O Quarto do Bebé p/ Ana Gabriela Macedo - Univ. Minho
Momento 1
Foram muitos os livros escritos sobre a pandemia, e o tempo/ não tempo pandémico. Procurando as formas de dizer o indizível – a dor, o medo, o desconhecido, o abismo, mas também o seu reverso – a
solidariedade, a partilha, a abnegação, o esquecimento de si, o silêncio em todo o seu esplendor.
Os processos catárticos assim o exigem: a necessidade humana de expurgar o mal, confrontar os nossos fantasmas. E aí, a palavra impera, é âncora e salvação. Para uns, no gesto simples da fala quotidiana, da interação pura; para outros, através da escrita. Mas sempre significando a necessidade humana da verbalização, de nomear, de dizer-se a si, dizendo o outro, dizendo o Mundo – e o seu reverso especular, igualmente verdadeiro, igualmente regenerador (da memória, dos afectos, de recuperar nem que seja por escassos momentos, o “halo luminoso da vida”, como escreve Virginia
Woolf).
O que há num nome? /Se fosse dado outro nome/ à rosa seria menos doce o
seu perfume? (assim o lemos em Romeu e Julieta).
“A vida é um bem, não é um facto”, escreve a autora, citando José Gil. Axiomas que ajudam ao processo de sobrevivência, mesmo durante a noite mais escura, palavras-rede que nos seguram. “Todo o esforço humano está em transformar o medo da morte em gesto de dar forma à vida, desde fazer pão a um axioma de matemática”, na expressão de Hermann Broch, através de Anabela Mota Ribeiro.
Este livro é feito de momentos vários, de índole muito diversa:
“Escrevo como quem doba, junta pedaços de vidro, alisa e vê aparecer fios de ideias”, assim descreve a autora o seu processo de escrita” (p.121).
Momento 2
Com+paixão : “Quando chegarmos ao Verão já não seremos crianças feitas para grandes férias”, lemos, numa evocação de Ruy Belo, mas antes “crianças velhas, conscientes do perigo, tristes” (p.75). “Reconstruir esse reduto a partir do qual tudo começa”, é o desafio que a escrita deste livro nos propõe. Um dia, vinda de Espanha, a notícia mais triste: “Vi uma mulher a abraçar um caixão”, rememora a autora (p.71). É no cruzamento do olhar autobiográfico e do olhar-se através do olhar do outro, na raiz dessa inter e intra-subjectividade, no espaço liminar desses dois olhares, que esta narrativa se diz, situando-se na esteira de uma longa tradição literária de questionamento da viabilidade mesmo da autobiografia, e evoco Gertrude Stein e a sua Autobiografia de Alice B. Toklas (a vida de Stein contada pela voz de Toklas, escrita pela mão de Stein).
O Quarto do Bebé é um título que nos toma de surpresa, de sobressalto, quase. Primeiro romance de Anabela Mota Ribeiro (diz-se na contracapa, mas eu estou convencida de que ela guarda secretamente outros na gaveta...), que vem na senda de muitas outras narrativas anteriores que a autora, jornalista de profissão, e investigadora por opção (estudiosa apaixonada de Machado de Assis, figura imanente a este livro), entrevistadora, colaboradora de inúmeras revistas, jornais, TV e rádio, em tudo imprimindo o seu olhar atento ao mundo e o seu culto da palavra.
Mas, falava eu do sobressalto. Vamos, a pouco e pouco desvendando o significado metonímico deste título, intuindo-lhe as nuances, construindo-o como um puzzle, resgatando-o, unindo os segmentos díspares e os fios desta teia de reflexões, impressões, momentos de vida.
Não esquecendo nunca que este relato é parte de uma “talking cure”, tarefa catártica que se traduz na articulação da palavra, no acto compulsório de “nomear”, na expressão da fala ou da escrita. E assim, as “pontas soltas” deste cenário, que oscila entre o doméstico, o familiar, e o estranhamento do mundo em “estado de sítio”, assolado pelo incomensurável da pandemia (“Respeitar o distanciamento social, entre 1,5m e 2m de distância; evitar ajuntamentos ou permanecer em grupo; observar as regras de higiene pessoal e a etiqueta respiratória” ...).
Retalhos ou vignettes, dizia-se antes, fragmentos dizemos nós hoje, na época da pós-modernidade e da pós-verdade. Teia, prefiro dizer eu, evocando o labor feminino, a um tempo protector, reflexivo e feroz na defesa da intimidade. E não posso deixar de evocar a majestosa Aranha de Louise Bourgeois, não acidentalmente chamada Maman, entre as muitas figurações desta simbiose ex-cêntrica e mítica da Aracnè, frequentemente glosada, quer visual, quer literariamente, por inúmeras artistas mulheres e todas as Cassandras da História, muitas delas rasuradas por essa mesma História.
Momento 3
À laia de Introito deste livro, lemos pela mão da autora:
A palavra que estava na ponta da adaga era nu. Escrever é conseguir estar nua, desorbitada, fora do tempo cronológico. É avançar nua e intrépida. E sem vergonha. Que é o mais difícil. Nua. Sinónimo de diário. Estar a sós comigo, a falar comigo”.
Retomando a nossa questão inicial, entendemos assim tratar-se de um Diário de si enquanto Diário do mundo em redor, em pleno sobressalto. E de que modo, perguntamo-nos, é que esta escrita “nua e intrépida” ajuda a resistir, a enfrentar medos e fantasmas? Pergunta sem resposta, centenas de vezes formulada ao longo da história da Humanidade.
“Mas o que pode a literatura, manas? O que podem as palavras?”. Assim o disseram audaciosamente as Três Marias nas igualmente inclassificáveis, em termos de genológicos Novas Cartas Portuguesas em 1972, como forma de enfrentar a censura política e a rasura da História, que invisibiliza a escrita das mulheres, porque é de “minudências” que elas se ocupam.
Daí uma possível interpretação deste título, O Quarto do Bebé – assumindo a autora ironicamente o “suposto lugar de fala” típico do discurso feminino – o espaço do doméstico, o mundo das crianças, pueril, o espaço das tais “minudências”. Lembramos, de novo pela voz irónica de Virginia Woolf, que ao longo de vários séculos, “anónimo” traduziu nome de mulher. Em contraponto com os temas épicos – a guerra, a política, a economia, assunto dos “grandes mestres”. E se Shakespeare tivesse tido uma irmã? Teria acabado os seus dias louca, ridicularizada pelos seus sonhos de grandeza, ou talvez pior, esquecida num prostíbulo.
Disso se tem ocupado, de longa data, a crítica feminista, reivindicando que “o pessoal é político”, subvertendo esta falsa hierarquização e transgredindo as fronteiras. E penso nas Guerilla Girls, nas Pussy Riot, no Mulherio das Letras, nas Marianas e Marias Anas, e tantas outras rebeldes e “incendiárias” da História com maiúscula, e das histórias com minúscula.
As Sufragistas do início do Sec. XX souberam abertamente dizê-lo, reclamando o voto (ogres de saias, como lhes chamavam) e, como tal, a palavra, contra a clausura e o silenciamento. Mas o Feminismo e a reivindicação da palavra não começou no sec. XX, se atentarmos por exemplo numa filósofa e livre pensadora como Mary Wollstonecraft, que em pleno sec. XVIII, escrevia tratados em defesa da Educação das Mulheres, como um direito seu, instigando-as a saírem da “gaiola dourada” da sua clausura, que muitas vezes elas mesmas preferem ignorar em vez de combater. Porque é mais fácil calar e consentir, em lugar do “furor” como dizia Ana Luísa Amaral.
Momento 4
Num registo outro, a sombra da doença e da morte perpassa todo este texto. A doença sentida como uma “desconsideração” face à vida, a qual se traduz num ímpeto, uma força redentora, assim o formula a autora. Um duelo cruel e constante que reflecte, a nível pessoal, o que acontece “lá fora”, no mundo pandémico, igualmente dizimado por um outro tipo de cancro, inusitado, abominável. Em contraponto, Violeta Parra, Camané, Cartola, até Alfredo Marceneiro interpretam distintos matizes desse duelo incansável entre a vida e a morte, a luz e a sombra. De igual modo Godard, Fellini, entre outros, lhe acentuam os distintos contornos. Tendo sempre, em pano de fundo, Machado de Assis, em diálogo íntimo e continuado, em particular Brás Cubas, com quem a autora partilha, amorosamente, as suas Memórias póstumas.
Por fim, destaque para o “corpo-casa” / a “casa-corpo” a preservar, como um santuário.
Termino com as palavras da autora:
“A escrita do diário é a célula primordial, dá som ao silêncio, ao inexprimível, alumia a escuridão. Escrever é ser capaz de gerar” (p.273).
Daí a metonímia, O Quarto do Bebé, resgatando o ímpeto da vida contra a “desconsideração” da morte e do esquecimento. A palavra como “célula primordial”. Escrever, um infinitivo que é gerúndio – acto e processo.
Recensão de Ana Gabriela Macedo, professora da Universidade do Minho, publicado na revista Colóquio Letras, n. 215, Jan-Abril 2024, e texto base da apresentação do livro no Porto, em Junho de 2023