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Anabela Mota Ribeiro

“Nadam-me peixes no sangue”: os bichos, os rios e a boa carnadura de Saramago

25.01.24

“Os meus pais sacrificaram-se muito e deram-me estudos para ir para a universidade? Não, tive estudos que estavam ao meu alcance e ao alcance da bolsa da família: estudei para ser serralheiro mecânico. Fui serralheiro mecânico. Depois fui várias coisas ao longo da vida. Li muito. Livros meus só os tive quando tinha 19 anos, quando pude comprar, com dinheiro que um amigo me emprestou. Em 47 escrevi um romance, escrevi outro logo a seguir que ficou inédito, que se chama Clarabóia, e que ficará inédito enquanto eu viva. Podia chamar-se oportunismo comercial, publicar agora esse livro escrito há 50 anos ou 60 anos. Aceitei que Terra do Pecado fosse publicado. Houve dois momentos importantes na minha vida que decidiram tudo. Um deles, não muito consciente, foi o facto de ter deixado de escrever depois de ter escrito esses livros. Durante 20 anos, quase não escrevi. Só voltei a publicar em 1966.

O segundo momento foi em 1975, quando, depois do 25 de Novembro, fiquei sem trabalho e sem esperança de o conseguir. “E agora, o que é que eu faço? Tenho aí alguns livros, mas não tenho uma obra, é agora ou nunca”. Durante cinco ou seis anos, talvez sete, vivi de traduções, ao mesmo tempo que ia escrevendo o Manual de Pintura e Caligrafia, e o Objecto Quase. A sorte foi que o Círculo de Leitores me tivesse convidado para escrever uma Viagem a Portugal, em 1979-80. Foi bem pago, deu-me uma estabilidade económica que me permitiu afrontar durante um ano ou dois o trabalho [da escrita], sem estar a pensar que tinha que ganhar dinheiro – ele já estava ganho.”

E tudo estava para vir numa vida que, como resumiu Eduardo Lourenço, foi um milagre.

O que acabo de ler foi-me dito em 2006 por Saramago, numa entrevista. O pretexto era a edição d’ As Pequenas Memórias. Este será o texto núcleo a partir do qual vou irradiar nesta conferência.

Começo pelas epígrafes.

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”
Livro dos Conselhos. Ensaio sobre a Cegueira

“Deixa-te levar pela criança que foste”
Livro dos Conselhos. As Pequenas Memórias

As epígrafes desempenham, no universo saramaguiano, um papel preponderante. São enigma e decifração, potência, gatilho, espanto, dúvida. Assumem um tom profético, uma evidente ressonância bíblica, fazem-nos interrogar sobre a sua raiz. O que devemos crer? Existe deveras um Livro dos Conselhos? Que Deus ou figura transcendente o terá escrito? E como interpretar estas palavras misteriosas? Quem fomos quando fomos criança? E como reencontrar o caminho que vai dar a essa criança, mais espontânea que premeditada, pouco consciente da importância desses fundos movediços? Dito de outro modo, podia imaginar a criança que um dia Saramago foi que o mais primitivo dos refrescos que lhe foi dado a descobrir, feito de água, vinagre e açúcar, viria a ser usado pelo escritor para matar a última sede de Cristo no Evangelho? Aqui sem o açúcar. Que aconteceu a esta água e a este vinagre, que sedimentos fertilizou? O mais certo é que tenham sido anos, décadas em que o lençol subterrâneo e prodigioso da Memória se tenha alimentado, gota a gota, deste estranho néctar, e o tenha feito subir à boca — ou à imaginação — sabe-se lá por que sortilégio, no momento em que era mais necessário.

O tempo, como canta Caetano Veloso, é compositor de destinos, tambor de todos os ritmos, tempo, tempo, tempo, tempo. Memória, memória, memória, memória.

Estou a perguntar: de onde vêm as coisas? E quanto tempo duram as coisas. E o que é que marca a duração dessas coisas. Estou a falar de cronologia e de um corpo que tem um ciclo de nascimento e morte. E da biografia que este corpo escreve, e das biografias que se desdobram, como um harmónio, a partir deste corpo.

Desde sempre me impressiona em Saramago o que podia resumir como a centralidade do Corpo sem Corpo. Personagens que não têm uma consistência corpórea, que operam milagres, que vivem no milagre da linguagem.

N’ O Ano da Morte de Ricardo Reis, um personagem da ficção pessoana, Ricardo Reis, médico, emigrado no Brasil, poeta de versos de índole pagã, classicista, visita a campa do poeta Fernando Pessoa de cuja galeria heteronímica, na verdade, Reis nasceu. Saramago atribui uma data de morte a uma figura de quem tínhamos apenas o nascimento. Deste modo, atribui-lhe um ciclo, completa o arco de uma vida. Reis vive um amor com Lídia. Esse amor tem que espessura corporal, tem deveras carne?

No Evangelho segundo Jesus Cristo, o escritor mete o dedo, ou mesmo a mão toda, no dogma mais sagrado da civilização ocidental. Remexe na ferida, faz dele uma ferida, uma vez tocado. Saramago humaniza Jesus aludindo a uma relação com Maria Madalena. Como se lê no romance, foi assim que Jesus “conheceu o amor da carne e nele se reconheceu homem”. Uma pergunta que decorre desde logo daqui: a partir de que momento se é homem? Em que estrutura se opera a transformação do filho de Deus num Jesus de carne e osso, vísceras, órgãos, líbido? 

Ao invés, em Todos os Nomes, o leitor é fascinado por uma relação de amor entre um homem que procura e uma mulher misteriosa. Por quem é que este homem se apaixona, de facto? A paixão pela mulher misteriosa resulta apenas da efabulação de um homem entediado? Que peso tem a biografia? Ela é menos real pelo facto de não coabitar o mesmo tempo histórico daquele que a persegue?

Nota: Eduardo Lourenço considerava esta a mais bela história de amor escrita por Saramago.

Podia continuar a enumerar aparições deste corpo sem corpo em Saramago falando de Blimunda, da Mulher do Médico. De diferentes maneiras, é desafiado no Memorial do Convento e no Ensaio sobre a Cegueira o limite da matéria e da verosimilhança. Num ápice, por mor da palavra, somos atirados para o encantamento, deslizamos para um texto “que, com parábolas portadoras de imaginação, compaixão e ironia torna constantemente compreensível uma realidade fugidia”.

Aquilo a que chamamos corpo, existe? Aquilo a que chamamos mundo, existe? Aquilo a que chamamos Vida, existe?  

O próprio “E se”, esse dispositivo de que Saramago se serve para fazer um questionamento absoluto nos seus romances mais famosos, acaba por ser uma forma de sair da materialidade do corpo e da realidade concreta para penetrar na consistência dos sonhos (não por acaso, título de uma importante exposição retrospectiva, assinada por Fernando Gómez Aguilera, em 2008). O que predomina no “E se” é um fluxo sanguíneo a que gostaria de chamar: a racionalidade sensível de Saramago. Isto é, uma cabeça racional que sente, e que podia dizer com Fernando Pessoa: sentir é criar). Pode ser que sentir, pensar, criar sejam verbos irmãos.

Neste fluxo sanguíneo há também peixes, bichos, rios. Já lá vamos.

Vou arriscar e apontar com alguma segurança As Pequenas Memórias como o livro onde encontramos o começo de mundo de Saramago. É o lugar onde germinam algumas das alegorias que são declinadas nos romances da maturidade.

Na primeira frase deste livro, editado em 2006, é apresentado o corpo da terra: “à aldeia chamam-lhe Azinhaga”, fala-se taxativamente dos “alvores da nacionalidade”, da “estupenda veterania”, da “criação do mundo”. Todas as expressões nos remetem para um tempo primordial. 

A mitologia aborda o tema do começo das coisas sob múltiplas narrativas.  O mitólogo Karl Kerényi sistematiza algumas das histórias que respondem a esta ânsia de saber n’ A Mitologia dos Gregos. Emerge da organização destes mitologemas uma primeira evidência: a pergunta que subjaz, no essencial, é a mesma. Homero chama a Oceano a origem de tudo. Hesíodo, por seu lado, relata que primeiro surgiu o Caos. Mas aquilo que ocupa ambos é o questionamento acerca do começo. O sopro inaugural, a génese, a iluminação do mistério é o que os mobiliza.

Ocorreu-me esta passagem de Kerényi quando verifiquei que as primeiras páginas do livro descrevem esta paisagem: o rio Almonda que se encontra com o Tejo, as margens, a lezíria, os choupos, os freixos, os salgueiros, as oliveiras, os lagartos, os cavalos, os cães, o lugar onde a criança estende “gavinhas e raízes”, “o fundo movediço do imenso oceano do ar, esse lodo ora seco, ora húmido, composto de restos vegetais e animais, de detritos de tudo e de todos…”, essa Azinhaga “berço”, “bolsa onde o pequeno marsupial” teria de voltar “para acabar de nascer”. 

A pergunta acerca da origem é, de acordo com Freud, “a pergunta mais antiga e mais ardente da humanidade” nos primeiros anos de vida. Ouvimos o eco dessa primeira pergunta em inúmeros enigmas, mitos, lendas. Na dicção saramaguiana, esta pergunta aparece nas muitas alegorias com as quais é interrogada a condição humana, e é indissociável do momento seguinte, aquele em que, num plano ético e político, se discute: o que farei com o que brota dessa origem?

Mas retomando a frase: o que significa voltar à Azinhaga para acabar de nascer?

Muitos anos mais tarde, o escritor diria que Lanzarote foi uma Azinhaga reencontrada. Outro parto. De novo num espaço onde se impõe a força bruta, tosca e indómita da Natureza.

Nascer: um verbo físico tanto quanto comer, procriar, morrer — e escrever. A criança que Saramago foi não interrogava a paisagem como hoje o faz, no exercício da escrita. Então, a criança simplesmente estava na paisagem. 

Porém, o adolescente já escrevia um poema para o rio Almonda. E é desse poema que faz parte o verso: “nadam-me peixes no sangue”.

“Nadam-me peixes no sangue”.

Há uma força telúrica nesta formulação de juventude. É uma proposição poética assaz curiosa: nadam-me. Nas veias, nas veredas interiores deste humano que se está a fazer, o pronome acentua uma relação osmótica com a natureza, com a terra de onde provém. É muito diferente dizer: nadam peixes no meu sangue, transmutando o lugar rio e sangue. Dizer “Nadam-me peixes no sangue” não é apenas um artifício retórico. É deslocar o corpo próprio do autor para o corpo do mundo. Ou ainda: integrar o corpo do mundo no corpo do autor, na sua circulação vital. Saramago é peixes, é caudal, é água que passa entre as mãos abertas, é barcos, é o próprio corpo do rio, é “corpo despido que brilha debaixo do sol”.

É à sombra desta “nudez da infância”, e graças ao “poder reconstrutor da memória”, nessa inscrição do seu corpo próprio no corpo do universo, nessa revisitação da Azinhaga natal, que o escritor acaba de se parir, de se dar à luz.

Há na descrição destes tempos uma sensorialidade que importa assinalar. Apanhar uma lagartixa à mão. A pobríssima morada dos avós maternos, Josefa e Jerónimo, “esse mágico casulo onde se geraram as metamorfoses decisivas da criança e do adolescente”, as subidas à figueira do quintal, a alvura resplandecente da lua que tocou a fronte, a cara, o corpo, “algo para além do corpo”, certa manhã, ao sair da cavalariça, onde havia dormido entre cavalos. Esse instante, esse alvor, que podemos descrever como um cair em si, uma primeira consciência de si, é resumido como um: “… acabado de nascer. Já era hora!”.

Pequena suposição: alguma relação entre esta alvura da lua e o leite branco da cegueira, tantos anos mais tarde? Esta remissão não é apontada como começo do Ensaio. Por isso o deixo como pequeno fantasma.

N’ As Pequenas Memórias surge outra semente para o Ensaio, o Júlio, cego, internado num asilo. Passo a ler: “Tinha os olhos quase brancos e o ar de quem se masturbava todos os dias (é agora que o estou a pensar, não nessa altura), mas o que nele mais me desagradava era o cheiro que desprendia, um odor a ranço, a comida fria e triste, a roupa mal lavada, sensações que na minha memória iriam ficar para sempre associadas à cegueira e que provavelmente se reproduziram no Ensaio. Abraçava-me com muita força e eu não gostava.”

Abro um parêntesis para falar do Ensaio, porque o tema da cegueira está no imaginário de Saramago desde a juventude. Observando a parábola dos cegos de Bruegel, o Velho, pintura do século XVI, cegos conduzidos também por um cego, o escritor sentenciou: “A prova definitiva de que Deus não existe é a queda dos cegos de Bruegel”.

A viver em Lanzarote desde 1993, depois da censura e da ofensa, esta distopia literária foi escrita quase no virar do milénio, entre os vulcões da ilha. A paisagem circundante: cor negra. Isolamento. Mágoa. Contraste com o branco absoluto, o mar leitoso que inunda os olhos dos personagens do romance. Deus e a Religião assumem o protagonismo, e é prosseguido o questionamento iniciado no Evangelho sobre as origens da civilização ocidental. Na base, Saramago encontra a mentira, o dogma, a crueldade.

No Ensaio sobre a Cegueira, são tematizadas as fronteiras entre aparência e realidade, porque olhar para o invisível aumenta a compreensão do real.

O sentido da visão, órgão talvez maior, emerge nas perguntas do livro:

– A epidemia é física e espiritual?

– Quem vê?, os olhos ou cérebro?

– O que vemos realmente? Somos cegos que vêem, como se escreve no romance?

E, como no romance, vivemos uma pandemia altamente contagiosa, que nos pôs em contacto com o medo, a doença, a mortalidade, com uma situação limite. A nossa compreensão do que é o corpo, a mortalidade, as sucessivas camadas do real conheceu nos últimos anos, e conhece ainda, em diferentes proporções, uma alteração radical.

No meu primeiro encontro com Saramago, fiz-lhe uma entrevista a partir destas Pequenas Memórias.

– Começo por uma longa frase, que parece uma despedida: “Ainda não sabe que poucos dias antes do seu último dia terá o pressentimento de que o fim chegou, e irá de árvore em árvore do seu quintal, abraçar os troncos, despedir-se deles, das sombras amigas, dos frutos que não voltará a comer. […] Que palavra dirá então?”. Este livro deve ser entendido como uma antecâmara de qualquer coisa?

– Não diria isso. O tempo que tenho para viver já não é muito. Se tivesse que desejar uma maneira de terminar o meu trabalho, podia até considerar esta excelente. O fim volta ao princípio, o ciclo fecha-se. Há uma vida, há um trabalho, depois há um regresso às origens. Dentro de um ano ou dois já saberemos se é a antecâmara do silêncio ou se é simplesmente um livro de passagem para outro livro. […] Que eu tenho 84 anos e não posso viver mais 84, está claro. Não penso na morte. Ou melhor, todos pensamos na morte. A morte para mim não é tanto isso de morrer; é mais simples, e ao mesmo tempo mais duro. A pessoa estava e já não está – isso é que é o pior de tudo.”

A morte, o Tempo, para a pessoa que eu entrevistava, eram palavras com conteúdo específico, não eram conceitos filosóficos. Não há nada de oco. Trata-se de tocar o seu corpo e compreender que um dia é ele. Numa linha, se falamos de corpo, estamos a falar de morte.

Cito Eduardo Lourenço para corroborar esta ideia.

— “É uma frase que tem um sentido preciso: ter 91 anos. Mas o sentido que tem para nós não é o mesmo que tem para si. Para si é uma constatação cronológica. Para nós comporta uma leitura que não é a que faríamos se estivéssemos a falar do Ramsés II. Estamos a falar de uns sujeitos que vão morrer. E que sabem que vão morrer, como os gladiadores do circo romano. O melhor é encarar isso da maneira mais filosófica possível. Quer dizer, sabendo que o que quer que pensemos sobre aquilo que nos espera, nada podemos. Está fora do nosso alcance. Não somos os sujeitos de nós próprios. Nascemos embarcados, como dizia Pascal. Depois, somos desembarcados.”

Recordo, estas lembranças do Nobel português, postas em livro, são de 2006. Ainda viria a fome e a fúria de viver do Elefante e de Caim, e um livro inacabado, contudo embrião reconhecível, Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas.

As Memórias podiam ser um fim excelente, e outros houve, excelentes. Repõem Saramago no lugar da origem. O projecto do livro levava mais de 20 anos, começado, abandonado, retomado, explicou.

Recordo a epígrafe: “Deixa-te levar pela criança que foste”. E volto à entrevista, porque da criança damos um salto até ao outro lado do ciclo da vida, e de uma epígrafe passamos para um epitáfio. Responde o provocador Saramago:

— “Você falou de epitáfio, e há um interessante: “Aqui jaz Fulano de Tal, indignado”. Indignado, porque é uma partida que nos fazem, estávamos cá tão bem, supondo que estávamos bem, e de repente levam-nos a outro lado, onde não há nada. Não me vai perguntar se acredito no Além?

 — Não. Mas há uma figura do Além que aparece no livro, uma “costureira ímpia condenada a coser roupa à máquina por toda a eternidade dentro das paredes das casas”.

— Nessa época era tão natural, estava-se numa casa e uma pessoa vinha dizer: “Olha, lá está a costureira”… Ouvi-a em Lisboa e na aldeia. Punha-se o ouvido e era aquele ruído característico de quando se quer travar a máquina e se leva a mão à roda. Nunca ninguém achou que precisava de ser explicado. Que não era uma ilusão dos sentidos, alguém que disse e outro acreditou, não era.”

A costureira. No livro, a formulação não diverge: “Em certa altura, no silêncio da casa, a minha mãe dizia como se se tratasse da coisa mais natural do mundo: ´Lá está a costureira´. Eu aproximava o ouvido do sítio da parede que ela tinha apontado, e aí ouvia, juro que ouvia, o ruído inconfundível de uma máquina de costura […]. Era o triste fado de uma costureira ímpia que tinha trabalhado num domingo e que, por essa falta grave, havia sido condenada (acerca da identidade do juiz não ficara notícia) a coser à máquina por toda a eternidade dentro das paredes das casas.”

Eu encontro nesta costureira uma representação do mito de Penélope, que cose e descose a sua manta na espera de Ulisses. Naquela, a pobre costureira, no lugar da espera está o castigo. Para as duas mulheres, a punição, que é ficar retida, não sair do solavanco do tempo, vem a ser a mesma.

Se a trago para esta conferência é porque a costureira é uma metáfora poderosa para abordar estruturas materiais e imateriais de que venho falando: a casa corpo, o corpo Tempo, o corpo Memória. A costureira cose no interior das paredes da casa; no movimento da roda está a voragem inestancável do Tempo; e nesta memória, de um ateu, racionalista, comunista, está a capacidade de escutar o mecanismo do mundo, uma palpitação íntima. Pode manifestar-se numa máquina de costura, ou numa passarola.

Só tenho um nome para o fio, a linha que é usada pela costureira. É a mesma que Saramago usa na sua escrita: imaginação. Uma máquina e outra alimentam-se de vontades.

O título original era, não As Pequenas Memórias, mas O Livro das Tentações. Não confundir com O Livro dos Conselhos que aparece na epígrafe. Saramago convoca o alucinado Santo Antão da pintura de Hyeronimus Bosch e convoca-se a si mesmo, “sujeito do mundo, e, por inerência do cargo, sede de todos os desejos e alvo de todas as tentações”.

Esta é a porta de entrada para falar de sexualidade, descoberta, de um corpo vivo. Também do combustível desta máquina corpo. O desejo, o ciúme, o medo, a humilhação, a necessidade.

Resvala dos confins do tempo a pergunta daquela prostituta gorda: “o menino quer vir para o corpo?”. Da mesma galeria, sai a Domitília com quem brincou ao que brincam os noivos, pelos onze anos. Uma prima com quem fez uma “minuciosa e mútua exploração táctil” do corpo, o pé direito de José a tactear o púbis já florido da prima Piedade (Édipos à parte, há-de ter sido coincidência que o nome da prima fosse igual ao da mãe, o que é assinalado no texto pelo autor). Outra nota: este era o tempo em que todos tinham nome. Ao contrário do que acontece em romances tardios, nos quais a descaracterização, o não ter nome, o anonimato possibilita e enfatiza a ligação do particular ao universal, nos primeiros anos, os sujeitos têm identidade, têm fisionomia, têm cédula pessoal, têm biografia.  

O elenco de descobertas da sexualidade infantil e púbere é rematado com esta frase: “Aqueles, sim, eram tempos de inocência”. O que eu leio como: Tempos de paraíso, antes de comermos a maçã. O que é que altera a condição?, o que é que transforma o menino, grávido de uma curiosidade infinita, no homem que peca, que se sabe mortal e que é capaz de matar? E quando somos levados pela criança que fomos (novamente trago a epígrafe), que travo aparece? Sobretudo, a curiosidade? Também a raiva, a humilhação? Somos ainda e sempre essa criança, mesmo quando somos Caim, Iago e Otelo?

Neste meu corpo a corpo com o texto, faço muitas perguntas para pensarmos juntos. São sementes que hão-de conhecer o seu fruto mais adiante.    

Esta alusão aos personagens de Shakespeare traz, evidentemente, o tema do ciúme. Curiosamente, Saramago cita a ópera de Verdi, e não a peça do dramaturgo inglês. Cita especificamente a última cena da ópera Otelo para apontar os ciúmes como uma enfermidade congénita da família dos Dinises (seu tio e seu primo, novamente as pessoas denominadas). O ciúme: outro combustível de eficácia comprovada na máquina-corpo. O tio, possuído, cego de ciúmes (reparem como diziam vulgarmente: cego de ciúmes; isto é, sem poder enxergar devidamente, a racionalidade toldada por um espírito dionisíaco); o tio está capaz de repetir o homicídio do outro e fazer da tia uma Desdémona. A Tia Maria Elvira implora: “Diz-lho tu, Zezito, diz-lho tu, que ele em mim não acredita”. E remata Saramago: “Fosse eu da raça cobarde dos Iagos (não sei, não vi, estava a dormir) e talvez o silêncio da noite no Mouchão de Baixo tivesse sido cortado por dois tiros de caçadeira e uma mulher inocente jazesse morta…”.

Não resisto a intrometer nesta apresentação Bento Santiago, o autor ficcional que escreve as suas memórias no fim da vida, na persona Dom Casmurro. Estas memórias pouco ou nada têm que ver com as Pequenas Memórias de Saramago. Em primeiro lugar, Saramago não delega num autor ficcional a escrita de uma biografia e de uma tragédia, como faz Machado de Assis no seu romance de 1899. Saramago recua ao tempo em que foi José, Zé, Zezito, e fornece pistas para a resignificação do seu passado, dos seus anos de formação, para as ocorrências que encontraremos nos seus livros. Tomai e lede todo, este é o meu corpo-acervo. Resgatai deste laboratório a pedra que um dia burilei e fiz estátua. 

Porém, tratando-se o livro de Machado de ficção e o de Saramago de não-ficção, perturba desde logo a hibridez de registos com que somos recebidos. A epígrafe provém do Livro dos Conselhos, como já foi dito, à semelhança da sentença oracular do Ensaio sobre a Cegueira. Então, quem é este autor omnisciente que dá conselhos, e que escreve livros onde estão os seus conselhos? Porque escreve ele e a quem se dirige ele? Claro que o exercício da escrita, inclusive da escrita memorialista, tem implícita a noção de audiência e de posteridade. Sobretudo, constitui em si uma herança que é legada às gerações vindouras. O corpo-texto é transmitido como um património que leva impresso o código genético do autor.

Saramago escreve na primeira parte d’ A Viagem do Elefante: “É a lei da vida: triunfo e olvido”. Interpelei-o sobre esta asserção. É inevitavelmente assim? A sua resposta: “Não vale a pena que tenhamos ilusões. Pode não acontecer em 50 anos, e talvez em 100 anos ainda haja quem me leia. Depois passo a ser um nome. Um nome que algum excêntrico vai ler e conhecerá. Quem é que, no momento em que estamos aqui a conversar, está a ler o Camões? – para além dos que tenham de lê-lo por obrigação. Quem é que está a ler o Gil Vicente, Dom Francisco Manuel de Melo, ou Padre António Vieira? Quem é que tem paciência para ler sermões, mesmo que eles sejam um esplendor? Este pendor relativizante começou por mim mesmo. Depois do Ensaio sobre a Cegueira, disse que se pudesse ser recordado por alguma coisa no futuro, que me recordassem como o criador do Cão das Lágrimas. Já vê que é pedir bastante pouco… Ninguém escreve para o futuro, ao contrário do que se julga. Somos pessoas do presente que escrevemos para o presente.”

A despeito destas declarações, escreveram, Saramago e Machado, pelo menos a partir de certo momento, com a intuição de que os seus textos seriam escrutinados. Que uma plateia interrogaria os porquês, procuraria o sentido.

Por exemplo, no caso do escritor brasileiro, nunca saberemos se Machado-Casmurro pretendeu enovelar-nos no nome de Bento Santiago. Bento de nome próprio, Santiago de apelido de família. Penso que sim. O enigma do romance e o diálogo intertextual com o Otelo de Shakespeare é adensado pelo facto de o personagem reunir em si, num mesmo nome, dois vértices fundamentais: ele é simultaneamente Santo e Iago. É Bento, Santo e Iago.   

No caso de Saramago, voltando aos seus ciúmes e às suas citações, ele mesmo diz que não foi Iago.

Não foi Iago quando um dia, entre ruínas, porcos e o olival, deu com uma cena de adultério. Uma mulher compondo as saias, um homem a abotoar as calças. Perto, havia visto um grande lagarto verde. O homem encontrou maneira de lhe pedir o silêncio entre parcas palavras e duas baforadas de cigarro. O jovem rapaz conhecia o marido. A sugestão elíptica do tractorista era a de que a cena devia permanecer em segredo. Era uma mulher asseada, que aparecia e desaparecia entre as árvores.

O que aqui interessa é que a mulher nunca mais se viu e o lagarto verde também não.

Podemos extrair deste episódio outra representação da maçã do paraíso, daquilo que divide em duas metades a inocência e o pecado, um antes e um depois. Um corpo — o da vida — cindido ao meio. O lagarto, esse animal irrequieto, de formas fálicas, é o fim do livro e o fim da inocência.

Mas porquê?

Senão a moralidade impregnada de religião, que outra coisa atribui ao sexo a noção de proibido? Era uma relação sexual fora do casamento, irregular. Apesar disso, o que mais impressiona é a circunstância de José testemunhar uma coisa indevida. Viu, e assim fica a saber, algo que não devia ver. Há a verdade crua do corpo, dos seus desejos e relações que fica destapada, sem mistério. Talvez tenha sido, para o jovem em formação, um retrato do humano como ele é. Sem juízos. Já a Tia Elvira, a tia que por pouco foi Desdémona, dizia que Saramago era de “boa carnadura”.

O contexto era outro. O comentário era relativo a uma ferida que não infectou e que cicatrizou perfeitamente. Tratava-se do corpo físico, não do corpo moral.

Mas vamos utilizar a expressão “boa carnadura” para, de novo mergulhar no rio dos primeiros banhos, ver como foi arada a terra fértil da infância, receber o calor dos animais, aprender o léxico que denomina o mundo arcaico, fazer a costura entre a botânica, o biológico, o metafísico, entrever pessoas que inspiram personagens arquetípicas: os avós, o irmão morto precocemente. Farei ainda um voo de pássaro sobre o nascimento de um novo mundo que surgiu com a leitura e o travo da humilhação e da necessidade, que ficou como marca nos ossos.

A morte de Francisco, aos quatro anos, de bronco-pneumonia constitui um dos acontecimentos determinantes da vida de Saramago. Foi enterrado na véspera de Natal. Uma criança é sempre para os seus pais, mesmo os mais humildes e pouco dados a simbologias, um Messias. Não é difícil pesar o abalo que esta morte teve na vida da família, ainda mais em vésperas do Natal, quando se celebra a vinda daquele que salva. Uma criança continua e perpetua um nome, confere um sentido, é prolongamento. Para repetir as palavras de Schopenhauer, manifesta-se assim a voz da espécie, a vontade da espécie. Manifesta-se uma animalidade que nunca nos abandona, que não sabemos de onde vem e que nos faz querer o dia seguinte, procurar a extensão da árvore genealógica. Mesmo que se tenha dado o estranho caso, com o qual Saramago graceja, de este filho dar o nome ao pai, porque Saramago era alcunha e não nome de certidão, este filho José prossegue um instinto, exprime uma continuidade. De certa maneira, escrever é sempre uma forma de montar uma árvore genealógica.

Os problemas que decorrem da morte do irmão são fracturas importantes na biografia e na obra do escritor. Podemos pensar numa culpa originária. Porque é que Saramago sobrevive e o irmão não? Sabemos também, a partir de Saramago, do temperamento azedo da mãe e da dificuldade em exprimir ternura, em particular desde a morte do filho mais velho. Saramago, que tinha dois ou três anos, não lhe conheceu outra natureza, nem manifestações de carinho. 

Sempre me interroguei sobre a escolha de Caim para livro de despedida. Sem a certeza de que seria a despedida, existia, pelo menos, a intuição de que poderia ser. A minha pergunta é: porque é que se impõe este tema no fim da vida? Depois de um romance solar, expressão eloquente de uma carnadura que foi ao fundo do poço e regressa vivificada, como o Elefante, Saramago reescreve um episódio do Génesis onde está o primeiro homicídio da História. Mais do que propor novas leituras para a luta fratricida dos irmãos Caim e Abel, para o ciúme e despeito que faz que o mais velho mate o mais novo, considero que Saramago se está a enfrentar com Deus. Portanto, com a figura do pai e não com a figura do irmão rival. De acordo com este cenário, a Saramago, sendo o mais novo, corresponderia Abel, o irmão alvo de ciúme, o preferido e assassinado. De todo o modo, reflicto sobre o lugar que ocupa a morte do irmão neste enredo.

Outra ponta que vem com a morte de Francisco: o registo de óbito não existe no Instituto Bacteriológico onde morreu. Como se o seu corpo tivesse morrido, mas a sua identidade civil não. E a sua memória seguramente não. Esta inexistência e esta demanda, que o próprio escritor empreendeu nos registos civis, no final dos anos 90, inspiraram o romance Todos os Nomes.

Penso de novo na cenografia do Natal e na representação da Sagrada Família quando vejo José nas palhas. Mas desta vez, com o avô e com o tio. A cena é a seguinte: o neto acompanha o avô e depois o tio na venda dos bácoros. Dormem numa cavalariça. E agora cito: “A nossa cama seria um dos extremos da manjedoura que acompanhava toda a parede do fundo. Estendi-me sobre a palha fresca como num berço, enrolado na manta, respirando o cheiro forte dos animais”.

O avô Jerónimo não era o progenitor de José, mas a sua presença como figura paterna e tutelar é inegável. É ao avô e à avó, a quem é possível atribuir esta ressonância mítica e triangular, que Saramago dedica as primeiras palavras no discurso de aceitação do Nobel. “O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever”. São palavras que sabemos de cor, porque as ouvimos muitas vezes, mas também porque foram ditas e as sabemos com o coração. Saber de cor quer dizer, etimologicamente, isso mesmo.

Cito de novo As Pequenas Memórias: “Todas as noites, meu avô e minha avó iam buscar às pocilgas os três ou quatro bácoros mais fracos, limpavam-lhes as patas e deitavam-nos na sua própria cama. Aí dormiríamos juntos…”.     

Os bácoros têm uma representação simpática na memória do escritor. Estão inseridos neste quadro de cuidado e presenças afectivas estruturantes.

Outros bichos têm uma conotação negativa. Por exemplo, os cães, os cavalos, as baratas.

O caso dos cães é particularmente interessante. Como já ouvimos, Saramago tem predilecção pelo Cão das Lágrimas, e conhecemos as fotografias em Lanzarote com os três cães, Pepe, Camões e Greta. Mas no começo, havia medo. A palavra usada é: temor. Temor aos cães.

Remonta a um susto que apanhou aos sete anos. E, indissociável do susto de ver um lobo d’ Alsácia a correr desembestado na sua direcção, há o riso dos vizinhos, que não o socorreram e escarneceram do pânico do rapazinho.

O caso dos cavalos é um caso de fascinação que se transformou num problema de “desgosto e humilhação”, por sofrer, e cito: “os efeitos da queda de um cavalo que nunca montei”. Em resumo, o tio não lho permitiu. A dor da queda foi sentida até ao fim e atenuada pelos muitos cavalos que tinha espalhados pela casa.

Outro bicho: as baratas. Marca da privação, da extrema pobreza. “Dos tempos da Rua Heróis de Quionga pouco mais tempo para dizer, só algumas recordações soltas, de mínima importância: das baratas que passeavam por cima de mim quando dormia no chão; de como comíamos a sopa, minha mãe e eu, do mesmo prato…”.

Por fim, o elefante. Se as baratas dizem a necessidade, os cães o temor e os cavalos a fascinação, que palavra identifica a importância do elefante?

Novamente a palavra a Saramago, na entrevista sobre este livro:

“— O Torga, nos “Bichos”, que são uns contos magníficos, antropomorfizou tudo – aqueles bichos pensam. Eu não queria isso. Queria que o meu elefante fosse levado de Lisboa a Viena como um animal que não sabe onde o levam, que não tem nenhuma ideia de qual possa ser o seu destino e que vai andando, porque outros o levam, e também vão andando. Realmente, é um pouco como a vida. O que dá sentido a este livro é o final – o final da vida deste animal, Salomão. Como tinha que acontecer, esfolam-no. A pele é oferecida pelo arquiduque a um conde qualquer. As suas pernas andaram milhares de quilómetros, estiveram na Índia antes de o trazerem para Lisboa, serviram-no. E essas mesmas pernas são cortadas e transformadas irrisoriamente num recipiente para pôr as bengalas, os guarda-chuvas, as sombrinhas. Sem isso, provavelmente o livro não existiria. Esse é o destino do elefante que faz essa viagem, com episódios épicos, e que acabou ali. A epígrafe do livro acompanha isto: “Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam”. Claro que em termos latos, aquilo que nos espera é sempre a mesma coisa: a morte. Neste caso, não é só a morte, é o destino final. Caricato.”

O Elefante sumariza muitos aspectos que venho tratando. A vida, a viagem, a morte do corpo biológico, resgatar a memória desse corpo que fenece, fazê-lo pronunciando um nome, perpetuando uma narrativa.

Saramago diz que nunca mais voltou a ver o lagarto verde. E nós, somos capazes de ver um elefante sem pensar em Salomão? Em Saramago.

 

Nos dias 2 e 3 de Dezembro 2022, realizou-se na Universidade de Massachusetts Dartmouth, nos Estados Unidos, o colóquio "Saramago at 100: bodies and materialities", organizado por Anna Klobucka e Kathryn Bishop Sanchez. Este é o texto que li na ocasião, mais tarde publicado na revista Blimunda. 

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