Marjane Satrapi
E se o profeta fosse uma mulher e se chamasse Marjane Satrapi?
Ela acreditou que era o profeta. E anunciou na escola que quando crescesse queria ser o profeta. Tinha seis anos. Estava-se em 1976. Três anos depois, deu-se a Revolução Islâmica e no ano seguinte as meninas passaram a usar véu, as escolas estrangeiras foram fechadas. A escola estrangeira que Marjane frequentava era a école française, e a relação da banda desenhista com a cultura francesa começa aí. Hoje, vive em Paris. Sem véu. Ninguém lhe chama profeta, e ela duvida das palavras dos profetas.
Quem é Marjane Satrapi? Apresenta-se como uma princesa vermelha. Nasceu numa família aristocrática de Teerão, próxima do ideário comunista. O seu tio foi um famoso opositor, executado pelas ideias que professava. É uma menina bien née que nunca foi bem comportada. Uma mulher que desenha a preto e branco e que conhece os dois lados do Irão – o Irão de dentro de portas, o Irão visto do exterior. E é uma francófila.
Diz que é uma iraniana que nunca se sentiu completamente em casa no Irão. Mais do que uma segunda língua, o francês e a cultura francesa coincidiam com a educação aberta e moderna que os pais lhe davam em casa. Talvez ela tenha sido sempre um pouco francesa. Talvez ela tenha sido sempre um pouco estrangeira. Os seus livros são uma amostra desse cosmopolitismo em que sempre viveu. O mesmo que lhe permitiu olhar de viés para o mundo de onde provém. Deu-lhe distância. É uma romancista que usa uma linguagem gráfica para contar que caminho percorreu. Até encontrar a sua voz. Os livros são relatos autobiográficos e o Irão nem sempre fica bem no retrato. “Persepolis” conta a sua história.
Voltemos ao ponto de partida: Marjane queria ser o Profeta. Queria ser a Justiça, o Amor e Ira de Deus. Um três em um.
A religião sempre esteve lá. Mas esteve também o interesse pela cultura ocidental. Ela conhecia os heróis míticos da revolução de Cuba; além de Fidel, Marjane gostava de Che Guevara. Sabia das crianças vietnamitas mortas pelos americanos. Na sua cabeça, Marx e Deus mantinham discussões acaloradas. Na sua cabeça, o universo era monocolor, infantil, possível.
Cá fora, crescia o fanatismo e a violência. Era um mundo no qual os pais não se reviam. Nem ela – percebeu mais tarde. Quando tinha 14, mandaram-na estudar, viver, respirar um ambiente diferente daquele que se vivia em Teerão. Ouviu gritar: “Foge para a cave que estamos a ser bombardeados” (era a guerra Irão-Iraque). E chorou perante a hipótese de um futuro redutor: “Com a idade com que Marie Curie foi para França estudar, provavelmente eu terei dez filhos…”. Era o cerco a apertar-se, o moralismo a interferir com o livre-arbítrio.
Foi para Viena. Onde nunca se sentiu em casa e onde pouco parou em casa. Levou uma vida desregrada, passou dias charrada, descobriu o punk e a liberdade, em diferentes intensidades. Cresceu precocemente. Apaixonou-se, conheceu a solidão, sentiu saudades de casa. Depois de quatro anos na capital austríaca, voltou a Teerão. Casou-se. Divorciou-se. Pôs um ponto final na turbulenta relação amorosa com o seu país e mudou-se para Paris.
Tornou-se uma banda-desenhista de sucesso. O livro-mãe,“Persepolis”, tem quatro tomos e conta a história da sua vida, momento a momento. O sucesso mundial foi instantâneo. A adaptação ao cinema contou com a voz de Chiara Mastroianni no papel de Marjane e Catherine Deneuve no papel de mãe. “Le Poulet aux Prunes”, o livro de 2005, prepara-se para ser levado ao cinema, mas desta vez com personagens de carne e osso, e não em formato banda-desenhada.
O estilo é corrosivo, subversivo, politicamente astuto, irónico. Os livros funcionam como retratos sinceros e reveladores de uma realidade a que, no Ocidente, e de outro modo, não teríamos acesso. Funcionam como biografia de um tempo, de um país e de uma revolução. E são também um mosaico da vida de todos os dias. Ali se explica como se engana a polícia ou se entornam garrafas de álcool pela sanita. A avó muda de roupa à vista da neta, a mãe recusa o véu, Marjane fuma o tempo todo. E página a página, mistura-se a prisão do pai, com máquina fotográfica ao pescoço, e o desespero da filha adolescente porque é peluda! Uma profusão de planos por hierarquizar, em que tudo entra e tudo importa.
As mulheres, as suas conversas à volta do samovar, mereceram um livro inteiro: “Broderies”. É um bordado, e é um livro de gajas. Aí se constata o que há muito se suspeitava: que as mulheres de Teerão, Lisboa, Paris e NY se parecem. Voilà uma amostra:
- Avó: “Sabes, minha filha, o orgulho de um homem está situado no escroto”.
- Amiga: “É claro que tive quatro filhos, mas continuo sem ter visto o órgão masculino. Ele vinha para o quarto, apagava a luz, bang bang bang, e eu aparecia grávida. Ainda por cima, tive quatro filhas. Nunca vi um pénis!”
- Outra amiga: “Ser amante de um homem casado é só ter a melhor parte. Depois da minha viagem à Europa tornei-me amante de um ministro. Consegues imaginar…, as camisas sujas, o mau hálito, os ataques de hemorróidas, as constipações, já para não falar no mau humor e das reclamações…, tudo isso fica para a mulher!”
O momento insuperável é aquele em que se explica como simular a virgindade: “Toma esta lâmina. Na primeira noite, apertas as pernas com muita força, gritas muito alto, muito alto, e quando o momento chegar cortas-te um bocadinho. Vão cair algumas gotas de sangue. Ele ficará orgulhoso da sua virilidade e tu manténs a tua honra intacta”.
Marjane Satrapi tem um cabelo preto azeviche, um sinal no nariz. E é coquette e tem um tom de voz insinuante. A nova França parece-se com ela: assimila a diferença, mantém a identidade original.