

Fuck Fascism: Freedom Day Forever - 25 Abril na Univ. San Diego

03.04.24

1.

“Os meus pais trabalharam na construção civil durante muito tempo. O meu pai trabalhou em pedreiras. A minha mãe em limpezas. Tinham sempre dois trabalhos, pelo menos. A minha mãe, às vezes, tinha três. O nome deste programa, Os Filhos da Madrugada: nós somos os filhos daqueles que se levantavam de madrugada para trabalhar, e só terminavam já quase na outra madrugada. Os meus pais são dois entre milhares que vieram para cá, e que trabalharam de uma forma extraordinária. Não tinham os meios, não tinham o conhecimento, não tinham o acesso aos códigos que permitiam o exercício da sua cidadania. Para ter um emprego com todos os direitos, acesso a crédito bancário para comprarem as suas casas, direitos laborais. Trabalharam e conseguiram educar muitos de nós. Felizmente há muitos, da minha idade, que conseguiram vingar. Mas com muitas pedras nos bolsos. Queria aproveitar este momento para prestar um tributo a estas pessoas todas.”

Estas palavras são de José Reis, um dos 62 convidados do programa de televisão Os Filhos da Madrugada. José Reis foi desportista, campeão mundial de kickboxing e é hoje jurista. Licenciou-se em Direito e trabalha num organismo público, o Observatório das Migrações. Nasceu em 1977, tem raízes cabo-verdianas, começou a trabalhar com 14 anos numa padaria, à noite, durante o dia ia para a escola.

A partir do seu testemunho, pude abordar aspectos relevantes para a compreensão do Portugal contemporâneo. As diferenças entre crescer em ditadura e em democracia, a evolução de um trabalho manual para um trabalho intelectual, a relação com as ex-colónias, a identidade e a pertença, a língua (portuguesa e crioulo), a discriminação social por causa da pobreza e do bairro onde se vive, a discriminação racial em função da cor da pele.

A entrevista de José Reis na RTP, o canal público de televisão, em prime time, teve impacto. Em primeiro lugar, porque não acontecia na RTP África, onde habitualmente os negros têm voz, mas num canal aberto e visto por milhares de pessoas. Depois porque o relato deste jovem homem, sorridente e simples, mostrava um país plural, em transformação, diferente do país monocromático da primeira metade do século XX. A sua entrevista, como todas, era uma peça de um mosaico de cores vivas.

Este Portugal é o meu Portugal. Não poderia ser convidada do programa, porque a minha data de nascimento é anterior à data da Revolução, 25 de Abril de 1974. Nasci em 1971. Mas só tenho memória de mim em democracia, e a minha vida, as possibilidades de que beneficiei, a cultura em que me formei, são coincidentes com as dos meus entrevistados. Dito de outro modo, ao fazer este programa de televisão, reflexo do Portugal contemporâneo, estou a ver à lupa o meu tempo cronológico, os traumas e as cicatrizes, as mudanças, a evolução. O meu pai também esteve na guerra colonial, em Angola, e não estava comigo quando aprendi a andar e a falar. A minha avó era analfabeta e eu sou aluna de doutoramento. Fiz a migração do interior para os grandes centros urbanos. É evidente que todas estas marcas me constituem. As marcas pesadas da mais antiga ditadura da Europa, que durou 48 anos, precisam de muitos, muitos anos para desaparecer.

Isto é uma coisa que podem observar nas vossas vidas. São provavelmente a segunda, terceira, quarta geração de emigrantes. Algumas destas questões são também as vossas: qual é a vossa língua materna? Onde sentem que é casa? Que trabalho esperam ter? O que é que os vossos pais e avós projectam nas vossas vidas? Que discriminação sentem em função do vosso lugar de origem, cor da pele, classe social, género, nacionalidade?

2.

Vamos ao princípio.

Os Filhos da Madrugada é o verso de uma canção de Zeca Afonso. Escutem a música.

Agora vou dizer-vos o poema que Sophia de Mello Breyner Andresen escreveu para o dia 25 de Abril:

Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da sombra e do silêncio

E livres habitamos a substância do tempo

Zeca Afonso é sobretudo conhecido pela canção que foi usada como senha para a Revolução. Grândola Vila Morena é indissociável dessa madrugada de que somos todos filhos. No dia 25 de Abril de 2020, em pandemia, os portugueses foram para a janela cantar o hino nacional e a Grândola. Ainda hoje se canta esta canção nas celebrações.

Tive a ideia de realizar um programa de televisão que fizesse uma auscultação do país que nasceu e cresceu em democracia. Isso seria feito através de um conjunto de entrevistas, todos os dias, entre o dia 1 e o dia 25 de Abril. Entrevistas de 25 minutos, com uma amostra diversificada. Pessoas que politicamente se posicionam à esquerda e à direita e que fazem interpretações distintas da História do país, com e sem convicção religiosa, pessoas anónimas que nunca foram à televisão, e, no dia seguinte, uma ministra do Governo português ou uma estrela da televisão, de todo o país, nascidas em famílias burguesas ou provenientes de meios humildes.

Ao contrário do espírito americano, em que é premiado o esforço e a superação, em Portugal (ou, provavelmente, na Europa) existe alguma dificuldade em falar do lugar de origem. Portugal é ainda um país envergonhado, que não fala das suas raízes pobres e rurais. Por isso achei tão importante que o prof. Ricardo Vasconcelos tenha, na assinatura dos seus emails:

I am a first-generation college student: B.A., M.A., PhD. You can do it too.

Não conheço nenhum professor universitário em Portugal que faça o mesmo.

A primeira temporada foi em 2021. Daí a uns meses, saiu o primeiro livro com a transcrição das entrevistas e as fotografias da Estelle Valente.

A segunda temporada, em 2022, foi mais longa. As emissões começaram no dia 24 de Março, o dia em que se contavam mais dias de democracia do que dias de ditadura. Ou seja, 48 anos e um dia de liberdade.

À semelhança do ano anterior, também entrevistei pessoas nascidas depois de 1974, igual número de homens e mulheres, porque sou feminista e defendo a paridade de género. Entrevistei pessoas que nasceram nas ex-colónias, em Angola, Guiné, Cabo Verde, uma imigrante brasileira, a neta de Salgueira Maia, o rosto da Revolução, pessoas nascidas nas décadas de 70, 80, 90, depois do ano 2000, pessoas que trabalham em diferentes áreas.

3.

Todos defendem a democracia. Apesar das críticas ao funcionamento da democracia e ao processo democrático, nenhum é fascista. De maneiras diferentes, todos dizem: fuck fascism! 

Em português: safoda o fascismo.

Adaptei um verso da rapper Nenny, convidada na primeira temporada, que resume muitas coisas importantes.

Nenny é descendente de cabo-verdianos, vivia na periferia de Lisboa com a mãe, emigraram para França e Luxemburgo nos anos recentes da crise. Nenny apareceu nas redes sociais, teve milhões de visualizações em várias plataformas (entre elas, a Colors), exprime-se numa língua nova. A língua de Nenny mistura o português, o inglês, o calão, o crioulo. O verso que me impressionou diz assim: safoda a porta, vou pela window.

Safoda, como fuck, é um palavrão. E safoda já é uma forma livre e inovadora de dizer esse palavrão. Por escrito fica mais fácil perceber:

Que se foda — Safoda

Estão a ver como a língua se renova e acompanha uma nova organização social? No bairro de Nenny, portuguesa nascida em Portugal, vivem gerações que nasceram nas antigas colónias, que falam crioulo, vivem jovens que consomem música e séries do mundo anglo-saxónico, e que frequentam a escola onde aprendem um português correcto.

Passei a dizer: safoda o fascismo, 25 de Abril sempre!

Ainda vou voltar a Nenny e a alguns destes temas. Queria dizer, para já, que o segundo livro saiu no final do ano passado. Este ano não fiz Os Filhos da Madrugada. A série ficará concluída no próximo ano, com a terceira temporada, coincidindo com os 50 anos do 25 de Abril.

4.

Depois de explicar a génese do projecto, gostaria de partilhar o que aprendi do Portugal contemporâneo e do 25 de Abril com os meus entrevistados.

A Revolução dos Cravos desenha uma cicatriz na vida do país, aponta para um antes e um depois. Um novo calendário, como uma folha em branco, nunca é inteiramente em branco, uma vez que traz sempre muitos vestígios do passado. Porém, no dia 25 de Abril de 1974 o relógio começou a contar de outra maneira. Vou enumerar alguns momentos vitais deste novo tempo:

- primeiras eleições livres em 1975

- chegada de 500 mil retornados em 1975

- turbulência política até Novembro de 1975, o chamado PREC

- elaboração da Constituição em 1976

- extinção do Conselho da Revolução em 1982

- entrada na Comunidade Económica Europeia em 1986

O primeiro momento vital, o 25 de Abril, permitiu:

- liberdade de expressão

- liberdade de associação

- eleições livres

As grandes fracturas que não têm data precisa, que foram acontecendo:

- criação do Estado Social

- estatuto da mulher

- separação da Igreja do Estado

- separação do militar do civil

- concretização dos três D’s: desenvolver, democratizar, descolonizar.

Nas primeiras eleições livres, forma de cumprir o D de democracia, a afluência às urnas foi de 90%. Para milhares de mulheres, era a primeira vez que podiam votar. Em ditadura e até 1968, só podiam votar mulheres licenciadas, chefes de família e proprietárias (eram quase sempre viúvas).

O regresso de meio milhão de portugueses das antigas colónias representou o D de descolonizar. O fim da guerra colonial e a independência destes países aconteceram como consequência da revolução dos cravos.

Os soldados regressaram a casa. Não foi “nem mais um só soldado para as colónias” (era um slogan de um partido político).

Sobre o D de desenvolvimento, menciono um aspecto apenas: a criação do Estado Social. Garantiu Educação e Saúde gratuita para todos.

5.

Vou concretizar com alguns testemunhos d’ Os Filhos da Madrugada. Começo pelas mulheres. Porque, se a revolução mudou tudo para todos, para as mulheres foi inimaginável. Convidei mulheres que têm profissões que antes da Revolução lhes estavam vedadas. É verdade: antes de 1974 as mulheres não podiam ser magistradas nem diplomatas.

Inês Ferreira Leite nasceu em 1978, é Professora de Direito e membro do Conselho Superior da Magistratura. Não casou pela igreja. O que era muito incomum antes da revolução. As mulheres só podiam sair do país com autorização do marido. O marido era chefe de família, dava ordens, podia ditar o que a mulher vestia, se falava ou não, se trabalhava ou não. Competia às mulheres o governo do lar e a economia doméstica.

Marta Bobichon Loja Neves nasceu em 1982, tem dois filhos, é diplomata.

Mesmo que a carreira diplomática tenha ficado acessível às mulheres, há ainda uma desigualdade esmagadora no seu estatuto. As mulheres diplomatas são apenas 11% entre os embaixadores full rank, o topo de carreira. Apenas 15% das chefias de missão no estrangeiro são asseguradas por mulheres.

Marta estudou na Bélgica, trabalhou oito anos no Parlamento Europeu, inclusive com um homem que ganhou o Prémio Nobel da Paz. Apesar disso, quando regressou a Portugal esteve dois anos desempregada. Isto constitui uma novidade: quem tinha uma formação superior não tinha problemas de emprego. Nos tempos de liberdade e democratização do ensino, nada garante nada, nem em Portugal nem em nenhum lugar do planeta.

Esta insegurança foi partilhada pela Maria Inês Marques, que nasceu em 1990 e tem um doutoramento em Yale.

O avô de Maria Inês era barbeiro, o seu pai tem uma licenciatura em Economia, ela fez um doutoramento numa universidade da Ivy League. Passos de gigante em três gerações.

O mesmo aconteceu com a escritora Joana Bértholo. O avô era pescador, ela fez um doutoramento na Alemanha.

O avô do músico Samuel Úria era sapateiro.

O avô do cientista David Marçal carregava carvão.

Pedro Vieira e Célia Costa são um casal e são os primeiros membros da família a chegar ao ensino secundário.

A avó de Rita Rato lavou escadas para pagar uma dívida de pão; Rita foi deputada na Assembleia da República, foi a primeira pessoa da família com formação universitária, nasceu em 1983.

A avó de Tiago Bartolomeu Costa era analfabeta e aprendeu a ler, já adulta, para ler os artigos que o neto escrevia para o jornal.

6.

Sim, o país era muito pobre e atrasado. E sim, a educação foi o grande elevador social.

Vítor Cardoso é professor universitário e um dos melhores físicos do mundo. O pai trabalhava na construção civil e a mãe trabalhava na agricultura. Perguntei-lhe se a sua vida teria sido diferente se tivesse nascido em ditadura. Eis a sua resposta:

“Creio que era quase impossível [ter o mesmo percurso]. Porque teríamos de ajudar a família. Os meus pais, aos 12 anos, já trabalhavam. A partir de 1974 houve o abono de família. Lembro-me das minhas senhazinhas para comer na cantina. Lembro-me do meu passe escolar que me permitia andar de autocarro.”

Outro caso em que o acesso à educação mudou a linha da vida: Luísa Semedo. É descendente de cabo-verdianos, cresceu num bairro pobre de Lisboa. Pensou que ia ser, como os seus pais, como todas as pessoas da família, operária numa fábrica. Ela conta: 

“A primeira vez que trabalhei devia ter 13 anos. Fui colar etiquetas em catálogos. O meu irmão e eu ganhámos dinheiro para comprar uns ténis. Já fiz imensas coisas. Trabalhei como caixa de supermercado, trabalhei nas telecomunicações, já trabalhei em bancos.”

Luísa Semedo fez um doutoramento em Filosofia na prestigiada universidade Sorbonne, em Paris. Ensina Filosofia numa escola secundária nos arredores de Paris.

Portugal entrou no século XX com quase 80% da população analfabeta. Eram apenas 3% a 4% no Reino Unido. Em 1974, 24% da população era analfabeta.

Vamos precisar de mais tempo para recuperar.

Quando a escritora Djaimilia Pereira de Almeida nasceu, em 1982, havia apenas 130 doutorados em Portugal; destes, 95 eram homens e 35 mulheres. No ano em que concluiu o seu doutoramento, em 2012, a mudança era espantosa: 2232 doutorados, dos quais 1023 homens e 1209 mulheres. 

Quando as coisas correm mesmo mal, gosto de pensar nestes percursos. Há problemas tremendos para resolver, um atraso económico e uma desigualdade preocupante. Mas algumas coisas correram bem.

7.

Nesta conferência, gostava de voltar a alguns temas, nomeadamente ao estatuto das mulheres e à configuração das famílias.

Portugal é um país católico. Posso relembrar que a divisa do ditador António Salazar era: Deus, Pátria e Família. Por família, naturalmente, entendia-se: pai, mãe, filhos, heterossexuais.

O que se entende por família mudou. O acesso ao planeamento familiar, nomeadamente aos métodos anti-concepcionais, ajudou a esta mudança. Mas foi fundamental que as mudanças tivessem lugar também num plano jurídico.

A Revisão do Código Civil em 1977 consagrou a igualdade constitucional entre homem e mulher em toda a vida familiar, e igualdade entre os filhos.

Até 1975 era proibido o divórcio de pessoas casadas pela igreja – a esmagadora maioria. Esta questão tocou homens e mulheres que não podiam dissolver uma família e constituir outra. Muitos homens (sobretudo homens) tinham amantes, filhos ilegítimos, novas relações e formalmente continuavam casados. O problema é que não podiam perfilhar os filhos das novas relações. Estes filhos bastardos tiveram durante anos no cartão de cidadão: filho de pai incógnito. E não tinham direito ao nome do progenitor. Mesmo que soubessem muito bem quem era o seu pai e tivessem relação familiar com ele.

O número de divórcios:

Em 1965: há 600.

Em 1975, há 1500.

Em 1977, há 7700.

N’Os Filhos da Madrugada fala-se das novas formas da família em muitos programas.

Constança Freire de Sousa nasceu em 1994, quando a democracia tinha 20 anos.

Nesse ano registaram-se 13582 divórcios, e em 2019 mais de 20 mil.

É a filha única do casamento dos seus pais. Antes disso, a mãe e o pai tinham sido casados e tido filhos. Tem três meios-irmãos. Habituei-me a dizer:

“A minha mãe casou com um senhor, o meu pai casou com uma senhora, tiveram filhos. Depois casaram um com o outro e tiveram-me a mim”.

Constança vive no Porto, em união de facto, com o namorado inglês. Perguntei-lhe se ponderava adoptar o apelido do namorado se casasse com ele. Essa prática, que é dominante no mundo anglo-saxónico, já não é tão frequente em pessoas da idade de Constança. Ela foi peremptória:

“Nunca na vida, não, não! O meu nome é a minha história. É a história da minha família, que me construiu. Corresponde a uma identidade. Gosto muito do meu namorado, da sua família, mas não é a minha família, não é a minha origem. Não quero passar a ser conhecida por um nome que não é o meu. Se ele quiser ficar com o meu nome, não o impeço.”

Curiosamente, nenhuma das mulheres que entrevistei adoptaram o nome do marido. E nem todas casaram. É o caso da Joana Cabral, cientista.

“Não casei com o meu namorado, oficialmente. Vivemos juntos. Temos três filhos que no passado seriam considerados ilegítimos. Somos uma família, completamente, mas a nossa opção foi não casar. Fizemos uma festa. Também escolhi os períodos em que quis ter filhos. Só tive filhos aos 30 anos, depois de acabar o doutoramento.”

Joana nasceu em 1984 numa família burguesa do Porto. Fez dois pós-doutoramentos, um em Barcelona e outro em Oxford. O seu percurso é completamente diferente do percurso da sua mãe e avó:

“A minha mãe era uma aluna brilhante, chegou a estar no quadro de honra, acabou por não ir para a faculdade. A minha avó, igualmente. Teve cinco filhos e dedicou-se à família.”

A maneira como se encara a maternidade e a infância mudou muito. Nascem menos crianças, e as mães têm filhos mais tarde. 

Adriana Molder é artista plástica. A sua tinha mãe tinha 25 anos quando Adriana nasceu. Adriana foi mãe aos 41 anos. Em 1975, ano do nascimento de Adriana, nasceram 180 mil crianças em Portugal. No ano em que Victoria, a filha da artista nasceu, em 2017, nasceram 86 mil crianças. Uma redução drástica.

As irmãs Carolina e Constança Villaverde Cabral estiveram juntas no programa. Os pais separam-se quando eram crianças. Não têm memória dos pais juntos. O pai é meio inglês, designer, muito presente. A mãe é artista e casou com uma mulher em 2012. Carolina tem uma enteada, vive em união de facto, estava grávida do primeiro filho, que é o segundo do seu companheiro. Constança não tem filhos.

Os indicadores da mortalidade infantil em Portugal são consensualmente apontados como um dos grandes sucessos pós-1974. Em 1974, a taxa de mortalidade infantil era de quase 38 por mil. Dez anos depois era de pouco mais de 19. Em 2020, era de 2,43. Para percebermos de onde vimos: em 1960, era de 77 por mil. Uma barbaridade.

Só mais dois casos que ilustram esta transformação no seio da família. E se a família muda, a sociedade muda.

Marta Bateira é humorista e criou a personagem Beatriz Gosta. Feminista, politicamente activa, fala de sexo e obriga-nos a questionar a noção de igualdade de género e o machismo que está enraizado na sociedade portuguesa. Um exemplo: se um homem está no Tinder é um garanhão; se uma mulher está, isso pode ser duvidoso. Em particular, porque toca no último reduto da sociedade patriarcal: o lugar da mãe. Quem quer encontrar a mãe dos seus filhos numa agência de encontros?

Marta tem uma filha. O seu personagem faz uma desconstrução da maternidade. Fala da alteração do genital feminino, da libido, detalhas as dores da amamentação, as hormonas, explica como a vida de mãe e filha gira em torno do cocó. Ela diz que “alguém precisava de falar a verdade e des-romantizar.”

Mas porque é que não se fala? De onde vêm estes códigos morais? Marta Bateira fala da sua família.

“Nós somos de classe média alta. O meu pai teve uma educação católica e isso dificulta bastante, a meu ver.”

Assunção Cristas é católica praticante, é contra a despenalização do aborto e a morte medicamente assistida. Politicamente é de direita. Era ministra quando engravidou do quarto filho. O seu testemunho é importante, revela um Portugal que já não é a preto e branco. Por exemplo, Assunção é a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo. O seu colega de Governo, também de um partido conservador, Adolfo Mesquita Nunes, assumiu publicamente a sua homossexualidade.

Ouçam a sua experiência quando esteve no Governo e ficou grávida. “Um jornal de referência perguntou se me ia demitir por estar grávida. Uma jornalista quis falar com uma pediatra sobre a decisão de estar menos tempo em licença de maternidade, e partilhá-la com o meu marido. Isso significava que eu era má mãe?”

Numa linha: muito mudou e muito falta mudar. A mudança das mentalidades demora muito tempo e, se exige uma sustentação legislativa, não acompanha o movimento desta.

8.

Gostaria de continuar com Assunção Cristas para falar de uma cicatriz importante na vida do país. Aconteceu em 1975 com a chegada de meio milhão de pessoas. Ficaram conhecidos como “retornados”. Mas para muitos não era um retorno, uma vez que nunca tinham estado em Portugal. A escritora Dulce Maria Cardoso escreveu um premiado romance sobre essa experiência: O Retorno.

São, de um modo geral, mais instruídos, mais qualificados, mais empreendedores. Quebram uma homogeneidade que havia na sociedade portuguesa e que alastrou a todo o país, uma vez que este meio milhão de pessoas se fixou em todo o território.

Os pais de Cristas vieram de Angola com cinco filhos pequenos.

“Esse ‘D’ foi para eles muito triste. Não pela descolonização em si. Não se importariam de ficar a viver num país independente, apesar de ser contra a narrativa em que tinham crescido. Mas estavam a meio da vida e tiveram de a refazer. A mágoa não tinha a ver com a revolução, mas com esta consequência directa nas suas vidas. Ficaram até ao limite. A dada altura, não havia condições de segurança. Em Julho de 75, vim eu com as minhas irmãs e a minha avó materna. Depois veio a minha mãe. O meu pai veio mais tarde”.

A mãe de Cristas era médica, o pai empresário.

O caso de Bruno Vieira Amaral, escritor, foi diferente. O pai veio de Angola, a mãe de uma família muito, muito pobre do Alentejo. Ocuparam um bairro de barracas que estava a ser construído nos arredores de Lisboa. É sobre esse lugar, pobre, triste, perigoso, que Bruno escreve.

“Para vivermos em paz connosco, temos que olhar para o nosso passado. Para o passado da nossa família. Faço essa reflexão nos livros. O que está para trás também somos nós, também nos condicionou, também nos moldou. [...] Nós precisamos de uma pátria. A minha pátria é o meu bairro. Havia duas visões muito diferentes sobre o significado do bairro. Para uns, era uma espécie de inferno, símbolo de tudo aquilo que tinham perdido. Para outros, era um novo começo. [...] As pessoas vinham do campo, tinham as suas estruturas familiares, as suas redes sociais, e perderam isso tudo. A religião serviu para dar esse lugar de pertença, de pertença espiritual. [...] Na minha geração, na maior parte dos casos, se recuarmos um pouco, vamos encontrar essa experiência do campo. Da pobreza, das dificuldades de subsistência, da falta de instrução, de educação.”

Bruno Vieira Amaral é considerado um dos melhores escritores da sua geração. Nasceu em 1978, trabalhou em cafés, numa bomba de gasolina, formou-se em História Moderna e Contemporânea. Cresceu numa família de Testemunhas de Jeová.

9.

Os testemunhos de Assunção Cristas e Bruno Vieira Amaral permitem falar da relação com as antigas colónias. Abordei também o assunto, de uma enorme complexidade e ainda por cicatrizar, com outros entrevistados. E, de uma maneira diferente, com

- Kalaf Epalanga, músico e escritor de Angola,

- Gisela Casimiro, tradutora e poeta da Guiné Bissau,

- Blessing Lumueno, treinador de futebol, angolano.

Já falei de Luísa Semedo, José Reis, Djaimilia Pereira de Almeida, Nenny. O dia que celebram, além do dia 25 de Abril, é o dia de independência dos seus países. Do seu país de origem, ou o dos seus pais. Quase todos têm nacionalidade portuguesa, mesmo que tenham nascido nos países dos seus pais.

10.

Há outra memória pesada que vem com África. Trata-se da guerra colonial. Todas as famílias portuguesas têm, nos seus álbuns de família, fotografias que os pais mandavam da guerra e pequenos telegramas que as mães mandavam para os seus homens que lutavam na guerra.

Isso aconteceu comigo e com muitos entrevistados d’ Os Filhos da Madrugada. Recentemente, vendo notícias sobre a guerra na Ucrânia, perguntei-me como seria naquele tempo, dominado pelo medo, e sem meios de comunicação. Obviamente não havia internet, nem smartphones. Então escreviam-se cartas.

Os traumas da guerra colonial demoraram muitos anos a desaparecer. A enfermeira Carmen Garcia nasceu em 1986. Disse que nunca viu o pai levar a colher da sopa à boca sem tremer, e que, provavelmente, isso era um trauma da guerra. O assunto era um tabu. Só recentemente ouviu o pai confessar isto: “Não era uma guerra justa, mas, nas matas africanas aprendia-se rápido: ou matas ou morres”.

A partir de certo ponto, matas para não morreres, porque queres voltar para casa.

Voltar para casa. A minha mãe explicou-me o que era a Revolução dos Cravos resumindo assim:

foi a revolução que acabou com a guerra e trouxe o pai para casa.

Muitas mães disseram aos seus filhos: já não vais para a guerra.

11.

Como é fácil depreender, as memórias indirectas da revolução são diferentes. Nas pessoas nascidas nos anos 70 e 80, é muito provável que surjam retratos de pobreza, origem rural, guerra colonial, pouca instrução e acesso precário à saúde nos seus pais e avós.

As pessoas nascidas depois de 1986 são marcadas pela abertura à Europa e ao mundo. Politicamente, a democracia está estabilizada. Há programas europeus de intercâmbio, as fronteiras estão abertas, é possível viajar, a sociedade de consumo é uma realidade. Vinte anos depois da Revolução, 95% das casas portuguesas tinham televisão, fogão e frigorífico. Curiosamente, só 12% das casas tinham máquina de lavar loiça.

12.

Quando entrevisto pessoas mais jovens há uma luta comum: pelas questões climáticas e contra todas as formas de discriminação. Sexual, de género, racial. Isso está no Safir Eizner, estudante.

Está na Daniela Salgueiro Maia, neta de um herói da Revolução, o capitão Salgueiro Maia.

Está no artista plástico Bordalo ii, que faz esculturas com materiais reciclados, com aquilo a que a sociedade capitalista chama lixo.

13.

Passam hoje 49 anos sobre a Revolução. Estes Filhos da Madrugada são um mosaico dos tantos portugais que temos, 49 anos depois. Faltam muitos portugais. É verdade que não entrevistei nenhum operário fabril, nenhum pescador, nenhuma costureira.

Mas entrevistei a cineasta Leonor Teles, que ganhou um prémio num importante festival de cinema, e não consegue sustentar uma casa sozinha. Tem agora 30 anos e partilha um apartamento modesto com amigos.

Joana Bértholo tem um doutoramento, é escritora, mas ganha tão pouco dinheiro que se interroga todos os meses: qual é o máximo que posso gastar?

A enfermeira Carmen Garcia recebe cerca de 1000 dólares por mês no hospital onde trabalha.

Ou seja, de que falamos quando falamos de sucesso?

Não houve mortos nesta revolução, não houve sangue. E puseram cravos nos canos das espingardas. Por cima ficou conhecida como a Revolução dos Cravos.

Uma semana depois da Revolução, um milhão de pessoas celebrou em Lisboa. Só não estavam os fascistas. Tinham regressado exilados e políticos. As fotografias da Revolução e do 1 de Maio mostram um ambiente de festa. Vejam os militares, vejam as crianças sem medo dos militares. Não se esqueçam que a Revolução foi feita por militares, por jovens e corajosos capitães. As fotografias são do Alfredo Cunha.

14.

Quando passavam 40 anos sobre a Revolução fiz uma longa reportagem sobre a construção da democracia.

Era um tempo de crise severa, com uma elevada taxa de desemprego, a ajuda económica do FMI. Discutia-se o que tinha corrido bem, o que tinha corrido mal. Fizeram-se sondagens sobre a qualidade da democracia.

Pergunta importante: de que falamos quando falamos de democracia? O politólogo Pedro Magalhães explicou que a “a maioria das pessoas tende a associar – e intensamente – liberdade de expressão, liberdade de associação e eleições livres a justiça social, segurança e prosperidade económica. Esta associação não é exclusiva de Portugal. É característica de democracias mais pobres e de democracias mais recentes. E esta é uma das pistas para compreender a zanga com a democracia”. 

No mesmo ano, foi publicado um livro com alguns militares que tinham participado na revolução. O título: Os Rapazes dos Tanques, de Adelino Gomes e Alfredo Cunha. Perguntavam acerca do melhor e do pior de 40 anos de democracia.

Eu fiz também essa pergunta na minha reportagem. E o balanço é semelhante.

O pior:

- descrédito da classe política,

- corrupção,

- uma economia que não cresce,

- funcionamento da Justiça.

O melhor:

- construção do Estado Social que assegurou a toda a população Educação e Saúde gratuitos e apoio da doença e na velhice.

Apesar da degradação da qualidade dos serviços de saúde e educação, eles continuam a funcionar globalmente bem.

As universidades de referência são todas públicas e as propinas anuais são de 1000 dólares.

Os melhores hospitais são os públicos. Toda a gente sabe que, se estiver mesmo doente, se for grave, deve ir para um hospital público. E toda a gente sabe que, se precisar de uma consulta para o dia seguinte, deve procurar um médico do sistema privado. O serviço público não consegue dar resposta imediata, mas é bom.

Durante a pandemia, a população foi cuidada e vacinada nos hospitais públicos. 

15.

No próximo ano celebramos os 50 anos da Revolução. Há dados novos, importantes e preocupantes, nos últimos dez anos. Nomeadamente o crescimento dos partidos de extrema-direita, no mundo todo e também em Portugal. Em Portugal, o partido Chega tem 12 deputados no Parlamento. O seu líder já usou a expressão de Salazar Deus, Pátria e Família como desígnio, tem relações com partidos e líderes mundiais como Bolsonaro no Brasil, Marine Le Pen em França, Salvini em Itália.  

Os tempos são sombrios. Contudo, há certamente uma semente em algum canto do jardim, como canta Chico Buarque numa canção que escreveu para a nossa revolução. Somadas umas coisas e outras, conquistas e fracassos, expectativas e desilusões, é evidente para mim que a democracia é o pior de todos os sistemas, com excepção de todos os outros, para citar Churchill.

Neste dia feliz, gostaria de cumprimentar todos os italianos aqui presentes. 25 de Abril não é apenas o dia da Revolução dos Cravos. É também o dia em que os partigiani e as forças aliadas libertaram Itália das tropas nazis. Foi em 1945, no fim da Segunda Guerra Mundial. Os partigiani são guerrilheiros, formam a resistência anti-fascista. A sua canção é Bella Ciao.

Pela minha parte, quero aplaudir aqueles que lutaram pela liberdade, a quem devo a minha vida como ela é, e quero dizer que me empenho na vida cívica para impedir o regresso ao tempo da ditadura. Ou, adaptando um verso da Nenny: safoda o fascismo.

Viva o 25 Abril, viva o 25 Aprile! 

IMG_0499.jpg

 

Texto lido no dia 25 de Abril de 2023 na biblioteca da Universidade de San Diego (SDSU). Organização do Prof. Ricardo Vasconcelos do Department of Spanish and Portuguese Language and Literatures. Apoio do Instituto Camões. O texto foi lido em inglês, a tradução foi feita pelo aluno Maximiliano Rodriguez. Agradeço a todos.