O quarto do bebê
"A linguagem de O quarto do bebê é muito trabalhada e expressa o tumulto de vozes a que se refere a narradora-leitora. É um delírio pensado, um escrever racionalmente a desrazão. O desfecho é belo e forte. E não poderia faltar a esse quarto o velho e bom Conselheiro Aires." Milton Hatoum
Em O quarto do bebê (Bazar do Tempo), romance de estreia da escritora e jornalista portuguesa Anabela Mota Ribeiro, a morte de um renomado psicanalista leva sua filha única a encontrar, entre os papéis deixados pelo pai, o diário de uma paciente, Ester do Rio Arco. O que começa como uma leitura movida pela curiosidade logo se transforma em uma obsessão e em uma forma de conexão com seu passado e o momento presente.
Convidada da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) 2025, que acontece entre 30 de julho e 3 de agosto (ver serviço), a autora revela, já nas primeiras páginas, o tom confessional e radical da obra: “A palavra que estava na ponta da adaga era nu. Escrever é conseguir estar nua, desorbitada, fora do tempo cronológico. É avançar nua e intrépida. E sem vergonha, que é o mais difícil. Nua. Sinônimo de diário. Estar a sós comigo, a falar comigo”.
Anabela maneja a palavra com intimidade; seja no jornalismo, nos programas televisivos de entrevista que apresenta em Portugal ou em seus estudos acadêmicos. O lançamento de O quarto do bebê, no entanto, representa uma nova descoberta de sua relação com a escrita e a literatura.
Gestado durante o isolamento da pandemia da Covid, o livro carrega também marcas de uma experiência pessoal intensa: em 2019 foi diagnosticada com um câncer de mama. Entre o confinamento e o enfrentamento da doença, nasceu uma prosa que funde a ficção ao vivido. Em seu espelho, há a vida de uma mulher que habita, simultaneamente, um corpo enfermo e um planeta febril.
“Desde a ‘Advertência’, tive a intenção de formular uma pergunta fundamental: por que é que escrevemos, para quem é que escrevemos, que legado deixamos, como será dito o nosso nome. Pode ser que a escrita seja uma maneira de lidar com temas como filiação e genealogia, um modo de extravasar a minha pulsão criativa — de exprimir a minha fertilidade e a minha orfandade às avessas (expressão machadiana do Memorial de Aires)”, aponta a escritora.
Narrado em forma de diário, a obra é declaradamente autoficcional e evoca, além da experiência do câncer, a impossibilidade da narradora-protagonista de ser mãe. O quarto do bebê que ela prepara com cuidado nunca acolherá uma criança. Mas vêm à luz as reflexões da protagonista sobre maternidade e filiação, o corpo feminino, nascimento e morte, atravessadas por referências à literatura de escritoras como Annie Ernaux, Joan Didion e Natalia Ginzburg.
É no diálogo com Machado de Assis, porém, que se encontram alguns dos questionamentos mais cativantes. Fascinada pela obra do escritor brasileiro, tema de seu mestrado que resultou no livro A flor amarela – Ímpeto e melancolia em Machado de Assis, de 2017, a escritora convoca para o seu romance questões presentes na prosa machadiana, em obras como Memórias póstumas de Brás Cubas e Esaú e Jacó.
“Escrever, editar, enxertar são células primordiais deste livro. Mas a principal talvez seja a ambiguidade, essa granada que incendeia tudo. Sou uma leitora e estudiosa de Machado de Assis, para quem a ambiguidade é uma palavra fundamental”, avalia em entrevista ao Jornal de Letras em Portugal.
Recebido com entusiasmo pela crítica e pelo público em Portugal, o romance tornou-se um dos lançamentos mais comentados de 2023. Sobre a obra, a escritora Lídia Jorge afirmou: “Anabela Mota Ribeiro transforma uma experiência abissal em magnífica literatura. A escrita, em forma de rizoma, chama associações e reproduz uma corrente de consciência que é, ao mesmo tempo, uma corrente de subconsciência. Uma estrutura estelar que permite correr entre pensamento, ação, desejo, atualidade, referências literárias, um mundo.”
“A minha paixão pelo Brasil começou aos 17 anos, quando escutei ‘Chega de Saudade’. Embora a relação amorosa já existisse desde a infância, quando ouvia com os meus pais os discos de Roberto Carlos. O que é certo é que o Brasil se fez outro quando encontrei com Machado de Assis (eram contos sobre ciúme, depois Dom Casmurro) e a seguir o estudei no mestrado e no doutorado (em curso). Nenhum outro autor de língua portuguesa me interpela e me acompanha como Machado. Que o Brasil seja o primeiro berço do meu romance fora de Portugal, é uma alegria imensa. Permite-me sentir-me ainda mais em casa.”
Press release d' O quarto do bebê, lançado a 17 Julho 2025 no Brasil
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