Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Anabela Mota Ribeiro

Lúcia Sigalho

23.05.25

Nos espectáculos de Lúcia Sigalho desenvolvem-se ideias de solidão, incomunicabilidade, de amor quase dilúvio. Pensa-se no processo. Ou seja, na vida a acontecer e no modo como acontece. O público pode andar vendado e descalço duas horas e meia. À procura, à procura. Os actores recolhem declarações do público e trabalham sobre elas. Os actores e as peças ocupam um lugar voltado para o infinito, para um tudo poder ser.

Lúcia Sigalho tem 37 anos. É actriz e encenadora. Em 1997 fundou a companhia Sensorround, que dirige.

Em Julho, num dia ainda indeterminado, leva à cena um dueto caprichoso com João Garcia Miguel. Será sobre o crescendo dos movimentos de extrema direita na Europa, sobre as pessoas que vêem o Masterplan; sobre a ideia de segurança, numa palavra. Mais para o Outono encena pela primeira vez um poderoso Tchekov.

É uma pessoa singular. 

 

Falou do teatro como possibilidade e liberdade abençoada de nos evadirmos da realidade. A noção de fuga está muito presente no seu trabalho. Porque é que tem uma necessidade tão premente de se evadir da realidade?

Não tenho jeito para a vida, para as coisas da vida. Lido mal com a realidade. Se não fizesse teatro era terrorista.

 

O que é que a fere tanto na realidade?

Há um poema da Sophia em que ela diz: «Há muitas coisas que eu não quero ver». Não quero ver porque se calhar as vejo demais.

 

Uma espécie de hiper lucidez?

Não sei. É um defeito, é um problema, é uma doença. Não aceitar. Não compreender. Não compreender porque é que os velhos em Portugal vivem com 30 contos por mês. Não perceber porque é que as pessoas se atropelam umas às outras. Não me entendo com o mundo e com a imperfeição do mundo — o que é uma arrogância enorme da minha parte.

 

A observação implica uma exclusão, o seu ponto de vista é exterior a essa realidade.

É um lugar de ruptura. Houve uma altura em que parei de fazer teatro e tentei fazer trabalho humanitário. Estive com uma amiga no lançamento do VIVA (Voluntariado Internacional para o Desenvolvimento Africano). Trabalhei imenso para aquilo existir. Mas depois falta-me a caridade, a compreensão.

 

Essa inadaptação existe desde sempre?

Sempre fui um bocado anormaleca. Quando era pequena era o género de criança que fala sozinha.

 

Em frente ao espelho, para se poder assistir?

Sim. Lia imenso e vivia muito entre a realidade e..., e a realidade, não é? Era muito fantasiosa. Passava a vida a mascarar-me e a treinar para ser artista de circo. Era o monstrito inteligente, tímida. E os livros que lia já eram tão complexos... Fazia-me confusão que a vida não fosse como os livros, que as pessoas não fizessem coisas excepcionais, que não dissessem umas às outras tiradas dos livros. As pessoas chegavam e diziam: «Olá, tudo bem?, que lindo dia de sol!». Ficava apavorada, não sabia entrar nesse registo.   

 

O que é que era atraente, recuando à infância, na ideia de ser artista de circo?

Era voar. Era a maluca que se atirava dos telhados para ver se conseguia voar. Havia uma série de coisas que não me entravam na cabeça. Por exemplo, estava convicta de que os meus pais não eram meus pais. E que eu não era eu. Que eu era outra coisa qualquer que não me diziam. Não me diziam de onde é que vinha e o que estava ali a fazer.

 

Sentia-se uma criança ou uma adulta?

Sentia-me completamente uma pessoa. Com as dificuldades, depois, de não poder escolher os pares de sapatos que queria.

 

Teve medo de não ser gostada?

Não. Ao contrário tinha um excesso de confiança, de bem estar.

 

A sua infância foi em Moçambique. Veio para Portugal com que idade?

Com 11 anos, em 76, para uma vila perto de Santarém. Entre 74 e 75 vivemos no Zimbabwe. Foi um embate. Uma criança educada em África, com uma liberdade diferente, com calor, mar, mato à volta, com espaço. Em Portugal o horizonte é em cima das pessoas, «Acaba já aqui?».

 

Essa particular inteligência isolava-a ainda mais?

Eu era a especial, muito inteligente, muito precoce. Mas não no sentido de ser especialmente dotada em nada. Quando cheguei à Faculdade de Direito tive as notas piores do mundo.

 

Quando fez testes aos 15 anos, qual era o seu projecto de vida?

Não tinha. A psicóloga que acompanhou os testes disse que devia seguir a carreira diplomática, ou Belas Artes, ou Educadora de Infância. Fiquei na mesma. Escolhi umas coisas e outras tiveram que ficar para trás. O que acho horrível. Tenho a sensação de perda e não de escolha.

 

A escolha de um implica a obliteração de todos os outros.

É. Não é escolher, é eliminar. Esse é o meu problema com a realidade. Porque viver é escolher, não é? Para escolher o curso foi a mesma coisa. Tinha umas médias que davam para tudo, mas o que queria era ir para Londres estudar cinema.

 

Para ser actriz ou realizadora?

Nunca quis ser actriz. Não achava que tivesse as pernas e os dentes para ser actriz. Via nos filmes actrizes com umas pernas até ao infinito e uns dentes imaculados e achava que as actrizes eram assim. Claro que lá em casa disseram logo: «Que disparate!». O meu pai é advogado e a minha mãe é mãe de filhos. Estive cinco anos em Direito sem pensar muito em nada. No primeiro ano da faculdade fui recrutada: «Foste escolhida para ser actriz do Cenic de Direito».

 

 O teatro era apelativo?

Como objecto de consumo, sim. Mas não achava que fosse uma coisa para mim. Achava que ser actriz era uma coisa desprezível, sem interesse nenhum. No Cenic eram todos muito políticos, o que já era digno de ser levado a sério. Depois, uns dias antes da estreia, houve uma que desistiu e substituí-a, sabia a peça de cor. Lembro-me de ter sentido que aquilo era o melhor sítio do mundo, o palco. De me sentir muito bem.

 

O palco é uma arena?

Percebo que os meus espectáculos tenham muito disso. Mas não, o palco é um sítio de um bem estar enorme. É um sítio de uma enorme liberdade: ali posso ser tudo. Mesmo arquitectonicamente, nas salas bem construídas, a relação do palco com a sala é de harmonia. Está feito para quem está no palco sentir que o seu centro está no centro, que o seu ser está em harmonia com o resto. Não sinto nada estar fora de mim. Não sinto nada que haja uma esquizofrenia no acto teatral. É mais sentir que no acto teatral tudo está potenciado em mim. Que o corpo se espande. Eu posso ser tudo.

 

Ser um não implica a obliteração do outro.

Pois. Não é impossível ser tudo. O teatro, no fundo, é isso que diz. Tenho uma liberdade, circunscrita aquele espaço.

 

A propósito desse tudo poder ser, o seu trabalho resulta de uma confluência de linguagens. Uma pluridisciplinaridade.

Tradicionalmente o teatro é isso, não é um sítio de compartimentos. Até pode ser que depois a peça seja estar em pé, a falar. Mas sentir que há coisas excluídas à partida, põe-me doente. Eu vejo o corpo como sendo movido a sensações, veículo para expressar coisas. Odeio composição e formalismo. O movimento pelo movimento, acho-o uma estupidez.

 

Trabalha quase sempre com situações limite. Para o Dia Mundial do Teatro preparou um trabalho sobre o suicídio, por exemplo. Quais são os sentimentos destas situações limite? Fragilidade? Medo?

Desespero. Pensando sobre o meu trabalho, cheguei à conclusão de que não tem muito que se lhe diga. Não há uma linha.

 

Não encontra um fio condutor? Há temáticas comuns como a incomunicabilidade, a procura, o desespero.

Um bocadinho, mas com temperaturas completamente diferentes. Bem, tudo isto não tem importância nenhuma. O efémero do teatro, levo-o às últimas consequências. Aquele momento é aquilo e é só uma vez. As peças que faço, faço-as para aquele momento e deito-as fora. Tenho imensa resistência à ideia de repôr um espectáculo, como se fosse contra-natura. Esta minha posição é contra todas as regras de circulação de espectáculos, blablabla.

 

Os seus trabalhos são iconoclastas. Começou a encenar muito cedo.

Vim fazer teatro por causa do João Grosso. Tinha feito jornalismo, n’ «O Século». Corria lindamente, mas sentia-me a viver a vida dos outros. O que eu fazia era um fazer sobre o fazer dos outros. Um dia entrevistei o Agostinho da Silva. Houve duas pessoas que me deram uns encontrões: uma foi o Agostinho da Silva, a outra foi o Mia Couto. Claro que o Agostinho da Silva percebeu que eu era uma desajustada e disse-me assim: «Sabe, nós não temos de ganhar a vida. Porque nós já temos a vida. Deus já nos deu a vida. Temos jeito é para o negócio, que a negação do ócio». Fiquei a pensar naquilo.

 

Abandonou o jornalismo, e consequentemente essa vida, por causa deste encontro?

Ganhava um ordenado bestial, mas saí. Andei um mês na liberdade, morta de fome, mas feliz. Andava na rua a ver as pessoas, a ver o mundo, a não fazer nada. Dobrei uma esquina e estava o João Grosso: «Tens que vir, estou a organizar um laboratório de teatro, que é só pesquisa sobre o trabalho do actor». O teatro tinha sido uma coisa de faculdade, não era uma coisa em que pensasse para a minha vida. Mas aquilo era só laboratório... Acabou por se fazer um espectáculo. E fiz outras coisas, fui andando. Durante muito tempo não foi uma escolha, ia acontecendo.

 

Quando é que olhou para si e se assumiu como actriz?

Muito tempo depois. Fiz imensos biscates, nunca ganhei dinheiro com o teatro. Depois fiz uma peça na Prisão das Mónicas com um texto que a Sophia de Mello Breyner me tinha dado. A Sophia disse-me: «A menina precisa de ganhar algum dinheiro, agora que é artista». Eu era secretária dela. Durante a faculdade vivi na casa por cima da dela. O projecto em que estava envolvida para as Mónicas não se concretizou e tive um desgosto muito grande. Achei que no teatro era tudo horrível e resolvi que ia mudar o mundo para outro sítio.

 

Foi nessa altura que trabalhou no voluntariado?

Sim. Não tinha jeito para o trabalho humanitário. É preciso ter uma macieza, e a mim só me apetecia bater em pessoas. Passar os dias no mato, com crianças, e chegar a Maputo, entrar no restaurante e ter criados de luva branca a servir champanhe... Chorava, chorava, chorava. Entretanto conheci o Mia Couto, que é muito de parábolas. Contou-me logo uma história. «Tu não fazias teatro? Já pensaste que o palco é um sítio que não existe? Sabes que há muitas pessoas que não têm terra. Nós não somos da terra, somos do ar ou da água. Sabes que a Beira [onde nasceram ambos] é construída sobre a água, que aquilo era um pântano?».

 

Foi determinante para voltar ao teatro?

Completamente. De facto, nós não temos espaço. Somos de sítios que não existem. Aquilo acalmou-me. Regressei a Lisboa e comecei a trabalhar nos meus espectáculos. Percebi que era um sítio possível para mim. De repente, todo o meu mal estar permanente, o não encaixar em nada... Agora é que começo a sentir que começo a ficar adulta. Sempre quis ser adulta.

 

Ser adulto pressupõe um encaixe, pressupõe regras.

É? Eu queria ser adulta porque achava que os adultos já não se sentiam mal. A verdade é que continuo com o meu mal estar. O nosso mal estar, levamo-lo pela vida toda, não é? E estamos vivos também para nos salvarmos, não é? Agora sinto que começo a aceitar algumas coisas, a compreendê-las. Quando percebi que podia ser tudo, encontrei um caminho.

 

O seu discurso tem uma carga quase religiosa.

A presença de Deus é muito importante na minha vida. O facto de ser católica confirma a minha exigência de liberdade, e não o contrário. O Agostinho da Silva tinha toda a razão: Deus deu-nos a vida. Houve alturas em que eu não tinha nada: não tinha casa, dinheiro, trabalho. E senti sempre a mão de Deus nas coisas, para me ajudar. Deus ajuda.

 

De que é que precisa absolutamente para viver?

Preciso de estar apaixonada pelas coisas. Quando não estou em fúrias e projectos, quando não estou a imprimir o tempo, sinto-me como se não existisse. É sentir que através da criação vou mudando as coisas, que estou a fazer coisas no tempo. De resto, sei que não preciso de absolutamente nada. Desde pequena tenho períodos em que não tenho nada de nada. Não é desejável, mas dá-me alguma arrogância saber que fiz imensos espectáculos sem nada. Dá-me independência.   

 

Publicada na revista Elle em 2002