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Anabela Mota Ribeiro

O Quarto do Bebé p/ Prof. Catarina Martins - Univ. Coimbra

01.06.24

“E se acaso a mulher percebe a sua servidão, e a rejeita, como, a quem identificar-se? Onde reaprender a ser, onde reinventar o modelo, o papel, a imagem, o gesto e a palavra quotidianos, a aceitação e o amor dos outros, e os sinais de aceitação e amor? Bem sei, antepassada Maria Ana, de que te queixavas, do que eras incapaz: de inventares sozinha a mãe, a heroína, a ideologia, o mito, a matriz, que te pusesse espessura e significado perante os outros, que até aos outros abrisse caminho, se não de comunicação, pelo menos de inquietação.” (Extractos do diário da Ana Maria, Novas Cartas Portuguesas, p.198)

            Este excerto das Novas Cartas Portuguesas, de Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, sintetiza, a meu ver, o conceito de revolução feminista, descrita, no mesmo fragmento diarístico, como a mais profunda e transformadora das revoluções. Trata-se de criar de novo toda uma semântica social, uma nova linguagem matricial que consubstancie uma ontologia feminina necessária e primeira, finalmente dissociada do masculino heteronormativo, perante o qual, em todas as situações, as mulheres são apenas o negativo, um desvio ou insuficiência. Somos todas herdeiras das Três Marias, mas ainda mais o é Anabela Mota Ribeiro, com O Quarto do Bebé.

            A escrita materializada neste romance é não somente de uma mulher, sobre uma mulher, como também constrói os termos desta nova semântica ontológica do feminino, numa busca identificada nas primeiras páginas: “Não tenho idioma próprio. A minha voz é um grasnar que fere os ouvidos.” O idioma constrói-se, performativamente, ao colocar-se “nua e intrépida”, num registo tão diarístico e intimista quanto filosófico, perante questões existenciais e humanas fundamentais, cuja declinação – percebe-se aqui – se afasta do masculino universal, quando a experiência vivida é a do corpo feminino. Mais: quando a experiência do corpo feminino enfrenta, numa situação de encarceramento, a proximidade possível da morte, através da doença que o invade a partir do interior – o cancro – e do exterior – a pandemia COVID 19. Por isso, a expressão desta experiência se faz entre verso e reverso, como a voz narradora de Ester bem explica, em reflexões metaliterárias que atravessam o diário e adicionam à ficção uma importante dimensão epistemológica, novamente herdeira e continuadora da linhagem feminina e feminista das Três Marias.

Anabela Mota Ribeiro interroga os mistérios e os mitos tradicionalmente constitutivos do feminino, como a fertilidade, a gestação, a maternidade, o erotismo, olhando-os a partir de um avesso que é a sua negação pela doença. Esta obriga à procura de uma nova linguagem, distante da idealização romântica ou da dissolução num abstrato inacessível, para assumir o metabólico, o fisiológico, o escatológico, como um dicionário que, como esclarece a narradora Ester, tanto é profundamente concreto como indissociavelmente simbólico. Resiste, assim, à secundarização pelo normativo estético masculino. Talvez seja esta a chave da refundação semântica do feminino e o seu poder verdadeiramente revolucionário: assumir a materialidade do corpo como sede de reflexão filosófica e abordá-lo numa metodologia digressiva, a que chama “janelas comunicantes”, e de uma “fala orgânica”, título do diário de Ester, que se prende a determinadas palavras nodais como eixos estruturantes.

            As primeiras palavras nodais agregam-se no núcleo Morte-Vida, início-fim, aridez-fertilidade, luto-gestação, doença-maternidade, menopausa-líbido. As dolorosas e poderosas imagens de um seio com leite materno infetado de cancro (27) e de um “lençol ensopado em sangue vermelho. Descarga menstrual na noite da cirurgia” (28) destroem poderosamente as antíteses só aparentemente contidas nos termos anteriores, tal como um dos sonhos da protagonista nos “meses de namoro do cancro”: “O primeiro foi com a minha morte e o meu medo de morrer, e nele havia também um renascimento e uma temperatura amniótica.”

No mesmo eixo semântico, a assunção da escrita como processo de gestação, ab ovo, que se traduz no título do romance, ou da escrita como manifestação de vida eruptiva, de desejo por si mesma, da capacidade de sonhar e fantasiar que só a libido traz. Esta desaparece do corpo, mas verte-se na criação literária: “A minha libido exprime-se agora assim: escrevo, sou capaz de pensar em minas onde tudo é onírico e fecundo” (61).

Se esta associação da poiesis à líbido não é de agora, a originalidade do idioma da autoficção feminista de Anabela Mota Ribeiro reside na ligação a outro conjunto de palavras nodais, articuladas na dicotomia entre a limpeza e o nojo, o pudor e a devassa, a vaidade e a exposição. A escrita surge na dimensão fisiológica de um processo metabólico, digestivo, e, ainda assim, como criação, composição, modelação estética, Gestaltung, através da ressignificação de um complexo semântico concreto e simbólico provocador, na contradição expressa e intencional da voz que diz ser incapaz de usar esse vocabulário, ao mesmo que, evidentemente, o faz: “Estou um pouco presa – maneira de falar do meu intestino e de uma obstrução na minha capacidade de escrever. Qualquer coisa, que não sei onde está, mas que está num lugar inacessível, recusa-se a ser evacuado, obrado, a integrar um corpo, a ganhar forma.” (87)

            Curiosamente, é no cruzamento entre o que aparece como “uma obsessão pela limpeza” e a assunção do que há de sujo na existência material feminina, em contraposição com os mitos e os reportórios simbólicos tradicionais, que Ester constrói uma linhagem feminina. Isto acontece através de uma relação problemática com a mãe, na qual se revê e da qual se distancia. Muito embora tenha superado a extrema pobreza, a violência e o abandono que caracterizaram a vida das mulheres portuguesas rurais e precariamente alfabetizadas nos anos 60, com os maridos na Guerra colonial, a narradora liga-se à mãe, paradoxalmente, tanto pelo orgulho dos pobres na limpeza e na ordem doméstica como por laços de um sangue menstrual, cujas tonalidades vão escurecendo, como a vida que nasce e a vida que arrisca esvair-se em partos difíceis: “Quando era menina e apanhava os pensos higiénicos da minha mãe, comparava a sua cor acastanhada com a cor do meu fluxo. Achava-me superior porque a minha cor era viva. Também achava que era superior porque não tinha os mamilos castanhos e proeminentes da minha mãe. Os meus eram delicados, pequenos, cor de leite. Eu não queria ser como a minha mãe, talvez mulher. Hoje quero ter a magreza extrema da minha mãe. Perder as formas arredondadas, como se voltássemos as duas a ser meninas.” (28)

            Se a escrita é metabólica, ela é também o sentimento de domínio sobre o corpo e as suas formas, a preservação e a depuração face à invasão da doença, corpo violado, que expulsa corpo estranho, corpo vivo carregando corpo morto. Cancro, Covid 19, pragas bíblicas e outras pestes rodeiam as mulheres tanto quanto as guerras muito reais do assédio e da violação. Também esta precisa de um novo idioma: “O corpo das mulheres é um lugar de batalha. No nosso imaginário, vemos aleijões, partes decepadas, a sombra de um cutelo a acompanhar os nossos passos.” (136)

A escrita surge, então, como superação da amputação, evacuação do falo (128), o orgasmo da inteireza reconquistada, a possibilidade de alinhar os elementos díspares e contraditórios da germinação de uma identidade de uma mulher atirada para a contradição da sua condição, em particular depois de uma histerectomia. “Mulher sem útero. E o que é um útero? A minha casa nunca foi casa de ninguém, e não é verdade, porque foi casa de mim mesma. Nasci de mim, nasci de um útero infértil, nasci de um peito atrofiado, nasci da vergonha, nasci das pernas inchadas da minha avó, nasci do cancro. Tenho de pensar de que casa me despeço.”

O Quarto do Bebé representa, afinal, esta implicação recíproca de morte e nascimento, aurora e despedida, a célula primordial e o regresso à lura, dúplice metáfora do ovo, que contém uma genealogia de mulheres e os seus sonhos, num idioma singular, o idioma de memórias não póstumas como as de Brás Cubas, mas conjugadas no presente impossível do registo da sobrevivente dos campos de concentração, invertendo os tempos, em discurso direto como uma extensão orgânica do ser (187), frases que não morrerão murchas no chão, ao contrário do que diz a narradora, mas que fazem deflagrar os grandes incêndios, pelo menos da inquietação, como bem diziam as Três Marias.

 

Texto lido por Catarina Martins, docente da Faculdade de Letras e investigadora do CES, na apresentação do romance na Biblioteca da Universidade de Coimbra, a 13 Dez 2023.