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Anabela Mota Ribeiro

O Quarto do Bebé p/ Prof. Antonio Sáez Delgado - Univ. Évora

01.02.24

O Quarto do Bebé é um livro que é, ou que são, vários livros: é um livro (um romance) sobre genealogia, sobre filiação, sobre pais e filhos, e sobre a possibilidade de que essa cadeia (da vida real) seja quebrada (pela morte, pela infertilidade). É um livro sobre a memória (também sobre a memória como estratégia de ficção) e o sentimento de desamparo. É um livro (um diário) sobre o isolamento (pandemia) e a doença, sobre a sombra da morte, sobre a aprendizagem da dor, mas também sobre a amizade e os pequenos mistérios do quotidiano que nos salvam. É um livro sobre a escrita (uma espécie de arte poética romanceada) e sobre o corpo. Sobre o corpo feminino (e feminista), sobre o corpo do país (Portugal), da sociedade em que vivemos e a história que construiu o nosso presente (guerra colonial). E é também um livro sobre livros, sobre leituras (Machado de Assis), sobre filmes, sobre a cultura que atenua o nível de opressão da realidade.

É, em definitivo, um livro sobre o espetáculo (no melhor sentido da palavra: contemplação) do eu, da intimidade; mas que acrescenta uma dimensão política da intimidade.

As suas fronteiras são difusas. O género é híbrido, mestiço, de autoficção. Sabemos que, com frequência, a realidade é menos verosímil do que a ficção.

Este enquadramento, apresentado na contracapa, leva-nos à definição de Doubrovsky: autoficção é a “ficção de acontecimentos reais”. Ou seja, é a ficção da realidade, sim, mas também a manifestação da irrealidade do passado. É uma aposta pela ficcionalização da vida vivida, que nos ensina o caráter ficcional do eu e a impossibilidade da representação mimética. Doubrovsky fala do “vazio do pronome pessoal eu”.

Sendo diário, situa-se entre a ficção pura e a autobiografia, promove um cruzamento entre o autobiográfico e o social. E o facto de ser autobiográfico já é um grande e profundo grito feminista.

A essência do romance está nas dedicatórias e epígrafes. Naquilo a que, na academia, chamamos paratextos. Faz-se uma ama alusão à “selva oscura” de Dante, isto é, a uma viagem ao inferno. E há uma citação de Ana Hatherly e ao “ato de escrever”.

Na “Advertência” com que o livro abre, deparamos com elementos importantes:

- Morte do pai;

- Manuscrito achado;

- Presença do sonho;

- Ressonância borgeana: diário do pai (deixado para mais tarde); diário da Ester do Rio Arco (trabalhado);

- Diário = Corpo: “a paternidade deste corpo é também sua”;

- Machado de Assis, Esaú e Jacó: na Advertência, fala da aparição dos cadernos do Conselheiro Aires. O último tinha o título “Último”, e foi transformado em Esaú e Jacó. O título dado por Ester era Fala Orgânica, “A Filha do Meu Pai” transforma-o em O Quarto do Bebé;

- Identificação da narradora com o diário de Ester: infertilidade, apesar de ter sido mãe, e sentimento de amputação;

- Diário = Bebé: “faço deste bebé órfão um filho adotivo […] Dou-lhe outro nome. Justamente O Quarto do Bebé;

- A Advertência começa e acaba com uma referência ao pai da narradora: “Quando o meu pai morreu, achei-lhe na secretária uma série de cadernos manuscritos. […] Julgo por fim compreender porque me interessei pel’O Quarto do Bebé. Porque me permite sentir o colo do meu pai, regredir ao útero do meu pai.”

A metáfora mais poderosa do livro está no ato de escrever. “Escrever um diário, forçar-me a escrever um diário é igual a subir e descer as escadas deste sexto andar. […] Esta escrita tem um artificialismo que me desagrada, uma patine de autoficção, narcisista.” Ester batiza o escritório como “o quarto do bebé. Lugar de criação, gestação, vida.” “Não compreendo porque resisto se me faz sentir tão bem. Pode ser medo de não ser capaz.” Correspondências: Diário = Vida. Escrever = Viver.

Mas encontramos muitas metáforas. Uma metáfora da Vida através da politicidade da intimidade, da líbido: “a própria vida em acção. A vontade de viver. [...] O meu corpo e o meu ser a falar em discurso direto. Um filho, como a escrita, é a extensão orgânica de quem somos. [...] Adeus, meu rico útero, meu coitadinho, que nunca me serviste para nada. Sempre soube que o teu lugar era na cabeça, na ponta dos dedos. [...] A escrita do diário é a célula primordial, dá som ao silêncio, ao inexprimível, alumia a escuridão. Escrever é ser capaz de gerar”.

Surge então o diário como um bebé: “Não sinto o meu bebé, mas sinto-me grávida. Sei que ele não morreu. Asfixia-me a possibilidade de dar à luz um nado-morto, de o diário ser um nado-morto. […] Que filho será este?”.

Outras presenças relevantes:

- Luto do corpo fértil. A aridez;

- Limpeza: “Sinto uma grande alegria em limpar, limpar, limpar a casa”;

- Nova metáfora: a casa nova, o corpo novo; limpar a casa/corpo/mundo/vida;

- Mãe: “A minha mãe, que é todo um livro...”. As raízes, o passado e a memória que vêm com ela. “Fez o que eu não fui capaz de fazer: ter filhos e educá-los bem”;

- Pai: “Estão concentrados nele os sentimentos mais extremados que já experimentei.” E com o pai vem a Guerra Colonial, esse país político, as fotografias como mecanismo de avivar a memória;

- Criança vs. Adulta;

- Dupla doença: individual (cancro) e coletiva (pandemia). Há uma indagação sobre o medo sobre a culpa de sermos privilegiados;

- Criação: corpo doente e corpo criado. “O mais provável é que, resolvida a tese, escreva um romance que será um pão sagrado que se ladeia com as mãos, corpo parido de outra gestação. Esse é que será o meu corpo”;

- Amizade/filiação: Aurora é personagem principal. Aqui, as fotografias são um mecanismo para manter a presença de um corpo;

- Feminismo: “O corpo das mulheres é um lugar de batalha. No nosso imaginário, vemos aleijões, partes decepadas, a sombra de um cutelo a acompanhar os nossos passos. Não me surpreendeu a confissão da minha amiga. A maior parte das mulheres sofre na sua vida alguma espécie de violência sexual, psicológica, moral. E não conta. Carrega os seus túmulos em vida, como se não fosse nada.” Dito de outro modo: o facto de ser autobiográfico já é um grito feminista;

- Quotidiano. Comidas, flores. Também a depressão;

- Sonhos. Passagens de documentos, cartas, como uma sucessão de bonecas russas;

- “Nasci do cancro” [...] “Esta campa tem de ser para mim outro berço”. “Somos vísceras e medo”;

- Estilo: “Frases de três palavras, palavras contundentes, tudo de granito. Nem um átomo de supérfluo”. Expressão fria, distante vs. Narração de acontecimentos graves, fortes, poderosos, cruéis;

- Arte poética (doméstica): “Escrever é fazer um pão. É dar uma forma ao medo, torná-lo comestível, ser capaz de o cuspir.” Eugénio de Andrade tem um poema em que fala de regar couves, da intimidade com a terra: assim se faz o poema. A autora encontra essa intimidade com a terra assim: “Escrever é conseguir estar nua, desorbitada, fora do tempo cronológico. É avançar nua e intrépida. E sem vergonha, que é o mais difícil. Nua. Sinónimo de diário”;

É um livro em carne viva. É um livro de uma leitora sagaz, lúcida, inteligente, extremamente sensível, que faz neste seu primeiro romance uma poética do corpo: do corpo como território, como país, mas também como escrita. Numa linha: se o Corpo = Texto, O Quarto do Bebé é uma radiografia da alma de Anabela Mota Ribeiro.

 

Texto apresentado por Antonio Sáez Delgado, professor catedrático da Universidade de Évora, na livraria Fonte de Letras, em Évora, a 9 Dezembro 2023.